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Contos-->O COTIDIANO DE UMA VIDA -- 21/06/2006 - 17:33 (MARCO AURÉLIO BICALHO DE ABREU CHAGAS) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos




SUMÁRIO: INTRODUÇÃO. SEGUNDA. TERÇA. QUARTA. QUINTA. SEXTA. SÁBADO. DOMINGO

INTRODUÇÃO

« O tempo é vida»

Ele passa inexoravelmente. Nunca pára e segue, levando o passado, as esperanças, o presente e o futuro. Ele não espera. Continua o seu curso para a eternidade.
Celso estarrecido, mais que surpreso, constatava essa realidade e tentava reter o passado no presente, valendo-se de sua recordação. Recordar o quê, se perguntava. O dia em que almocei com Gisele? Os momentos agradáveis passados com Cíntia? Ou a tristeza experimentada quando perdi aquele concurso?
Resolveu, então, passar em revista o seu dia-a-dia, monótono ou não. E se deparou com um universo de coisas que aconteciam e que sequer eram percebidas e que dariam para encher volumes e volumes.
À noite, em fração de segundos, aconteciam coisas fora do controle e se vivia momentos intensos e que por vezes pareciam intermináveis. Por exemplo, o corre-corre para se levar um enfermo ao pronto-socorro e esperar ali o desfecho de um episódio deprimente e quase sempre infeliz.
Pela manhã, alguns procuravam se recordar após uma noite passada em claro. Outros começavam o seu dia, se prometendo mil maravilhas, alguns remoendo um problema que lhes parecia sem solução. E outros e outros vivendo os mais variados instantes e situações.
Paulo, naquela noite, em plena festa, foi obrigado a transportar para um hospital o seu filho que botava sangue pelo nariz. No pronto-socorro do hospital não viu vivalma. A sala de atendimento parecia deserta. Somente ao fundo se ouvia o som de um ronco profundo. O plantonista dormia a sono solto.
- Hei você!, aqui há uma pessoa que precisa de atendimento.
O rapaz, com a cara amassada, esfregava os olhos assustados e balbuciou, bocejando:
- O que foi? Aguarde um instante.
- Qual seu nome, perguntou, esboçando preencher uma ficha que lhe tremia nas mãos.
- O que está sentindo?
- Não sou eu, é meu filho que está sangrando.
- ah! vou chamar o médico de plantão.
O silêncio voltou a tomar conta da sala, em penumbra. Que se prolongou além da conta...
Voltei a gritar:
Hei! há alguém aí? Onde estão todos?
Ninguém respondeu.
O ambiente estava tétrico. O silêncio assustava.
Passado algum tempo, vinha do fundo do corredor um sussurro, parecido com um gemido, a princípio, foi crescendo e se transformou num ronco medonho.
- Não pode ser! O atendente pegou no sono, de novo.
Impaciente, o pai bateu palmas e ouviu-se um estalido lá dentro. Uma voz, então, disse:
- o médico de plantão está a caminho.
O silêncio voltou a imperar naquele recinto semi-iluminado.
O tempo passou e passou...
Uma luz ao longe foi acesa e a porta cerrada bateu.
A luz da sala, onde estávamos aguardando se acendeu e uma pessoa de branco:
- entrem, por favor.
- O que houve?
O menino assustado disse:
- já parou.
- O pai, se dirigindo ao doutor:
- O sangue não parava de jorrar de seu nariz!
O médico, sonolento, examinou a criança. Deu algumas orientações se voltasse a hemorragia e concluiu o seu trabalho.
Essa foi uma noite inesquecível.
O dia, também nos reserva uma quantidade de matizes, os mais variados e inusitados. É o cotidiano.


1° Capítulo
SEGUNDA

-Detesto esse dia.
-Domingo, para mim, quando vai caindo a noite, é uma tristeza.
-Por quê?
-Começo a pensar na maldita segunda-feira.
-É mesmo! A semana deveria se iniciar às terças.
-Ora, mas a semana começa no domingo.
-Isso é o que dizem os otimistas. Para mim, o domingo encerra o fim-de-semana e a segunda é detestável.
-Que vida, hem!
- Alguém já me disse que isso é psicológico. O dia da semana não interfere no ânimo.
- Eu não sei. O certo é que a segunda, quando não cai num feriado, é um dia que ninguém gosta de esperar.
Gil, avesso aos preconceitos, queria que a segunda fosse um dia como outro qualquer.
Na noite de domingo se preparava para enfrentar a segunda, organizando suas coisas e procurando afastar aquele pensamento de tristeza que sempre passava por sua mente em fim de dia.
Engraçado, até os programas de tv eram enfadonhos. A voz do apresentador irritava. O encontro das famílias é que salvava o dia. No mais, era um tudo sem graça.
Enfim, nascia o dia não esperado. Segunda-feira.
Um dia como outro qualquer.
Carlos acordava bem cedinho. Ia direto para o banho. Não importava se na noite anterior tomara uma “chuveirada”.
Estava bem disposto. Preparava o café da manhã. Cantarolava. Parecia estar de bem com a vida.
O telefone da copa soa forte. Corre até ele.
- Alô? Não, não existe essa pessoa aqui.
Volta à cozinha e continua comendo aquele pãozinho torrado. O café está quente demais, queima o lábio.
O telefone toca de novo.
- Quem é?
- O quê?
- Sim, dentro de meia hora estarei no escritório.
Pega o carro e segue em direção ao centro da cidade. Passa perto de um grave acidente. O trânsito engarrafa. O sol naquele dia fervia.
De dentro do carro, lê na banca de revista, perto, a manchete do jornal que o deixa desconcertado e pensativo.
- Me dá um trocado?
O vidro do carro semi-aberto deixou passar a voz cavernosa de um mendigo.
O susto foi inevitável.
- Não, não tenho trocado.
O sinal abriu. Arrancou o veículo. Fechou o vidro de seu lado e continuou o seu caminho.
Próximo ao estacionamento, outra fila de carros engarrafados.
- Hoje chego tarde!
Apertou o botão do rádio e o locutor acabava de dar uma notícia triste, envolvendo a morte de um político.
Desligou o rádio.
O seu estado interno estava completamente diferente daquele que experimentou ao se levantar da cama, naquela manhã.
Ainda não havia chegado ao trabalho.
Entrou no elevador de seu prédio e lê ao fundo um bilhete pregado: «Condômino, colabore, evite o “apagão”. Economize luz. A Direção.»
O trabalho o absorveu o tempo todo. Saia de um problema para outro e quase não se deu conta do tempo que passou. Já era hora do almoço.
Meio dia se passara. Não fizera metade do planejado para aquele dia. Em instante algum se recordara de seus propósitos de aperfeiçoamento individual. Quem havia estado aqui trabalhando, absorvido?
O telefone toca.
- Não sei?
- Parece-me que estamos diante de uma epidemia. Devemos esperar para ver.
- Marque a consulta. À noite falaremos sobre isso. Até lá.
- Fechou o escritório e saiu.

