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Contos-->O ENVELOPE FECHADO -- 04/09/2006 - 17:53 (Délcio Vieira Salomon) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. O envelope
fechado


Ao abrir a caixa do correio, como o fazia todas as manhãs, deparou com um envelope branco. Comum como a maioria. De especial, só tinha o fato de ser a única correspondência daquele 24 de agosto de 1993.

Acompanhavam-no apenas os exemplares dos dois jornais por ele assinados. Nenhuma correspondência a mais. Solitário, naquela hora, recolheu a igualmente solitária correspondência.

Enquanto caminhava do portão ao alpendre e deste à sala, reparou que o envelope não tinha remetente. Estranhou. Movido pela curiosidade e pela desconfiança, talvez mais por esta do que por aquela, examinou detidamente aquele invólucro. Virou-o e revirou-o várias vezes. Ao mesmo tempo, fixava os olhos em cada ponto do verso e do anverso do envoltório. Parecia buscar pista de identificação.

Sua mente começou a desprender-se, aos poucos, do objeto, em suas mãos e a transportá-lo para outras plagas. Não mais para o habitual mundo de suas reflexões transcendentais sobre a realidade que nos rodeia. Naquele momento seu interior começou a rechear-se de dúvida e hesitação. Converteram-se em preocupação e esta tomou conta de todo seu ser.

Da sala-de-visita passou para o quarto. Abriu o guarda-roupa, puxou a gaveta de lenços e meias e enfiou o envelope debaixo deles. Sentou-se à cama e começou a ler o primeiro jornal. Na verdade não lia, treslia. O pensamento não se desprendia do envelope.

Já meio tenso, retornou à gaveta. Puxou-a novamente e retirou o envelope. Foi neste gesto, neste átimo a separar a tensão da atenção, que descobriu não ser ele o destinatário, mas sua mulher. Estava ali escrito Dinorah e não Leonel Ferreira da Silva Gomes.

Suspirou fundo. O que, em nada, serviu para relaxar-se. O pulmão cheio de ar não lhe proporcionou alivio. Pelo contrário. A cabeça começou a ferver.

Se a carta era dirigida a ela e o nome do remetente não aparecia, por certo era uma carta anônima. Provavelmente um libelo de acusação contra ele. O delator, como sói acontecer, não queria denunciar-se. Apenas carregar sua inveja, seu despeito em alguma acusação, cuja vítima só poderia ser ele.

Mas por que estaria pensando em tal possibilidade? Além do mais, quem lhe garantiria haver ali dentro uma carta? E ainda por cima anônima? O que fazer então? Se houver dentro daquele envoltório realmente uma carta e se esta for anônima e a denunciar à sua mulher, alguma coisa de grave contra ele, de três uma. Ou ele teria de desvendar o mistério abrindo o envelope e em função da descoberta tomar atitude correspondente e à altura.. Ou deveria rasgar e queimar envelope e carta juntos (não poderia só abri-lo e, caso não fosse o que pensava, entregar a mulher, com o pedido de desculpas, por ter-lhe inadvertidamente violado a correspondência, julgando ter sido endereçada a ele). Ou deveria guardar a sete chaves o objeto fatídico, que poderia estar trazendo em seu bojo a mais vil das calúnias ou o mais bem arquitetado plano de desestabilização de sua vida conjugal.

Ora, por que foi pensar logo em vida conjugal? Acaso tratava-se de traição, infidelidade, adultério? Se o fosse, o destinatário deveria ser ele. Sem dúvida. Para haver adultério, tem de haver culpa. Mas, neste caso, a culpada obviamente seria ela.

- Como pensar isso numa hora dessas? Estou ridículo. Seja objetivo, Leonel! Existe comigo um envelope endereçado a minha mulher e não a mim. Logo o possível acusado sou eu.

Certamente a decisão de queimar seria a mais correta: apaziguaria sua consciência e as coisas caminhariam, daí para frente, como se nada houvesse acontecido. Num segundo, entre interrogar-se e pensar nesta última possibilidade, a preocupação, a esta altura, já assumira toda a configuração de um tribunal instalado em sua mente.

