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Contos-->O livrólatra -- 16/06/2006 - 14:38 (Pedro Carlos de Mello) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Quando Sílvio, ainda pequeno, entrou pela primeira vez numa livraria e sentiu-se inebriado ao ver tantos livros, seus pais acharam uma gracinha. Até o estimularam a pegar alguns livros na mão, aspirar o seu cheiro, observar as palavras, as ilustrações. Sabiam que isso era perigoso, que o livro vicia, não era para crianças, mas achavam que ele logo esqueceria a experiência e voltaria aos seus brinquedos. Ainda não tinham idéia do erro que estavam cometendo.

Sílvio não parou mais de visitar as livrarias, sebos e bibliotecas. Seus pais não conseguiam segurá-lo em casa. Ao menor descuido, lá se ia o menino para a rua. Ainda não sabia ler, mas isso era apenas questão de tempo. Enquanto isso, ia se familiarizando com os livros e com os freqüentadores daqueles lugares. Sempre conseguia que algum deles lesse um trecho de um livro para ele. As palavras lidas pareciam um líquido sendo absorvido pelo seu corpo, pareciam correr nas veias junto com o seu sangue. Sentia-se embriagado.

Aos poucos ele aprendeu a ler. Era um menino esperto, foi observando, fazendo comparações, perguntando, juntando letras, formando frases, até que o livro já era de seu domínio. Não precisaria esperar completar os 18 anos para sentir o prazer de degustar um legítimo Chateubriand, ou um Guimarães Rosa, ou um Pablo Neruda.

Sílvio lia, compulsivamente, de tudo: contos, poemas, novelas, romances, ensaios, crônicas. No início, suas leituras eram de baixo teor literário. Sua mente ainda não estava preparada para aceitar teores literários mais elevados. Lia histórias de espionagem e de detetives, novelas de amor e de paixão. À medida que sua mente foi se acostumando às doses diárias de leitura, gradualmente ele foi aumentando as doses e aumentando o teor literário. Passou a ler grandes romances, grandes autores, clássicos: Homero, Heródoto, Marcel Proust, Robert Musil, James Joyce, Joanot Martorelli, Euclides da Cunha, Stendhal, Dostoievski, Tchecov.

A vida seguia seu curso. Sílvio foi crescendo e chegou à idade adulta. Para alimentar seu vício, precisava arrumar um trabalho. Que lugar melhor haveria para ele do que uma livraria, um sebo ou uma biblioteca para trabalhar? Além de ganhar dinheiro para comprar livros, ele viveria cercado deles. Não precisaria fazer como aqueles trabalhadores que, no meio do expediente, necessitavam dar uma fugidinha para beber sua dose diária de leitura. Como Sílvio entendia muito de livros e de leitura, não foi difícil conseguir o emprego. Era o céu: ver todos aqueles livros ali, disponíveis, ao alcance da mão.

Entre uma leitura e outra, Sílvio se apaixonou por uma colega de trabalho, bibliotecária. Seu nome era Júlia. Seus cabelos compridos, presos atrás, lembravam-lhe Virginia Woolf, quando jovem, de quem já havia lido alguns livros, como “Orlando”, “Um Teto todo seu” e “Uma Casa Assombrada”. No início, tudo correu muito bem. O fato de ambos trabalharem com livros, ter os mesmos interesses, proporcionava uma grande integração entre eles. Os comentários sobre livros lidos eram sempre pertinentes. Viviam harmonicamente. Tanto, que logo tiveram um filho. De comum acordo chamaram-no de Virgílio, em homenagem ao grande poeta romano, autor da “Eneida”. O vício de Sílvio de se embebedar de leituras ainda não comprometia. Ele ainda conseguia raciocinar normalmente. As suas leituras estavam devidamente sob controle, compartimentalizadas dentro de sua mente, ainda dependentes de um comando do seu cérebro para se manifestarem.

Mas Sílvio, que já estava no limite, aumentou ainda mais as suas doses diárias de leitura. Sílvio lembrou de que lera no livro “A palavra Impressa”, de Martyn Lyons e Cyana Leahy, que Thomas Cooper, um sapateiro do século XIX, organizara para si um programa de leitura que visava absorver praticamente todos os momentos de sua vida ativa. Thomas não parava de ler nem no horário do almoço: “geralmente comendo de colher a comida picadinha, com meus olhos em um livro o tempo todo”. A despeito das conseqüências desastrosas do plano de leitura de Thomas, que teve a saúde abalada, Sílvio não titubeou em adotar procedimento semelhante. Com isso, a atenção que Sílvio dedicava a sua mulher e ao filho, que já era mínima, chegou a zero.

Júlia não conseguia sequer falar mais com Sílvio. Sempre lendo, ele só conseguia responder com hãs e com huns; ou, às vezes, quando sentia a conversa insistente em seu ouvido, dizia secamente: “não me interrompa, não vê que estou lendo?”

