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Crônicas-->Seu Basílio (lembranças do Daniel...) -- 09/06/2004 - 11:43 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. * Os fragmentos da correspondência enviada pelo meu irmão (e usineiro) Daniel Carrano referem-se ao meu texto "Crença e Agnoticismo", onde destaco a figura do "Seu Basílio". Ocorre também alusão à reedição de um conto seu, no meu "Saudades do texto do Daniel Carrano!"

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Mensagem referente ao texto Saudades dos textos do Daniel Carrano! - Roteiro_de_Filme_ou_Novela.


Gina,

Obrigado. Sinto-me honrado. Lembra-se dos personagens? Que saudade, né? De fato gosto muito de escrever. É um "hobby" relaxante no momento em que o pratico despretensiosamente.

(..) O Sr. Basílio era daquele tipo de pessoa a que denominamos de "taquipsíquico". Falava enquanto trabalhava. E o mais interessante é que não cansávamos de ouvi-lo. Falava rápido, gesticulando, encenando, imitando os trejeitos e as falas dos seus personagens. Era muito crítico e debochado, mas nunca se referia às pessoas com maldade ou desprezo. E eu, na minha meninice, divertia-me com todo aquele teatro e ria de perder o fôlego. Não era homem de bravatas. Nunca falava na primeira pessoa, a não ser para contar suas histórias do tempo de criança, cheias de curiosidades e de excentricidades engraçadas. Constituía-se de um tipo físico e psicológico nada comum. Se tivéssemos que fazer um filme sobre ele, não encontraríamos jamais um ator que se lhe assemelhasse. Seu rosto não era suave. Poderíamos defini-lo como uma carranca, mas transparecia bondade e generosidade sem par. Uma sinceridade e uma ingenuidade de dar saudade. Relembrar o Sr. Basílio é um bom meio de nos consolarmos quando nos sentimos deprimidos e decepcionados com tanta pobreza de valores. Sua grandeza ao lado de sua humildade encobre sozinhas toda a repugnante soberba e hipocrisia que nos entristece.

Certa vez fomos, papai, ele e eu, almoçar fora no dia 31 de Dezembro. Depois de percorrermos inúmeras churrascarias lotadas em São Cristóvão e bairros próximos acabamos por retornar ao Centro e terminamos num restaurante sofisticado da Rua São José. São imensas as saudades daquele dia. Eu deveria ter uns quinze anos e até hoje sinto o sabor daquele formidável almoço regado a muitas pilhérias e casos interessantes. Depois fomos assistir a um filme nacional no Pathé da Cinelândia. No caminho, cruzamos com uma moça exuberante, de tipo bastante sensual e de trajes provocantes. Ambos viraram-se para trás após tê-la ultrapassado e depois me olharam constrangidos ao se darem conta da minha presença. Achei interessante o respeito por mim e ao mesmo tempo a cumplicidade deles no tocante à manifestação do interesse sexual como acontecia normalmente entre os jovens mas que eu desconhecia existir entre aqueles respeitáveis senhores.

Ao deixar o cinema, ele comprou uma lata de uns cinco litros contendo batatas fritas e nos presenteou com ela. Recordo que aquela lata durou vários dias servindo a todos lá em casa. A Praça Mahatma Gandhi estava lotada de festivos, incluindo vários travestis que se divertiam no Reveillon, despertando a nossa curiosidade. Mesmo aqueles antiquados senhores sabiam respeitar aquela postura e não fizeram nenhum comentário desabonador. Já tarde, caminhamos em direção à estação dos bondes de Santa Teresa. "Seu" Basílio despediu-se então, não se esquecendo de pedir para recomendá-lo a todos lá de casa e de desejar Feliz Ano Novo. E dirigiu-se então pela Avenida Chile, em direção à Gomes Freire, onde residia. Foi então que o Papai me falou que aquele era o seu dia de aniversário. Fiquei olhando aquele homem sumindo reta abaixo naquela longa avenida deserta, com seu jeito peculiar de andar, rumo à sua habitual solidão e senti aumentar a minha então já grande admiração.

Em nenhum momento daquele dia, o Sr. Basílio fizera qualquer comentário triste ou desagradável. Nenhuma lamentação, o que, aliás, era do seu feitio. E apesar de ser o seu aniversário, não se postou nem por um instante no centro dos assuntos que se desenvolveram. Apesar de muito prolixo, o Sr. Basílio também sabia escutar e respeitava opiniões. Eu recebia de ambos, papai e ele, um carinho todo especial. Várias vezes, fui presenteado com uma calça feita por ele. Foram as melhores peças que já vesti até hoje, tanto pelos cortes e caimentos como pela qualidade dos tecidos. Papai as trazia embrulhadas num papel rosa e as exibia orgulhoso e satisfeito. Aliás, recordo-me agora que meu terno de casamento foi um presente dele. Talvez eu me esteja iludindo ao achar que tal carinho era especial. É provável que você e os nossos outros irmãos sintam o mesmo.