O almoço estava à espera. Comeu. Dirigiu-se à saleta contígua, afrouxou o sinto da calça e se refestelou no sofá.
Quanto momento feliz vivi na semana que passou! Quanto momento sensível pude experimentar! O que senti não foram sensações materiais, mas espirituais, foi uma festa do espírito.
Como é formoso viver em um mundo sem imposturas, sem egoísmo, sem vaidades, em que todos se respeitam!
- Antes achava que a vida se findasse com a morte física, que egoísta fui! que ingênuo, que ignorante!
A sua posição mudou. Para ele a vida é eterna. A morte significa o fim de uma etapa física, a morte não passa de uma cessação das funções biológicas. Mas terminada a atividade da parte física acabaria tudo? Não, porque o homem é constituído de um corpo e de um espírito.
Acordou, sobressaltado. Sonhara. Quanto tempo havia passado ali naquele sofá? Apenas quinze minutos. O sonho foi intenso. Parecia que o tempo havia parado.
Levantou dali. Arrumou-se e voltou ao trabalho. O dia estava chegado ao fim. A segunda-feira terminava e os últimos raios de sol passavam pela vidraça do cômodo.
- Quantas palavras inúteis falei hoje? Quanto tempo perdi divagando, imaginando? O que fiz hoje de útil para o meu aperfeiçoamento? Os movimentos conscientes foram maiores que os períodos de inconsciência?
- Sinto possuir muitas energias, porém, devo aproveitá-las melhor, para não perdê-las. Aprendi que as energias bem aproveitadas retornam, não se gastam.
O homem continuou refletindo sobre o que experimentara naquela malfadada segunda-feira.
- O que aprendi de novo e prático para aplicação em minha vida diária?
- O homem em toda sua vida física pode vivê-la sem a participação, em nenhuma oportunidade, do seu espírito.
Para finalizar seu dia de segunda-feira, Paulo, antes de se deitar, como fazia de costume, foi à estante e pegou um livro e, ao acaso, abriu-o em uma de suas páginas e ali estava:

« Muito sensível foi a separação, meu bom amigo, e por isso rogo-lhe aceitar minhas mais respeitosas condolências. É o caminho que devemos seguir todos os que encarnamos nesta humana pessoa, só que uns se vão sabendo que o espírito não morre e outros cerram seus olhos como se a vida se apagasse para toda a eternidade. O que não é possível evitar é que os que nos precedem deixem em nós um profundo pesar, porque, como você bem o disse, parece que vai com eles uma parte de si mesmo, tal é o arraigo do sentimento que nos une».

A madrugada ia alta. E aquele ser se debatia em elucubrações mentais, procurando entender o enigma da vida. Por fim, fechou os olhos e se acomodou nos braços de Morfeu.

2º Capítulo

TERÇA

Às quatro e trinta da manhã o telefone toca em sua cabeceira.
- Alô? Não. Essa pessoa não mora aqui.
- Por que se costuma errar uma ligação? E acordar um cidadão em plena madrugada.
Voltou a dormir. Sonhou.
O despertador, implacável, às seis da matina soou, como se dissesse: - não se dorme mais nessa casa!
- Levantei. Espreguicei como me ensinara o meu fisioterapeuta. Sentei-me na cama, seguindo as ordens do médico e por fim levantei.
- Não posso me esquecer do trecho daquele livro que li. As palavras batiam em minha mente. O som retumbava e me perguntava:
- Eu sou daqueles que acham que a morte é o fim de tudo?
Lá fora, a chuva caia, retumbando em uma calha ao pé da escada. Era abril.
Um menino, de voz esganiçada gritava no passeio: - O Estado, o Estado...
Tive um impulso de ligar o computador para ler meus e-mails. Não o fiz, porque estava fazendo um esforço para evitar me deter muito naquele aparelho com tela e um teclado convidativo.
Peguei o jornal do dia, jogado à soleira da porta da sala, ainda, com respingos de chuva e as manchetes da primeira página eram deprimentes. Não tive vontade de continuar lendo.
Após o café, segui a rotina e me dirigi ao escritório.
No rádio do carro, no trajeto, uma voz se ouvia:
- Ser feliz internamente não quer dizer que se esqueça os problemas que a vida nos apresenta. Os problemas fazem parte da vida e não a vida se resume nos problemas.
Em outro ponto da cidade, Gustavo enfrentava algumas situações constrangedoras.
- Por que quero viver? A vida para mim tem outro objetivo que antes não tinha. Já sei a finalidade de minha existência?
Carlos, em plena adolescência, idade dos sonhos, encostado num poste à porta do colégio, conversava animadamente, com outros de sua idade.
- Não sei se namoro essa menina! O que sinto por ela? Parece-me simpática. Sinto-me bem perto dela!
- Isso é que é. Logo você pensando em namorar?
- Estou mesmo gostando dessa pessoa.
- O que sinto por ela não sei se é suficiente para namorá-la. Estou indeciso. Não sei o que fazer!
- São coisas dessa fase de idade!
Segui meu caminho, naquele dia chuvoso.
Nesse clima de chuva o pessimismo dá seu contorno.
- Esse estado interno de pessimismo não reflete o resultado da ignorância do verdadeiro objetivo dessa vida?
- Para que vivo? Será que o homem vive para pagar, para cumprir uma pena duma falta que não tem consciência de que cometera? Será a vida um vale de lágrimas?
- Não, a vida há que vivê-la com alegria, porque é um campo experimental, é o lugar onde o espírito do ser humano deve evoluir e para isso há necessidade de que se integre à vida, seja dono dela e não os pensamentos.
Por contingências profissionais, Gustavo se dirigia para uma empresa e iria estar com o seu presidente.
- Como vai?
A cara do sujeito estava amarrada. Sua respiração ofegante. Não inspirava qualquer atitude simpática e cordial.
- Esse brigou com a vida, pensou. Ou com a mulher, talvez!
No dia-a-dia surgem imprevistos e situações que exigem uma colocação interior. Há inúmeras formas de se portar diante desses instantes inesperados.
Gustavo não se intimidou e deu a conhecer àquele homem, que demonstrava não estar ouvindo nem uma de suas palavras, o que pretendia com aquela visita.
- Observei a movimentação dos pensamentos que acorreram à mente e atuei com eles procurando resolver o problema. O estado interno de tranqüilidade existente antes de tal circunstância, foi substituído por um estado de inquietação, característico dos pensamentos que dominavam a casa mental.
- Foi interessante perceber que, ao chegar em casa, ainda, sob os efeitos daquela movimentação interna, meu comportamento ficou alterado e agi algumas vezes impulsivamente.
Está retratada aí a influência que têm os pensamentos em nosso ser interno e o efeito que causam em nossas atuações.
Ficou demonstrado que não houve o domínio completo da situação, embora o problema tivesse sido encaminhado satisfatoriamente para uma solução favorável.
Paulo, em um canto da cidade dizia para seus botões:
- ainda, em muitos momentos, sou levado por pensamentos alheios ao meu pensar e sentir, não sou dono de meus pensamentos, eles governam minha vontade.
Continuou ele suas elucubrações, alheio por completo ao que acontecia ao seu redor, naquela noite fria:
- internamente possuo forças, que sem uma consciência cabal de sua existência, são mal empregadas e atuam desordenadamente.
Findou o dia. A noite com seu manto escureceu tudo e mais nada se podia ver com esses olhos voltados para fora.