O recôndito de seu pensamento fê-lo ouvir voz esganiçada, enxergar olhos crispantes, sentir dedo em riste apontado na direção de seu nariz e os três, em conjugação, estavam a proferir tremenda sentença:

- Leonel, Leonel, você acaba de confessá-lo. Você, neste momento, é, ao mesmo tempo, acusador e réu de si mesmo.

Toma meia consciência de que está diante de uma diatribe entre dois egos dentro de si, ou melhor, lembrando-se de Freud: de seu id contra seu ego, ou, talvez, de seu ego contra seu superego!?

- Quer saber de uma coisa, Leonel? Que a psicanálise vá p’ro inferno! Eu não acredito em nada disso. Consciência, inconsciência, subconsciente, ato falho, repressão, mecanismos de defesa, complexo de inferioridade, projeção, sentimento de culpa... vá tudo à merda.

O fato é que está nervoso. Teme alguma coisa e, sem o saber, está confessando agora, com este envelope na mão, que tem culpa no cartório.

- É isso? Tenho culpa mesmo? Será que foi o programa de sábado retrasado com aquele pedaço de mau caminho? Estava no bar, religiosamente freqüentado no final de semana e me aparece aquela linda morena, aluna de psicologia, de gostosas pernas, seios de mamão papaia, estufadinhos (já podiam ser saboreados através do decote, à distância, pareciam querer saltar para fora da blusa, do sutiã já se tinham livrado há muito tempo!). Lembrei-me de Bandeira: “quando estás vestida/ ninguém imagina/ os mundos que escondes/ sob as tuas roupas”. Ah! aqueles olhos que me fizeram evocar os de Iracema, “negros como as asas da graúna”. Mas negros não eram os cabelos da “virgem dos lábios de mel”? Dá na mesma! Se os cabelos eram negros, os olhos também deveriam ser. Além de negros, a lembrar as “estrellas negras”, que “vuelan, brillan, palpitan”, “relampaguean!” cantados por Marti. Eram, também, dissimulados e, ao mesmo tempo, de ressaca como os da Capitu!... Lembrava de poesia, literatura, poetas, provavelmente, para impressionar, na hora de abordá-la e puxar conversa. Por certo. Cheguei até a pensar: se ela me der bola, vou sair com ela e, se for preciso, jogo no primeiro bueiro os quinze anos de casado e largo minha mulher. Afinal sou normal e até hoje não pulei a cerca!... Chegou a hora. Surgiu a oportunidade. Eh! concordo com o Ciro Gomes: - “todo homem é polígamo”. E não é que ela sorriu para mim, com aquele dengo... Ai meu Deus!. Sedução fatal!... Não tive escolha. Não podia perder a sorte grande. Acenei para ela e convidei-a para vir para minha mesa. Ela, de imediato, veio. Não sei como me contive. Sentia, já sob a calça, a inevitável intumescência do tesão. Mas ela merecia um comportamento de cavalheiro. Deveria respeitá-la antes de qualquer ousadia. Conter-me, para não cometer um desatino. Os amigos colegas de gole já começavam a chegar e o escândalo seria irreparável. Juntinhos ali, naquele canto de bar, conversamos, bebemos vários chopes. Aos poucos fui me aproximando mais ainda, até conseguir segurar-lhe a mão. Ela gostou e apertou a minha também. Enfim chegou o momento oportuno. Depois de vários beijos, sussurrei-lhe ao ouvido, o esperado convite. Saímos abraçados, entramos no carro e fomos para o motel. Motel “Cavalo Branco”. Com banheira de hidromassagem, cama redonda e espelho no teto. Ali o que aconteceu, nem precisa contar, quero dizer, lembrar. Mas bem que gosto de refazer mentalmente, segundo por segundo, cena por cena, gesto por gesto, reação por reação, palavra por palavra, gemido por gemido... até o primeiro orgasmo, o segundo e o terceiro. Todos, em espaços de alguns segundos, tidos e sentidos conjuntamente. O gozo da eternidade em frações de tempo. Impossível esquecer. Já noite avançada, quando de lá saímos, ao beijá-la num misto de gratidão e arrebatamento, confidenciei-lhe: a trepada dessa noite valeu mais que todas as dadas nestes meus quinze anos de casado. Realmente você compensou a primeira pulada de cerca em minha vida.

