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Contos-->O AVÔ-PADRINHO E O NATAL -- 02/02/2007 - 12:01 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O AVÔ-PADRINHO E O NATAL


Francisco Miguel de Moura*

Tudo muda na vida. Só a morte não muda, é eterna. Mas, naquele tempo, o menino não pensava na morte, embora sentisse medo de desaparecer, de deixar a mãe, as irmãs, a casa... Pensava muito mais na vida, e o crescer era uma eternidade, não via o tempo de ficar grande. Não tinha comparações a fazer, a vida estava toda por vir.
Porém, muitas mudanças depois foram sendo comparadas por ele. Começa pelo Natal, tempo esperado com ansiedade. As boas lembranças com saudade, e outras nem tanto, mas mesmo assim gostosas, do seu tempo de criança, vêm no fim do ano, mais, muito mais que das fogueiras de São João e das novenas. E por quê? Tempo em que os pais mandavam os filhos aos padrinhos, no desejo de que ganhassem algum presente – costume da época.
– Vá lá e peça a bênção do padrinho e da madrinha.
No interior mora-se longe uns dos outros, e assim o passeio era sonhado pelos meninos e esperado pelos avós, tios, tias, primos. Ele, Chico, como primogênito, ia aos avós paternos, padrinho Sinhô do Diogo e madrinha Rosa, onde era recebido com festa. A casa do velho Sinhô tinha fartura. Por outro lado, em matéria de conversa e de presente ele era um pão-duro. A conversa principal foi com os tios e tias, e um pouco com a avó, também muito calada, e com os primos do seu “tope”.
Era a primeira vez, lembra muito imprecisamente. Foram tantos os natais e as brincadeiras com Chico da tia Doninha, criado por seu avô como filho e de quem o menino alimentava uma boa dose de ciúme, que se desfez ao primeiro contato. Brincaram em redor da casa com ossos de reses que morreram ou foram abatidas como se estivessem vivas, no curral. Também com cavalos-de-pau feitos ali mesmo de madeira tirada da mata. Tiraram imbus dos imbuzeiros, deram água aos animais e aprenderam a montar em jegues. Chegando a casa tarde e cansados, ainda foram brincar de carrapeta – uma pequena cabaça em cuja extremidade menor se fazia um furo e metia um pauzinho trabalhado a faca ou um pequeno pedaço de ferro redondo, de forma que rodasse como um pião. E rodava. Um encanto.
O menino chega em casa maravilhado. Ainda na euforia, já pensava em visitar a Lapinha, para ouvir as pastorinhas cantarem na igreja. Achava muito bonito. Queria também contar aos meninos, lá no povoado, o que fizera no seu Natal. Mas teve que esperar até quando a mãe pudesse levá-lo.
Da casa do padrinho-avô, a volta foi no dia seguinte à festa, meio aborrecido porque não queria terminar o passeio. Menino é assim. Mas já nem pensava no Natal, e a mãe repetiu-lhe a pergunta da hora da chegada:
– Cadê o presente, meu filho?
– Meu padrinho esqueceu, mãe.
– Esqueceu nada! Que padrinho é esse que deixa o afilhado pagão? Você falou que era Natal? E que era tempo de presentes.
– Não! – disse esfregando os olhos, arrependido.
– Tem nada não, meu filho, não fique triste! – ela me consolou. – Nós somos pobres mesmo. O menino que nasceu em Belém, na manjedoura, era pobrezinho também.
Ali, então, não lhe ocorreu nenhum argumento. Mas, lembrando do Presépio de Natal que todo ano ficava exposto na igreja do povoado, Chico imagina, percebe: – O menino na manjedoura, tudo limpinho, rodeado de animais – vacas, ovelhas, jumentos que pastavam a grama verdinha, alegremente. Ao redor, os Reis Magos com os presentes: ouro, incenso e mirra. Uma estrela surgia no céu... As pastorinhas entoavam cantigas bonitas, a uma só voz. Seu pensamento só aceitou aquela situação, um esquecimento quase propositado – a falta do presente de Natal – porque sabia que Jesus era pobre.
– “Ora, se o filho de Deus merecia tudo aquilo... e eu também era filho de Deus!...”
Mas, se caísse na besteira de expressar tal pensamento, receberia de sua mãe um grande puxão de orelha, antes mesmo que percebesse a extensão de suas palavras de revolta. Baú velho da infância! Nem todas as festas são iguais para todos. Por isto, o menino Chico não se envergonha de dizer que aquele foi um Natal não muito feliz, mas do qual ainda se recorda com inusitado prazer.
Se não fosse Natal...

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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, seu e-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br
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