A bem da verdade, os olhos físicos vêem, mas não enxergam, porque o que faz enxergar é a luz do entendimento. Pode-se ver, mas não entender aquilo que está sob a vista se falta o conhecimento, ou melhor, a luz do conhecimento. Um selvagem que vê pela primeira vez um carro não entende, mas associa aquilo com algo que conhece, um animal, por exemplo. Assim, a visão sem o conhecimento não é nada. Quem conhece vê melhor, ou dizendo de outra forma, entende o que vê.

3º Capítulo

QUARTA

Para alguns, meio da semana. Começa-se a pensar em seu fim, tão esperado. Que tétrico, passa-se a semana, pensando em seu fim, para descansar, ficar à toa! Isso é vida?
Paulo, naquele dia, comprara um carro novo e se maravilhava com a possibilidade de exibi-lo para os amigos do trabalho.
Augusto, como não tinha dinheiro nem para andar de ônibus, encontrava a alegria colhendo objetos usados no lixo. Certo dia encontrou uma televisão que aparentemente não tinha defeito, funcionava normalmente. Estava ali jogada fora, porque certamente o seu último dono comprara o último modelo e não a conseguira vender e nem dar aquele traste e não teve outra alternativa, senão jogá-la fora. Esse é o destino de objetos considerados «úteis» nesse mundo consumista. Certamente meu avô não conseguiria entender isso! A chuva durante todo o dia não deu trégua. O trânsito na cidade grande fica caótico. Os bueiros não dão vazão à água que corre nas enxurradas, nos cantos das ruas. Vi uma mulher descalça passeando na enxurrada. Lembrei-me das épocas de criança em que passava as tardes andando com os pés nas águas que corriam na beirada do passeio. Que tempo bom aquele! O da infância. Fase descompromissada da vida e cheia de fantasias e belos momentos. A chuva naquele tempo era diferente, também não era pra menos. Os olhos infantis vêem as coisas de outro modo e muito mais coloridas e belas!
Recordei-me aqui de um relato que ouvi ao falar da chuva. Uma criança, em meio a um temporal, da janela de sua casa olhava aquela chuvarada e disse: - Mãe, corra aqui, veja que tempo lindo. A mãe foi à janela e, decepcionada, respondeu: - Filha, essa tromba d´água? A menina não contendo a sua alegria, ponderou: -Mãe, a chuva é boa. Molha as plantas, faz nascer as frutas, corre pelo solo. É de grande utilidade para a Natureza. Ontem aprendi isso na escola. Por isso estou vendo que essa chuva é linda. Não é? A mãe ouvindo aquilo se calou e se pos a refletir sobre a importância da chuva e seu papel nessa terra. Sentiu-se bem. E passou a ver beleza naquela água que não cansava de cair do céu.
Que quarta-feira! Você há de convir que um aguaceiro na cidade é um verdadeiro caos. Um transtorno. Batidas de carros. Árvores caindo atrapalhando o trânsito. Não! A chuva por aqui é algo insuportável.
Carlos ia de moto para entregar uma pizza encomendada. A água que caia não era empecilho. Cortava os carros e em ziguezague rompia no outro quarteirão. Para não ficar parado no sinal subia no passeio e ia em frente atender a mais um cliente. A final de contas quanto mais encomenda entregava mais reais podia juntar, não importando os riscos que corria naquele corre-corre infernal.
Paulo, naquele dia, dava muitas aulas e estava no final da manhã cansado e pensando no fim-de-semana.
Alfredo, ao contrário, não fazia nada naquela quarta. O tempo custava a passar. -Que dia enfadonho, exclamava. Pudera, quando se está na inércia, a sensação é de cansaço e esgotamento! A atividade é sempre produtiva e acumula energias, desde que seja construtiva e proveitosa, é claro. Disse alguém que pensa, que a vida é atividade e a própria Natureza nos está a demonstrar isso a todo instante.
Carlos, em seu escritório, em meio a papéis, passava o tempo ao telefone conversando fiado com uma antiga colega de faculdade.
- Como está você? Bem!? Sabe que passei pela Vera outro dia e ela nem sequer me olhou.
- Ora, de certo ela não viu você.
- Que nada! Fingiu não me ver.
- Pode ser.
- E a Augusta?
- Nunca mais a vi.
- O Pedro está morando em São Paulo.
- A turma não vai se reunir para comemorarmos os vinte e cinco anos de formatura?
- Ah? Essa gente não quer saber disso.
- Bem, até logo, tenho que desligar, o meu celular está tremendo na mesa, alguém quer falar comigo.
- Até a próxima.
Roberto, em seu quarto, não saia da frente do computador. A cena na tela Sansung era uma página da internet com uma infinidade de links para os mais variados assuntos atuais.
Marli, interessada em conhecer outros países, percorria os sites que tratavam de turismo e procurava um lugar para passar as férias.
Catão envolvido, como sempre, em seus problemas financeiros. Nunca que o dinheiro chegava. Quanto mais recebia mais gastava. Não havia jeito! Era um círculo vicioso.
José, na roça, não tinha nada e tinha tudo. Nada lhe faltava. Quando a fome apertava, ia ao terreiro pegava uma galinha caipira e fazia um ensopado. Passava o dia, ora na varanda da casa grande, indo de lá para a cozinha tomar, de vez em quando, uma xícara de café adoçado com rapadura. O bule encostado na chaleira descansava os fundilhos no fogo brando de um velho fogão a lenha que não desligava nunca.
O banho do Zé era de fazer inveja ao cidadão acostumado a se banhar em hotel cinco estrelas. A água percorria uma serpentina que passando pelo fogão a lenha saia quentinha, por igual, num chuveiro daqueles de peneira larga que despencava cabeça abaixo banhando aquele corpo surrado inteirinho.
Não havia nada melhor. Nessa vida cada um desfruta e experimenta o que pode. O que é estímulo para um não significa nada para outro. E o tempo passa testemunhando os matizes dessa vida multicor.
Um homem se esforçava em se realizar individualmente, visando o próprio aperfeiçoamento, e, para isso, enfrentava uma série de dificuldades e obstáculos que, se superados, contribuiriam, em muito, para mudar de posição interna e ver as coisas de outra forma.
O estudo da própria psicologia é muito útil nesse aspecto, porque ensina a ver nessas dificuldades e obstáculos, uma grande oportunidade de superação e de prova de suas convicções e firmeza nesse propósito de ser melhor.
No dia-a-dia surgem imprevistos e situações que exigem uma colocação interna. Há inúmeras formas de se portar diante desses instantes inesperados, porém, deverá haver uma melhor, acorde com o ideal de evolução e é esta a que se deve buscar e aspirar.
A luta deverá continuar sem esmorecimentos. Outros empecilhos virão em outro nível. Dever-se-á encará-los como chances de auto-aperfeiçoamento. Sem eles, talvez, as conquistas espirituais não tivessem o colorido que deveriam ter.
Alfredo, em sua atividade profissional percebeu a permanência de determinados pensamentos que se sobressaltaram e o fizeram agir rapidamente.
Observou a movimentação daqueles agentes causais do comportamento que acorriam à sua mente e atuou com eles procurando resolver o problema que se lhe apresentava.
Constatou que o estado interno de tranqüilidade existente antes da tal circunstância foi substituído por um de inquietação, característico dos pensamentos que acorreram àquela mente.