A generosidade do Sr. Basílio era flagrante. Como você sabe, ele era solteiro e não tinha filhos. Talvez aquele amor em potencial não tendo o direcionamento comum dos chefes de família, transbordava-se alcançando as pessoas ao seu derredor. E ele mesmo não tinha! noção daquela sua qualidade. Certa vez, Papai contou que ele andava pela rua em dia de chuva e ao passar por uma velha senhora desagasalhada, cedeu-lhe o guarda chuvas e ao chegar ao trabalho, falou intrigado para os colegas: "- E agora, como ela vai me devolver se eu não lhe dei meu endereço?" A sua entonação revelava mais a sua preocupação com a suposta angústia daquela senhora em devolver o objeto, do que com a perda do próprio.

Mas o tempo se passou e aqueles agradáveis momentos foram se acabando. Papai ficou doente e parou de trabalhar. O Sr. Basílio passou a nos visitar e, aí sim, assistimos às suas lamentações que antes não eram comuns. Ele demonstrava uma enorme e sincera tristeza ao ver o Papai daquele jeito. Não se conformava. Papai faleceu e depois, veio a sua vez. Um câncer surgiu. Internava-se com freqüência na Beneficência Portuguesa, onde, por acaso eu trabalhava como plantonista. Foi um longo período. Sempre que de plantão e informado de que ele estava internado, eu ia visitá-lo. Inicialmente ele não parecia tão mal. As internações tinham como finalidade a realização de exames de rotina ou algum tipo de terapia eletiva. E fazia uma grande festa cada vez que me via. Elogiava-me diante dos seus companheiros de enfermaria com um entusiasmo que me deixava encabulado e constrangido. E, no final lembrava o Papai. Falava dele como a melhor pessoa com quem já tinha convivido. Elogiava-o incansavelmente e terminava chorando e dizendo que não se conformava com o seu sofrimento e desaparecimento. Jamais demonstrou autopiedade, mesmo quando o seu quadro foi piorando. A doença então entrou numa fase de aceleração e o seu estado físico caiu vertiginosamente. Eu o visitava e não sabia o que dizer. E ainda assim ele mantinha-se na sua postura de não empregar a primeira pessoa.

A última vez em que o vi, ele já não se sentou mais no leito como fazia quando me via, apesar dos meus protestos. Estava lá, deitado de costas, sob cobertas, cansado e com a fisionomia bastante sofrida e me fez um pedido insistente, chegando a implorar, para que impedisse que as pessoas fossem visitá-lo. Por ser muito querido, ele era visitado com muita freqüência e pode ser que aquilo o incomodasse. Pode ser também que, por ser muito tímido, ele se envergonhasse com os possíveis descontroles dos esfíncteres, causados pela fase tardia da enfermidade. Mas é muito mais provável que ele não quisesse causar sentimento de piedade, o que era bem ao seu feitio de ser avesso ao egocentrismo. Enfim, queria morrer sozinho. No plantão seguinte, três dias depois, aproximei-me discretamente da enfermaria e desejando respeitar aquele seu pedido, limitei-me a olhar pela fresta da porta em direção ao leito que ocupava de hábito e choquei-me ao vê-lo vazio. O lençol branco, abandonado. Que tristeza é a imagem de um leito vazio, antes ocupado por alguém de nossa estima! Quanta frustração tive naquele momento em que me apercebi da perda de uma pessoa tão especial! Fosse hoje e o sentimento de perda seria pior.

Parece que o fenomenal brilho do Sol do horizonte ofusca os jovens. E aqueles sentimentos ficam adormecidos, vindo mais tarde a serem despertados. Quando me lembro do Papai e do "Seu" Basílio naquele generoso esforço de me fazer agrados e acordo para o fato de não mais existirem ou de que estão em algum lugar, ninguém sabe onde e que eu jamais poderei lhes retribuir, sinto uma enorme tristeza, que só a muito desejada crença em Deus poderia diminuir. Abençoados aqueles que conviveram com pessoas boas. Graças a Deus por ter sido uma delas.

Beijos,

Daniel.
notdam@bol.com.br

Fevereiro de 2004


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Comentário do Pedro Wilson (o nosso outro irmão, também usineiro):
"Mensagem referente ao texto "Seu Basílio", por Daniel... - Crônicas. Gina, Que texto bonito o do Daniel. Foi bom você ter trazido a carta do mano para o Usina de Letras. Fez-me lembrar com saudades do Seu Basílio. Foi um belo depoimento. Pedro Wilson

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Crença e Agnoticismo

Saudades dos textos do Daniel Carrano!
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