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Contos-->TJN - 009 = O Adultério -- 20/02/2007 - 10:03 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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O ADULTÉRIO

Os sofrimentos porque passa um espírito, são sempre a consequência da maneira como viveu na Terra. Certo que já não sofrerá mais de gota nem de reumatismo; no entanto, experimentará outros sofrimentos que nada ficam a dever àqueles.

Allan Kardec


Vivia numa pequena casa pintada de branco, na rua de Baixo. Era um rés-do-chão alto, com duas amplas janelas debruçadas sobre o passeio, e entre elas, três degraus de pedra encimados por uma porta com aldrabas de ferro. Nos Invernos mais rigorosos o rio transbordava, inundava a Vila e houve mesmo um ano em que cobriu o segundo degrau, chegando a beijar a soleira da porta. A situação melhorou bastante quando construíram a barragem, e as cheias passaram a ficar circunscritas à parte mais baixa da povoação.
Enviuvara cedo, a mulher apanhada na leva da pneumónica. Desde então vivia sozinho, fazendo traduções (dominava três idiomas), escrevendo romances do tipo Max du Veuzzi e dando explicações a alunos com dificuldades nas línguas curriculares. Quando a electricidade chegou àquelas paragens rejeitou-a e quando a água foi canalizada também a dispensou. Cântaros e candeeiros a petróleo foram o ponto máximo de civilização que se permitiu.
Vestia sempre de preto, e poderia ser confundido com um seminarista da época não fora a sua farta cabeleira branca. Durante todo o ano, fizesse sol ou chuva a sua indumentária permanecia inalterável.
Ainda o sol trepava pelo lado de lá do horizonte, já ele passeava pelos pinhais, com o seu passo miudinho e acelerado como se perseguisse algum estranho objectivo. Quando regressava a casa, passava normalmente pelo café do Largo do Chafariz e pedia um copo de leite e uma torrada. Olá, tudo bem?...Umas banalidades, às vezes uma crítica ao Presidente da Câmara, e o tempo ia decorrendo sem grande alvoroço.
Um dia tudo se alterou. Entrou, sentou-se, pediu o pequeno-almoço, e enquanto aguardava, calmamente, como que segredou para os da mesa ao lado:
- Já hoje estive a falar com a minha mulher.
Olharam uns para os outros, intrigados, sem perceberem, e um deles arriscou:
- E então o que foi que ela disse?
Estava revoltadíssima. Era o carro dos bombeiros avariado em pleno verão e ninguém para resolver o assunto, o velho que desaparecera misteriosamente do asilo da Misericórdia, as obras de restauração da praça de touros que há dois anos estavam emperradas…
- Vejam lá, que até se fartou de protestar porque há um ror de anos contratam sempre a mesma orquestra para as festas do santo padroeiro. Ela acha que deviam variar.
A partir daquele dia um ser do Além passou a ser a voz crítica de todos os acontecimentos e não acontecimentos daquela terra, ao ponto de algumas pessoas começarem a condicionar o seu próprio comportamento. Não que viesse daí grande mal ao mundo, antes pelo contrário, era até benéfico que as pessoas procurassem não errar com medo dum puxão de orelhas tão espiritual. Passou a ser normal, à hora do pequeno-almoço, naquele café de província, haver um pequeno espaço para saber novidades do outro mundo.
Creio que foi no princípio do Inverno de 1947 que esta situação sofreu um revés. Um dia apareceu sorumbático, calado, os olhos fugidios, e nunca mais foi o mesmo. Quando, mastigando a sua torrada e sorvendo ruidosamente
o seu leite quente, se atrasava com o correio etéreo, as pessoas antecipavam-se ansiosas:
- Então, já hoje falou com a sua mulher?
Que não tinha calhado, dificuldades de contacto, falta de concentração, ou simplesmente falta de tempo, eram as desculpas que adiantava. Uma vez, mal-humorado, respondeu:
- Estive mesmo agora a falar com ela.
- E que disse ela, que disse?
- Olhem, vejam lá, mandou-me à merda.
Este súbito azedume somado com uma alteração que se deu na sua rotina diária, despertou os mais atentos. Começou a frequentar o cemitério, não com muita assiduidade, diga-se em abono da verdade, mas só o simples facto de passar o tempo junto da campa da falecida, causou alguma estranheza às pessoas mais entrosadas com estas coisas do espírito.
Quem é que não sabe que aquele que visita um túmulo apenas manifesta, por essa forma, que pensa no espírito ausente? A visita é a representação exterior de um facto íntimo. A prece é que santifica o acto de rememoração. Nada importa o lugar, desde que seja feita com o coração. Então porquê essa atitude deveras insólita? Nunca iremos ter resposta para este enigma.
O que sabemos resulta da versão do padre da paróquia que cumulativamente com as funções inerentes ao cargo, ainda dava aulas numa escola da região e como capelão militar acorria também a satisfazer as necessidades espirituais dos homens da guerra.
Era um homem baixo e entroncado, tipo boxeur de sotaina, a qual só despia para as suas lides castrenses. Injustamente, tinha fama de violento, pois para além de um ou dois cachações a soldados dorminhocos e alguns carolos a alunos mais salientes, nada constava de desabonatório no seu currículo. Também se dizia que gostava da pinga, mas a única prova que havia era ele mandar o sacristão comprar vinho à taberna do Cipriano com tanta frequência e quantidade, que se fosse usado só para a santa missa, quando chegasse o momento de genuflectir, simplesmente cairia de borco. O que ficou provado, isso sim, foi o desbragamento da sua língua, pois uma vez em altos berros e em termos de fazer corar um carroceiro, mandou um grupo de mulheres para casa coser meias, só porque tinham a santa devoção de passar muito tempo na igreja. Não se faz.
Mas voltando à história.
Contou ele que certo dia, quando saia do cemitério, depois de acompanhar um morto à sua última morada, foi interpelado pelo nosso homem que lhe pediu uns minutos de atenção para falar das suas preocupações. Então, voltou para trás e, conversando, acompanhou-o até à campa da mulher, onde com ar consternado lhe confidenciou que ela o traía com João Carpinteiro, entretanto falecido. Ela própria lho confessara, dando-se ao desplante de descrever pormenores dos momentos mais íntimos que lá no céu desfrutava com o João. Um horror! A adúltera!
- Mas não perde pela demora. Já não devo durar muito, e quando lá chegar ela vai ver como lhe mordem - ameaçou.
- Tenha calma homem, isso nunca vai acontecer - respondeu o capelão militar - você nunca vai entrar no céu. À uma porque a porta é muito estrita, por outra acho que S. Pedro não usa serrotes.


António José Pereira da Mata


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