Foi interessante perceber que, ao chegar em casa, ainda sob os efeitos daquela movimentação interna, seu comportamento ficou alterado e agiu algumas vezes impulsivamente.
Está retratada aí a influência que têm os pensamentos no estado de ânimo do ser e o efeito que causa em suas atuações.
Demonstrado está que não houve o domínio completo da situação, embora o problema tivesse sido encaminhado satisfatoriamente para uma solução favorável.
Acontece que os pensamentos que estiveram transitando pela mente de Alfredo, durante a vivência, comprometeram a tranqüilidade interna, a paz interior e comprometeram sua conduta e seu comportamento.
Naquele dia, o fórum estava lotado como de costume, e o causídico com a intenção de reparar uma falha processual de publicação irregular de um ato, se viu censurado nessa conduta pela outra parte e se exaltou. Falou alto, quis impor o seu ponto de vista e se descontrolou emocionalmente, ofendendo-se com o ocorrido.
Estava atento ao que lhe passava em seu interior e ficou assustado, porque percebeu uma reação involuntária que fugiu ao seu controle. Não se conteve. Demonstrou que não teve controle de seus pensamentos. Eles saíram de sua mente sem qualquer censura e foram parar no externo, comprometendo, naturalmente, o seu conceito.
Ora, a repercussão, então, nos demais que assistiram a cena foi a pior possível, causando um mal estar no ambiente forense.
Extraiu da experiência a conclusão de que deveria estar mais atento ao seu interior e para evitar outras circunstâncias semelhantes, deveria se preparar com antecedência, a fim de estabelecer o controle da situação, não se deixando atingir pelo que vem de fora e de terceiros.
Que situação difícil! Pois a todo instante sofremos influências do meio em que nos colocamos e que nos circundam.
Os inúmeros problemas que a vida apresenta contribuem, em muito, para promover esses movimentos mentais durante o correr dos dias.
Paulo estava sereno, ao contrário de ontem, em que se viu agitado, tentando solucionar questões que poderiam esperar seu tempo.
- Compreendo que tenho que cultivar a paciência inteligente, cuidar de outras coisas e esperar a oportunidade para solucionar alguns problemas.
Há problemas que têm que ser solucionados, resolvidos por parte, sem apuro.
- Ontem - lembrou -, a irritabilidade esteve presente no cenário interno, entretanto, ocupou um espaço de tempo pequeno, mas provocou um desgaste mental e físico, refletido no cansaço.
- Ansiedade para realizar o que se havia proposto para o dia. Porém, em vários momentos da execução do trabalho me vi interrompido e, ao perceber que não teria mais tempo para dar continuidade ao que havia iniciado, devendo adiar a tarefa, me fez experimentar uma sensação de não cumprimento e impotência. Afinal de contas, não conseguira cumprir com o planejado, apesar das interferências externas, alheias ao meu controle.
Do outro lado da rua, em um prédio, um profissional, em meio a suas atividades, reclamava:
- ora sou levado a enfrentar a crítica, ou melhor, o exame crítico de meu trabalho ou ponto de vista, em outros momentos devo conter minha impulsividade ou irritabilidade diante de uma observação alheia, adversa ou contrária ao meu pensar ou modo de ver as coisas.
- em outras circunstâncias devo, com humildade, ouvir pareceres contrários aos meus. Ou permitir que meu trabalho seja apreciado por outros que, muitas vezes, não têm os conhecimentos específicos para fazer uma crítica construtiva.
- hoje também me perguntei sobre a melhor forma de educar meus filhos.
A educação deve visar o futuro, a formação para a vida. Uma repreensão tem que ter essa projeção transcendental? - expressava Gustavo, em uma roda de pais que esperavam a saída dos filhos do colégio.
Um deles disse:
- quando atuo com meus filhos, orientando-os, tenho em conta essa repercussão? Ou somente cuido de corrigi-los no erro praticado no momento?
Um jovem estudioso e confiante no seu futuro e no da humanidade refletia encostado num poste de luz, numa esquina, no centro da cidade, em meio ao burburinho ambiente:
- Em meio a muitas reclamações sobre as dificuldades dos tempos, experimento uma fase em que o que ganho com o meu trabalho me basta e vai além do meu gasto, atendendo plenamente as minhas necessidades de sobrevivência.
Posso, agora, mais que nunca me dedicar mais aos assuntos do espírito, sem sofrer as angústias das dificuldades econômicas, essa é uma conquista que acalento de há muito.
Muitas de minhas preocupações giravam em torno de uma estabilidade econômica e hoje ela é uma realidade.
-O que fazer para mantê-la? Como mantê-la?
-Como fazer dessa experiência um elemento que contribuirá para minha evolução? O que extrair de eterno dessa conquista?
-Essa é uma conquista que tem que ser confirmada a cada dia. Devo buscar com inteligência manter o campo conquistado.
-Também compreendo que esse é um resultado de um esforço tenaz em tal sentido.
-Com o auxílio do conhecimento de minha psicologia soube aproveitar as oportunidades que a vida profissional me oferecem e fui conquistando paulatinamente esse estado de que hoje desfruto.
-A constância, a perseverança, a luta e o empenho em todo o momento estavam e estiveram presentes.
-Alimentei o pensamento de que o que ganharia seria somente com o trabalho honesto e honrado, sem esperar nada de ninguém. Dava sempre de mim. Nunca fugi ao trabalho. Sempre trabalhei não para buscar a riqueza, mas para alcançar um equilíbrio econômico-financeiro, além, é claro, da satisfação pessoal experimentada com o trabalho em si.
-Estou seguro de que hoje desfruto do que plantei no passado e sei que tenho que plantar hoje o que quero colher no futuro.
-O que quero para o futuro?
-Quero ver minha família progredindo. Meus filhos virando homens de bem. E todos desfrutando de intensa felicidade. E que Deus sempre presida esses augustos instantes de intensa e profunda alegria.
Não tenho o direito de me queixar de nada, senão por não fazer mais do que faço.
-Entretanto o estado de inconsciência é tamanho e muitas vezes me pego lamentando, queixando-me e irritado com as coisas que se passam comigo. Tamanha ingratidão! Em sã consciência, não tenho motivos para me entristecer e, muito menos, lamentar. São muitos os motivos que tenho para ser feliz.
Numa dessas quartas, por coincidência, iniciava um novo ano. Em épocas assim, as esperanças se renovam. Há um renascer de esperanças. Planeja-se e espera-se que o novo ano traga coisas boas. Só que não se deve esperar nada além do que se plantou.
A pergunta é: o que o ano espera de mim?
João aspirava, no ano que despontava, ter uma vida financeira equilibrada e manter esse equilíbrio, o que considerava o mais difícil. Um desafio. Um fator de êxito - ponderava ele - é não comprometer o ser futuro, criando compromissos além das forças e da capacidade de previsão.
Maria Tereza, espiritualista, afirmava, nessas ocasiões que realizaria muito no campo espiritual. Para ela as conquistas nessa área são as mais difíceis, porque nos faltam o conhecimento e a experimentação.
