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Contos-->Ângela -- 11/03/2007 - 02:54 (MARIA CRISTINA DOBAL CAMPIGLIA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Ângela

Passei na calçada com pressa. Alí estava ela, de cera, mostrando sua boca vermelha.A vi rebolando,num jogo de quadrís espetacular só para mim, atrás da vitrine.

O frio poderia ter congelado meus neurônios? O cigarro assim, tão cedo, poderia ter produzido um efeito alucinógeno...Ou não? Eu sabia o que vira.

Repetiu-se o fato diariamente.

Inverno congelante e meus problemas. Como fazer para fugir da tremenda ilusão, com tantos motivos para fugir da realidade?

Sabia que a encrenca seria gigantesca. Dizer à minha mulher, e aos meus amigos, que me apaixonara pela manequim- vitrine à frente da avenida?

Anos passaram-se. Dois, três, sei lá.

Procurava razão para aquilo. Busquei nos antepassados alguém que tivesse história de esquizofrenia.Algum parente longínquo que se suicidara por não agüentar a pressão...Não achei nada. Nada que justificasse aquela aparente loucura, ao menos geneticamente.

Eu a apelidara de Ângela.Nem sei por quê.Continuava a me atormentar. Cruzava a rua onde deixava o carro para pegar o metrô, e tinha obrigatoriamente que passar pela calçada da vitrine.

Um dia, fiz de conta que não ia olhar.Antes de acabar a vitrine, fui obrigado a olhar : ela aproximara - se do vidro e colara o rosto nele, fitando-me com tanto afinco que não acreditei. Seus olhos brilhantes penetraram-me por horas, pelo dia inteiro.Você não teria olhado?

Entre a vontade de vê-la e a curiosidade de descobrir se estava alucinando, olhava-a todo dia. Naquele dia, aí estava ela : tinha saído do seu lugar habitual e colado o rosto no vidro,para que eu a olhasse. Ninguém passava nunca nessas horas, ninguém via o que eu via...

Nos dias em que não passava por lá, a coisa piorava. Eu ficava avoado o dia inteiro, só torcendo para que o tempo passasse rápido, me encontrava de repente escrevendo "Angela" nos papéis, como na época adolescente. Só pensava em chegar a hora de vê-la, na manhã seguinte. Passar noutro horário?
Improvável. Era como trair o nosso encontro. Era arriscar numa questão complicada : a calçada cheia de gente, as funcionárias da loja vestindo-a para o dia seguinte, outros olhos olhando-a. Não saberia o que fazer. Nunca arrisquei. Não fazia parte de nosso código.

No dia fatídico de vinte e quatro de dezembro, eu já separado da Vivian há meses, e ainda apaixonado pela Ângela, passei de manhã, como sempre, pela calçada (adorava ver os modelos diferentes que usava). Ultimamente a gente só acenava com a mão e ela sempre sorria para mim: assim eu tinha certeza de que estávamos juntos, e de que a nossa loucura continuava.Mas naquele fatídico vinte e quatro de dezembro, eu passei e ela não estava. Fiquei como um louco, voltei várias vezes antes de ir à estação : não conseguia acreditar.O calor agora levaria a culpa se eu, num ataque de raiva, quebrasse o vidro. Colei o meu rosto no vidro da vitrine, pensando que ainda a acharia, mas... nada! Havia outra, que nada tinha a ver com ela, e que não me via.

Sabia que tinha que tentar manter a racionalidade.Como? Perguntaria na loja? Estava fechada. Eu tinha horário rigoroso para chegar à redação. Fiquei como anestesiado a manhã inteira. Não entendia o que estava acontecendo.

O diretor me chamou, e fui à sua sala.Entregou-me um cartão que nem olhei, e disse: "ligue. Você trabalhará desde hoje com um fotógrafo, para que possa somente se dedicar a escrever as reportagens". Relutei um pouco : além de gostar de trabalhar sozinho, eu adorava fotografar também.
"Você acha que minhas fotos são ruins, é isso", eu disse.
-Não é isso,apenas você é profissional da escrita. E muito bom.Quero o mesmo nas fotos e o jornal tem condições de bancar- disse o Abelardo.
"E vai logo, que começam hoje", acrescentou. "Aliás, talvez nem precise ligar, porque já marquei para que viesse te conhecer. E você demorou, então acho que já está por aí".

Saí da sala. Confesso que não gostei. Mas estava anestesiado, e quem mandava era ele.

Ao chegar à minha mesa, não acreditei. Paulo, o colega da mesa ao lado, disse: "aí está ele!"- apontando para mim.
"Ésta é a sua nova parceira, Edú, ela vai trabalhar com você!"
Virou-se. Fez um "sim" com a cabeça. Era idêntica. Era ela. Estendeu a mão : "Oi, muito prazer. Sou Ângela, a fotógrafa".
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