Até este momento, sua recordação erótica lhe tinha desviado a atenção do envelope fechado. Olhou para ele e procurou sossegar a consciência:

- No bar sempre houve amigos e conhecidos. Gente em que sempre se pode confiar. Entre bebuns não há traidores. Ninguém ali teria coragem de cometer uma infâmia, muito menos envenenar-me as relações com minha mulher. Posso ter falsos amigos, mas canalhas, não. Mesmo sabendo o que escrevera o poeta: entre amigos encontrei canalhas e entre canalhas encontrei amigos. Ah! Não. Ele não falou canalhas, falou cachorros. Deixa p’ra lá. Dá na mesma. Na verdade, caso mesmo, só tive este. Não, não me lembro de ter havido outro.

Mal terminara de garantir a si mesmo a própria fidelidade, eis que a porta do quarto se abre e entra sua mulher:

- Que aconteceu, Leonel? Há quase uma hora estou te esperando, na copa, para tomar o café e você não aparece.

Notando que ele acabara de enfiar, apressado e desajeitado, o envelope no bolso do pijama, lhe pergunta:

- Alguma má notícia? Acabou de recebê-la pelo correio e não quis me contar?

Diante do flagrante, não tendo outra saída, entregou-lhe o envelope fechado com esta confissão de culpa:

- Perdoe-me, Dinorah. Este envelope veio para você. Pensei que era para mim. Não tem remetente.

- Mas, Leonel, você não o abriu!?

- Não mesmo. Abra-o você. Só lhe garanto uma coisa: - sou inocente. Não tenho culpa nenhuma.
Dinorah estranhou, mas não hesitou um segundo. Rasgou a extremidade superior do envelope e tirou de dentro dele uma carta dobrada e dentro dela um cartão em papel vergê com bela apresentação gráfica. Na carta se lia:

Desculpe-nos ter-lhe enviado esta carta em envelope comum e sem remetente. Sabemos que a maioria das pessoas não abre correspondência, quando a percebem ser de propaganda comercial.
Mas nosso propósito não é comercial, no sentido pejorativo do termo,nem propaganda de produto qualquer. Trata-se de uma proposta para pessoas inteligentes e de visão como você.
Veja se não temos razão de selecioná-la entre milhares de pessoas desta cidade.
Na verdade,temos muitas informações a seu respeito. Como, por exemplo, que possui curso superior, é executiva de grande empresa da área de turismo e já adquiriu um notebook em nossa loja.
Permita-nos tomar-lhe alguns minutos de sua preciosa atenção para o que a seguir vamos dizer-lhe.
Se você ainda não adquiriu um Scanner para seu computador, não perca esta grande oportunidade.
Somente quem tem Scanner é capaz de realizar a própria performance de aficionado na tecnologia de nossos dias: a informática. E até ganhar a sorte grande. Isso mesmo, não duvide. Entenderá o motivo ao ler a mensagem contida no cartão que junto com esta chegou a suas mãos.
Basta reproduzi-la, gravá-la no próprio Word e traduzir a linguagem escrita em Common Bullets para Arial ou mesmo para o Times New Roman.
Mas, para reproduzi-la e gravá-la, precisa do Scanner GINIAS. Ele está à sua disposição na Loja Ypon, a R$450,00, à vista ou em 5 vezes, sem juros.
Em tempo: mande-nos o número da fatura do GINIAS adquirido, pois, se os cinco últimos algarismos corresponderem aos respectivos cinco últimos do 1º prêmio da Loteria Federal do primeiro sábado de janeiro de 2002 terá direito de ir aos Estados Unidos, de graça,com direito a um acompanhante, para conhecer, entre outras atrações, as maravilhas da Informática e percorrer a fábrica Scanner GINIAS.

No cartão estava mensagem formatada em caixa alta. Em alto relevo, ouro sobre azul, escrito na fonte dos caracteres indicados na carta. A mensagem terminava com o seguinte pensamento:




Imediatamente, Dinorah dirigiu-se à copa, onde Leonel estava começando a tomar o café. Entregou-lhe a carta com a mensagem. Leonel leu-a, com alívio. Abriu largo sorriso de gratidão para a esposa e disse, misto de curiosidade e preocupação:

- Precisamos decifrar esta mensagem enigmática o quanto antes.
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