Clara, do lar, via no ano que surgia, a educação dos filhos, como uma meta a atingir. Os filhos são seres humanos sob nosso cuidado - asseverava - e não podem ser tolhidos em sua evolução, por uma rígida ou irresponsável condução educacional.
- Quero que meus filhos sejam livres, sem temores de qualquer ordem e que cresçam valentes e dispostos a lutar pela vida e para a vida.
- Ao educá-los não posso tolhê-los em suas iniciativas e nem torná-los submissos.
- A educação deve ser sem imposturas e regada com muito afeto e amor.
- Clara, como fazer isso, sem conhecimentos?
- Ah! Helena, não sei.
Carlos mais uma vez cometia um erro, dentre os tantos cometidos na vida.
- Os erros e as falhas acompanham nossas atuações. Diz o ditado popular que errar é humano, porém o erro ou a falha que envolve outros seres nos faz sofrer.
- Como reparar, então, o erro cometido?
- Corrigir o erro é evitar suas conseqüências. O erro tem origem na mente.
- O preparo, os estudos contribuem para detectar o erro na mente e evitar que se concretize.
- Uma vez concretizado o erro, como fazer? Arcar com suas conseqüências e extrair da experiência desagradável o elemento que faltou para vencer.
- Devemos aprender com as falhas e os erros cometidos.
- Em todas as atividades estamos sujeitos a erros e falhas, mas nem por isso devemos deixar de agir, de atuar e de continuar lutando para o aperfeiçoamento.
- Quando se comete um erro, não havia consciência, porque quando se atua com consciência não é possível errar. O conhecimento, portanto, evita o erro.
- Carlos, você entende, então que o erro advém da ignorância?
- Por que o homem erra?
- Porque atua inconscientemente, sem conhecimento de causa. Quem é consciente em todos os seus atos sempre comete acertos e não erros.
Um doutor em medicina, que ouvia aquele diálogo não se conteve e indagou, pensativo, de que consciência vocês estão falando? Esse assunto é complexo, ponderou o interlocutor. Voltemos ao da educação infantil.
Priscila, atenta ao que se dizia naquele lugar, quis se fazer presente e acrescentou:
- No estudo que estou fazendo sobre o caráter da criança, conclui que é papel do pai colaborar na formação do caráter dos filhos.
- Qual o caráter que quero para meus filhos?
- Quero que sejam alegres, tenham bom estado de ânimo, estejam bem dispostos para o trabalho e muitas outras coisas que definem um ser com bons princípios.
- E o que você tem feito para contribuir com essa formação?
- Caráter para mim é o que define o ser, são aqueles traços psicológicos e morais que individualizam o ser e lhe imprimem uma fisionomia.
- E o que leva à formação do caráter na criança?
- Li certa vez, em algum lugar, que eram os estímulos positivos, aqueles naturais.
A quarta-feira é longa. Muitas coisas acontecem em lugares diversos e nem bem chegamos ao meio-dia e me encontrei, ao sair para o almoço, com o amigo que não via há algum tempo e o convidei para comermos uma refeição bem ali na frente.
- Alfredo, foi um grande prazer em encontrá-lo.
- O que você tem feito nesse mundo de Deus?
- vigiar a minha conduta.
- O quê?
- Isso que você ouviu. Vigiar a minha conduta. Eis aí um dos grandes exercícios espirituais que se deve realizar.
- Em que devo me modificar, se há tantos aspectos a serem mudados na vida!
- Às vezes me pergunto: Como está a minha convivência no lar? Que pensamentos não devem mais atuar nesse particular?
E a educação dos filhos?
- Meus filhos estão vivendo a fase da infância. Tenho desfrutado dessa etapa da vida deles? Como melhorar e superar essa participação?
- Como me superar na educação de meus filhos?
- Compreendo que a cada dia devo me superar em todos os aspectos.
- Que pensamentos hoje atuam dentro de mim?
- É certo que a vida diária nos absorve muito tempo. É certo, também, que tempo é objeto de conquista. Como, então, conquistá-lo para o convívio com nossos seres queridos?
Marisa, uma professora dedicada, no intervalo das atividades escolares, dialogava com suas colegas sobre suas preocupações.
- Estou empenhada nessa tarefa de melhor educar e orientar meus filhos. Não deixá-los sem orientação. Ensinar a eles a cultivar bons pensamentos e sentimentos.
- A dedicação aos filhos é uma aspiração e um dever dos pais.
- Hoje, mais do que nunca, os pensamentos do mal encontram as mentes mais desguarnecidas e vulneráveis a suas investidas sempre avassaladoras. É preciso combater esse ataque impiedoso que atinge as mentes mais ternas e, portanto, mais indefesas e presas fáceis de suas maldades.
Ouvindo aquilo, Clarice não se conteve e perguntou:
- O que devemos fazer para fortalecer essas “mentezinhas” que se encontram aos meus cuidados?
O dia chuvoso castigava aqueles que tinham que se locomover para um lado e outro da cidade, em cumprimento aos seus afazeres habituais.
Os anos vão passando e o cenário da vida toma outros contornos.
Surgem a estabilidade emocional e o delineamento dos passos a serem dados no caminho do existir.
A maturidade acontece e fico a pensar naqueles sonhos juvenis que ficaram para trás e muitos deles se tornaram realidade na etapa de hoje, que um dia pertenceram ao futuro.
A luta pela sobrevivência cede espaço às conquistas do espírito, pois os atrativos do material já não ocupam tanto tempo da mente.
A escala de valores com o tempo vai mudando e vou aprendendo dar a verdadeira dimensão às coisas.
O que anteriormente tinha muito valor para mim, hoje, tem o valor que deve ter, ou seja, não vale mais nem menos do que deve valer.
A minha mente ainda se ocupa muito com os pensamentos do mundo físico, deixando pouco espaço para os pensamentos de ordem superior.
Preciso intensificar o treinamento exigido pelo processo de evolução consciente.
- O que você quer dizer com isso, Arthur?
- O navegar em direção ao mundo interno precisa percorrer distâncias maiores e o permanecer na superfície não é nessa altura da viagem recomendável.
- O apego a coisas dispensáveis contribui para o retardamento no caminhar transcendente.
Há ocupações que não devem ocupar mais tempo que o necessário para cumpri-las em benefício dos afazeres do espírito.
Lamentavelmente o tempo dedicado a ele, meu espírito, é ínfimo, insuficiente ao que necessita para reinar em minha vida.
À tarde, Carlos, saindo de um engarrafamento em direção ao centro, irritado, procurou mudar o seu estado interno lastimável, recordou:
- Muito já andei nesse caminho do conhecimento de si mesmo, mas me sinto ainda nos começos. Às vezes invade algum pensamento em que minha mente querendo convencer-me de que o empreendimento é impossível.
- Depois de um trecho no andar há o risco de se adotar um «modus vivendi». Tudo corre bem. As arestas estão aparadas. Há um acomodamento interno. E alguns pensamentos estão sob controle. E não passa disso.
- Há, entretanto, uma inquietude: - preciso avançar. Caminhar além. Sair do engarrafamento. Realizar mais. Superar o estágio atual. Sair desse marasmo! Como? De que meios me valer?
- Ainda me vejo muito apegado às coisas materiais, às atividades correntes e preocupações das coisas da alma.
- Não estou satisfeito com o estado interno em que me encontro. Sinto que tenho que me empenhar para dar um passo além nessa cruzada do alto-aperfeiçoamento.