O desfecho não poderia ser outro. Logo após um dia de trabalho, o cérebro de Sílvio começou a sentir o efeito da overdose de leitura. Ele já não conseguiu mais manter suas leituras organizadas dentro da cabeça. Sílvio leu demais, a cabeça está transbordando, derramando textos, explodindo idéias. A mistura de livros e de leituras de todos os tipos está lhe fazendo mal. Sente-se tonto, de ressaca. Precisa urgentemente de um remédio para tomar. Mas, embriagado de leituras como está, acredita que bastará ler outro livro para rebater. Resolve bebericar trechos de um legítimo Cervantes de 400 anos. Sentiu-se como o próprio Dom Quixote de la Mancha. Saiu com o seu “Rocinante” (um fusca vermelho, bastante maltratado) pelas ruas da cidade, as idéias borbulhando, pesando-lhe sobre os olhos, até encontrar um personagem bastante concreto: um poste. Ao ser interpelado pela polícia, Sílvio confirmou que havia ingerido excessivas leituras: “Li tudo que tinha direito, comédias, dramas, romances, de alto teor literário”. Sobre a colisão, ele se limitou a informar que “estava passeando pela cidade e o poste apareceu na frente”. Sílvio se recusou a fazer o teste do leiturômetro. Ele foi autuado e preso.

No dia seguinte, já liberto, mas ainda sob o efeito do porre literário, e frente aos apelos da mulher para que ele procurasse ajuda, Sílvio falou (ou melhor, ele pensou que falou, pois na realidade, quem falou, saltando de um cantinho de sua mente, foi Adão, do “Paraíso Perdido”, de Milton):
“Não! Não! Sentindo estou que por mim puxam
Da Natureza os vínculos sagrados:
Carne e osso és tu da carne e ossos que tenho;
Fugir do teu destino o meu não pode;
Um só bem, um só mal, será o de ambos.”

E continuou, como se somente agora estivesse se dando conta de que havia negligenciado sua mulher (mas, mais uma vez, quem falou foi Adão):
“Desde esse dia em que te vi primeiro
Das mais sublimes perfeições ornada
E em que me concedeste a mão de esposa,
Nunca a tua beleza, como agora,
Conseguiu inflamar os meus sentidos
Com tal ardor de te gozar, ó bela.”

Júlia, reconhecendo os versos de Milton, mas amargurada com o descaso que o marido havia lhe demonstrado até então, recusou o assédio, dizendo:
“Quantas noites você deixou-me sozinha? Agora quer minha atenção? Volte para seus livros, para suas leituras”.

A voz de Sílvio, novamente se fez ouvir. Mas ele já não tinha mais controle sobre sua voz. Desta vez, quem usou a voz de Sílvio foi Jules Michelet, vinda da leitura do livro “A Mulher”:
“Minha senhora, em todos os tempos, o homem só deseja o difícil. Nos tempos cavaleirescos, pensai então que o jovem escudeiro não tinha à sua disposição todas as servas da vizinhança? Na singular bagunça e no amontoamento confuso da causa feudal, o pajem tinha à vontade muitas moças, muitas donzelas. Pois bem, a única que queria era a mais altiva, a impossível, aquela que lhe tornava a vida dura”.

Júlia assustou-se. Sílvio, decididamente, não estava bem. Como fazê-lo retomar o juízo? Ela tentou sensibilizá-lo, dizendo:
“Calma Sílvio, vamos conversar. Você está tomado pelas leituras. Seria bom você procurar o grupo de Livróicos Anônimos, acho que isso poderá ajudá-lo. Você precisa recuperar-se e descansar. Pense no seu filho, ele precisa de você”.

As palavras também podem ser instrumento de açoite. E foi com elas que Sílvio, totalmente descontrolado, bateu em sua mulher. Quem aflorou foi o personagem Théodore, do romance “A Divina Marquesa”, do Marquês de Sade:
“Deve morrer, senhora, em vez de procurar me comover, agradeça-me por deixar que escolha o tipo de morte que deverá acabar com os dias de uma criatura tão culposa e tão falsa como a senhora. Portanto, pode escolher entre o fogo, o ferro ou o veneno e dê graças a Deus pelo favor que lhe concedo”.

Agora, os personagens de todas as leituras de Sílvio, libertos dos compartimentos e dos controles que os prendiam, faziam fila para falar. Manifestou-se então, por intermédio da voz de Sílvio, o Marquês, personagem do conto “O Quarto do Barba-Azul”, de Ângela Carter:
“Minha virgem dos arpejos, prepare-se para o martírio. Decapitação (murmurou, quase com volúpia). Vá tomar banho; ponha o vestido branco que você usou quando foi assistir a ‘Tristão’ e o colar que prefigura o seu fim. Eu vou à armaria, minha querida, para afiar a espada cerimonial do meu avô”.
“Cortem-lhe a cabeça” – esbravejou Sílvio, isto é, a Rainha de Copas”, emergida de “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol.