Terminado um dia de trabalho intenso, Cláudio se dirige para sua casa. Aproxima-se do portão eletrônico abre-o e começa a entrar na garage e é surpreendido por alguém que lhe encosta o cano de um revólver na testa. É obrigado a sair do carro rapidamente e levam-no para dentro de casa.
Assustado Cláudio é ameaçado de morte e o ladrão acompanhado de outros três, percorrem os cômodos da residência e retiram televisão, vídeo, som, roupas, relógios, tudo de valor e transportam para o carro.
Prendem os moradores em um dos quartos e fogem no carro de Cláudio, levando o que podiam.
Passado algum tempo chega Antônio em casa e liberta os seus e a polícia é chamada e faz a ocorrência.
Os envolvidos estão surpresos e chocados com o acontecido. Jamais esperavam que essa violência acontecesse com eles.
A casa foi revirada de pernas para o ar. Os quartos estavam abarrotados de coisas espalhadas para todos os lados. As gavetas dos armários jogadas e papéis, roupas, objetos, tudo espalhado pelo chão.
Felizmente ninguém se machucou gravemente, a não ser algumas escoriações em Cláudio provocadas por chutes e coronhadas.
- Não se vive hoje mais em paz! Sempre há um risco por perto!
- A que ponto chegamos! Exclamou Pedro.
- Não temos mais sossego até em nossas casas.
- Alarme nenhum é capaz de inibir tamanha ousadia desses bandidos.
- O que fazer? Inquiriu um que passava por ali e acompanhava os acontecimentos.
Terminado o trabalho dos policiais os moradores da casa assaltada foram colocar as coisas no lugar e ao pegar uma peça de roupa ali, um objeto aqui, lamentavam o acontecido e sentiam a falta de mais coisas que teriam sido subtraídas pelos assaltantes despudorados.

4º Capítulo

QUINTA-FEIRA

Bem cedo Augusto está envolvido em um engarrafamento quando se dirigia para o trabalho. Na esquina um tumulto. Uma pessoa tinha sido assaltada e não sabia o que fazer. Seu dinheiro foi levado pelo moleque que a havia empurrado metendo a mão em seu bolso e surrupiando o salário que havia retirado do banco. Não sabia o que fazer. Estava desesperada.
Ali na frente um pedinte implorava uns trocados a um transeunte para comer algo. Estava esfomeado. Precisava se alimentar.
Da janela de uma casa velha, próxima à esquina, ouvia-se de dentro do cômodo uma música antiga cantarolada por uma voz que saia trêmula e invadia todo o quarteirão.
- Pensava que Paulo tivesse encontrado o apartamento que estava procurando pra morar.
Paulo vinha de mudança para BH deixando sua cidade natal lá pras bandas de Diamantina, um lugarejo chamado Monjolos, próximo à cidade história de Serro, Ivituruí, na linguagem tupi-guarani.
Quantas pessoas deixam o seu rincão e se aventuram indo para a cidade grande tentar a sorte, deixando de lado os seus sonhos de menino para conseguir dinheiro e se sustentar nessa sociedade de consumo que engole o ser carcomendo-lhe as entranhas até fazê-lo insensível às belezas naturais!
Carlos via televisão. E um escritor entrevistado falava das idéias que surgem como que por encanto em nossa mente e não há método e nem técnica que as façam aparecer. São como passarinhos que vêm não se sabe de onde a pousar em nosso ombro.
De onde vêm as idéias? Elas aparecem. Estão no mundo mental. Ali viajam e encontram albergue em mentes que as acolhem e as transformam em imagens, as mais variadas.
Para esse escritor, o deus da Bíblia não queria viver no Céu, sua morada, para viver na Terra, que havia criado para o homem. Lembrou que no Paraíso caminhava sentindo no rosto a brisa gostosa da manhã. O paraíso era maravilhoso. Aí resolveu se transformar em homem e veio à sua Terra, fruto de sua Criação, para viver nela. Dizia-se que veio para redimir o homem de seus pecados e morreu para depois ressuscitar para continuar vivendo aqui na Terra.
O entrevistado, em resposta a uma pergunta, disse que todo mundo sabe que vai morrer, mas ninguém quer ir, quer ficar, a vida aqui é muito boa. Todos lutam para viver, vão ao médico, se cuidam, fazem ginásticas, caminham, fazem dieta. Se o céu fosse tão bom como dizem ninguém ficaria tão apegado aqui nesta vida!
Para esse entrevistado Deus é o que há de belo e de bom. Não é esse vingativo e que castiga, pregado pelas crenças, não foi à toa que o pregaram em uma cruz e o recordam todos numa determinada data. Ninguém o recorda subindo aos Céus.
- Olha – dizia Pedro a seu amigo num banco de jardim – esse tal Céu deve ser uma monotonia só. Todos tranqüilos, sem problemas, andando daqui para ali, sem qualquer alteração numa quietude que angustia. Isso não deve ser bom! Em contrapartida, o inferno é bem movimentado. Não é rotineiro. É quente variado e cheio de novidades.
- Pedro, vira essa boca pra lá. Isso que você está dizendo é sacrilégio. Deus castiga!
A tarde chega ao seu final. O relógio da estação ferroviária, na parte mais alta do prédio principal da praça da estação, marca quatro e quarenta e quatro. O sol muda de cor e vai assumindo a coloração avermelhada refletindo nas nuvens e nas vidraças daqueles arranha-céus, típicos de metrópole.
Os quarteirões vão se enchendo de carros. São os trabalhadores, a maioria deles, executivos, se dirigindo a suas casas ou aos locais de lazer após um dia inteiro de trabalho rotineiro, envolvidos em e-mails, Internet, laptops, computadores, índices de bolsa, dólar, gráficos e outras invenções desse mundo artificial dos homens.
Isso é de humanos? O que os humanos vieram fazer aqui nesta terra, nesse paraíso criado por seu Deus? Para se envolverem com computadores, Windows, programas, e-mails, mergulharem de cabeça num mundo virtual e fugirem da realidade desta vida?
A vida no campo, imagem pálida do paraíso bíblico, é rara. Há crianças que nunca viram uma galinha, um patinho correndo no quintal da casa!
- Quintal? O que é isso? Exclama Alberto.
- Você não sabe? É um lugar aprazível geralmente no fundo das casas nas pacatas cidades do interior e também nas casas de fazenda e retiros no meio rural. Os animais domésticos, galinhas, patos, marrecos, galos, gansos, cachorro, gatos vivem juntos ali, ciscando, comendo bichinhos no chão.
- Que saudade de minha infância na roça!
- Brincava descalço em contato com a terra. Corria atrás das galinhas soltas no quintal. Como eram ariscas! Era uma dificuldade agarrar uma!
Parece mentira, recordar dessas coisas que hoje não existem mais, nem na imaginação das pessoas. São coisas de outro mundo.
Hoje a criançada brinca de videogame, bonecos falantes alimentados por baterias, naves espaciais, foguetes atômicos, robôs, computadores, celulares, teclados e outras invenções que distanciam os seres do humano. Isso é humano ou “robô humano”?
Pensam em introduzir um chip no recém-nascido para identificá-lo. E o indivíduo?
A tarde cai. A cidade se ilumina. E as luzes dos carros, luminosos, luminárias, holofotes, ofuscam o céu estrelado e na cidade grande não se vê as estrelas piscando no céu. A lua, coitada, ninguém a vê e sequer se lembram dela. O chamado humano não vê as maravilhas naturais porque está distraído com os eletrônicos, os celulares, os carros...
O rio que banhava a cidade foi canalizado!
A árvore milenar que vivia na esquina da rua foi cortada para a ampliação da rua que não agüentava mais o trânsito intenso da grande metrópole.
- Em minha cidade, há uns anos atrás havia mangueiras nas ruas principais e davam fruta da época. A gente corria após uma ventania para apanhar as mangas que caiam e corriam e se esbarravam no meio fio.
Numa esquina, Cláudia dizia a Alfredo:
- Quer saber de uma coisa, acho que o Paraíso é aqui mesmo.
- Aqui onde?
- Aqui na Terra. Deus criou a Terra, este Paraíso, e pos aqui o homem e a mulher para viverem em paz e desfrutarem das maravilhas da natureza.
- Por que, então, há tanta violência, tanta tristeza?
- Não sei. O certo é que a natureza é tão pródiga e exuberante e nós nem sequer a observamos como deveria. O que fazemos é destruí-la e colocar em seu lugar construções humanas, frias, sem graça.

5° Capítulo

SEXTA-FEIRA

É um dia como outro qualquer.
Está marcada para as 18 horas uma solenidade de naturalização de estrangeiros na 1ª Vara da Justiça Federal, no prédio contíguo.
Os convidados vão chegando e o ambiente fica repleto. Depois do horário marcado chegam o juiz e seu assistente. Cumprimentam os presentes e o MM. Juiz pede que todos fiquem de pé para ouvirmos o Hino Nacional Brasileiro.
Todos cantam, menos o juiz que preside a audiência.
Os estrangeiros, prestes a receberem a cidadania brasileira, cantam o Hino para perplexidade da autoridade que não abre a boca.
Um cubano postado à frente do magistrado esgoela o Hino com a fronte erguida em demonstração inequívoca de que conhece a fundo a letra e a canta acompanhando os acordes e com segurança pronuncia sem sotaque as palavras brasileiras.
Os demais estrangeiros cantam o Hino Nacional para alegria dos presentes convidados.
É uma cena comovedora. Comovente e patética, porque a autoridade que preside o evento não abriu a boca.
Termina a execução do Hino tocado em uma vitrola. O magistrado pede que todos ocupem os seus assentos. E, em seguida, faz um discurso, evocando a liberdade, a cidadania, as lutas pela liberdade, recordando da Revolução Francesa e chega até nossos dias, em que os políticos dão um péssimo exemplo de malversação de dinheiro público.
Em seu discurso diz que o brasileiro é alegre apesar de tudo e convida os que irão receber a cidadania brasileira a cultivarem essa alegria.
Em seguida, chama cada um por seu nome e pede que renunciem a sua cidadania de origem.
A cena constrange porque cada um é forçado a renunciar a sua origem e manifestar que quer ser brasileiro.
E o clima patético não para por aí. Todos são obrigados a ler um texto que lhes foi entregue minutos antes, em português, extraído da Constituição Brasileira.
A chinesa, com muito sotaque, custa a ler as suas três ou quatro linhas. O cubano, que cantou o Hino com altivez. Lê o texto a todo pulmão, quase sem sotaque, reafirmando a sua condição de receber, com louvor, o título de naturalizado brasileiro.
Os demais, mais dois cubanos, mais uma chinesa, uma italiana e um boliviano, - ia me esquecendo da árabe -, que lêem razoavelmente o trecho da Carta Magna que lhes coube e, desse modo, o juiz encerra a solenidade, parabenizando a todos pelo novo nascimento, agora, como brasileiros naturalizados.
Batem palmas e aquela audiência se encerra para alívio de alguns. Os novos brasileiros se dirigem ao saguão ao lado e recebem os cumprimentos dos amigos e familiares.
Cada grupinho é formado e em poucos minutos se dispersam. O salão se esvazia e cada novo brasileiro vai, naturalmente, comemorar o acontecimento juntamente com os seus em um restaurante da cidade.
- Que sexta-feira!





6° Capítulo

SÁBADO

Pela manhã, bem cedo, Paulo desperta e prepara o seu café expresso. O sol brilha forte convidando a uma promissora caminhada na praça da Liberdade. Nome sugestivo de um local eclético onde se vê de tudo. Vendedor de bugigangas, moças passeando com seus cãezinhos peludos, alguns até de sapatinhos nas quatro patas, uma aberração, fora do natural!
O pensamento de fazer exercícios físicos, caminhadas, domina a mente de todos aqueles que se dispõem a andar até quilômetros, dando voltas e mais voltas naquela praça, estilo belga, se não me falha a memória!
Pedro caminha, caminha, pensando na vida. Pensando ou imaginando? Não se sabe. É difícil saber, porque muitas vezes, por desorganização mental se usa uma faculdade no lugar de outra, em completa desorientação. Vivemos assim, desorientados, andando ao sabor dos pensamentos que nos dominam e ditam a nossa conduta e comportamento.
O dia transcorre plácido. O calor é abrasador. O efeito estufa é notável, não só nos terremotos, maremotos, tufões, furacões, mas na sensação insuportável de um calor que sufoca e o vento que insiste em soprar, transmite um bafo sufocante. Que dia!
O som do carro de um jovem parado na esquina, com as portas abertas é ensurdecedor. Ninguém agüenta, mas está ali poluindo o ambiente da rua...
Carlos, em casa, não agüenta mais a monotonia daquela tarde ensolarada. Na televisão, os programas são intragáveis e mesmo assim ele não consegue desligar o aparelho e não sai da frente da telinha, como que hipnotizado. Seus olhos fixos naquele foco imaginam mil coisas e não sai do lugar.
Isso faz bem ou mal? Não sei. Alguns dizem que sim, faz muito mal.
O Dr. Antônio Medeiros, um advogado dos velhos tempos da máquina de escrever Remington, Olivetti, hoje obsoletas, recostado na poltrona da ampla sala de estar de sua casa, se deixa entregar nos braços do passado e se recorda dos fatigantes dias de trabalho intenso no escritório de advocacia. Sozinho ali deixa escapar um sorriso porque se lembrou de que certa vez um cliente aflito ao telefone lhe pediu que traduzisse uma expressão, segundo ele, no idioma inglês, que havia lido em um contrato de locação que teria que assinar.
- Leia para mim, de novo, o que você quer que traduza.
- com sotaque de americano do velho oeste, repetiu:
- “in fine”
- o quê?
- “in fine!”
- Ora, amigo, essa expressão não é em inglês. Trata-se de uma expressão latina, muito comum nos contratos, que significa, no fim.
Em outra ocasião, o velho causídico foi consultado e do outro lado da linha um cliente lhe pediu, com um certo ar de pressa, que lhe enviasse por fax – aparelho muito recente e raro ainda nos escritório, naquela época – a lei número tal. O advogado, prestativo, num primeiro momento, acenou que sim, mas imediatamente percebeu que se tratava nada menos do que o regulamento do ICMS e que jamais poderia ser remetido via fax, pelo volume, era um texto que continha mais de 500 artigos...


7° Capítulo

DOMINGO

“Hoje é domingo, pé de cachimbo...”
- Quando criança ouvia isso de meu pai.
Domingo. Para muitos um dia insuportável. Para outros, um dia como os demais. E há aqueles que consideram o domingo um dia santo, imaculado e propício à reflexão e adequado para se planejar a semana que vem.
Quem passa a semana na cidade, quer ir para o campo e muitos, imbuídos desse pensamento, pegam o carro e vão pra o sítio e ali desfrutam de uns instantes com a natureza.
Outros, mais preguiçosos, acordam mais tarde. Também há os “atletas de fim-de-semana” que não deixam de fazer uma caminhada ou praticar um esporte, principalmente, se o dia está ensolarado.
Henrique, no domingo, trabalha, porque sua folga acontece na segunda-feira.
O domingo é um dia de folga.
A vida recomeça no dia seguinte, segunda-feira.
Esse é o cotidiano de uma vida...
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