Júlia ouvia calada, enquanto pensava numa forma de fazê-lo voltar à razão. A voz de Sílvio, valendo-se das palavras do personagem do livro “Manon Lescaut”, do Abade Prévost, continuou a bater:
“Que horrível dissimulação! Vejo agora, melhor do que nunca, que tu não és mais do que uma infame e uma pérfida. Só agora conheço o teu miserável caráter. Adeus vil criatura; antes queria sofrer mil mortes neste momento do que ter contigo a menor convivência”.

Júlia tentou novamente acalmá-lo, mas ele não tinha mais condições de voltar à realidade. Da voz de Sílvio, brotaram os versos de um poema do século XVII, Transitoriedade da Beleza, do poeta silésio Christian Hofmann von Hofmannwaldau:
“Por fim a morte pálida com sua mão gelada
Com o tempo acariciará teus seios;
O belo coral dos teus lábios empalidecerá
A neve de teus mornos ombros será fria areia
O doce piscar de teus olhos / o vigor de tua mão
Por quem caem / cedo desaparecerão
Teu cabelo /que agora tem o tom do ouro
Os anos farão cair, uma comum madeixa
Teu bem formado pé / a graça de teus movimentos
Serão em parte pó / em parte nada e vazio.
Então ninguém mais cultuará teu esplendor agora divino
Isso e mais que isso por fim terá passado
Só o teu coração todo o tempo durará
Porque de diamante o fez a natureza”.

Júlia deu-se por vencida e resolveu chamar uma ambulância do Hospital Psiquiátrico. Sílvio precisava de tratamento urgente. Enquanto a ambulância não chegava, outros personagens e autores da literatura alternavam-se nos impropérios, por meio da voz de Sílvio:
“Que a mulher foi destinada pela natureza a obedecer, pode ser concluído pelo fato de que toda mulher que é posta na posição nada natural de completa independência imediatamente liga-se a um homem ao qual permite que a guie e controle. É porque ela precisa de um senhor e mestre. Se ela for jovem, ele será um amante; se for velha, um sacerdote”. Quem falou foi Arthur Schopenhauer, do ensaio “Sobre as Mulheres”.
“Um cadáver não revida agravos”, disse William Blake, retirado do livro “O Matrimônio do Céu e do Inferno”.
“E quando estiver morta, mãos estranhas irão vesti-la às pressas, aos resmungos, com impaciência; ninguém vai abençoá-la, ninguém suspirará por você; todos vão querer ver-se livres daquilo o quanto antes”, manifestou-se o narrador de “Memórias do Subsolo”, de Fiódor Dostoievski.

Enfim chegou a ambulância. Sílvio, ao ver o médico e o enfermeiro entrando em sua casa, falou:
“Já sei. Vieram me buscar. Pensam que estou louco”.

Júlia surpreendeu-se. O marido falara por si próprio. Nem tudo estava perdido, pensara ela. Mas seu quase entusiasmo durou pouco. Sílvio completou, olhando para o médico:
“Sei quem é você, Dr. Simão Bacamarte. Vocês querem recolher-me à Casa Verde”.

Sílvio agora transportara-se para o cenário do conto “O Alienista”, de Machado de Assis. O médico imediatamente constatou os sinais de loucura. Com a ajuda do enfermeiro, segurou Sílvio firmemente, que bradou, com as palavras do personagem Gil Bernardes, do conto de Machado, levado à força para a Casa Verde:
“Devemos acabar com isto! Não pode continuar! Abaixo a tirania! Déspota! Violento! Golias!”.

Mas de nada adiantou a revolta de Sílvio. Ele já estava imobilizado. Porém, antes de ser levado, dirigiu-se à Júlia e falou, desta vez com as palavras de Jean-Arthur Rimbaud, de “Uma Temporada no Inferno”:
“Não há partida. -- Retomemos os caminhos daqui, carregando meu vício, o vício que deitou suas raízes de sofrimento ao meu lado, desde a idade da razão – que sobe ao céu, bate em mim, joga-me ao chão e me arrasta.” “Como acharás estranho tudo por que passaste, quando eu não estiver mais aqui. Quando não tiveres mais meus braços sob tua nuca, nem meu peito para repousares nele, nem esta boca sobre teus olhos”.

Júlia chorou de tristeza. Se Sílvio tivesse lido com moderação, não teria se transformado num livrólatra. Não estaria agora com aquela superpopulação de personagens na sua cabeça, abafando sua razão. Mas, nada mais poderia fazer, a não ser aguardar o resultado do tratamento. Talvez ele conseguisse melhorar.

No entanto, Sílvio não mais se recuperou: a livrose que o atacou estava em um estágio muito avançado, já havia comprometido definitivamente as conexões cerebrais. Os personagens e autores continuaram a utilizar sua voz. O máximo que ele conseguiu, quando tomava os remédios regularmente, era fazer surgir os personagens bons, que lhe davam paz. Numa noite era o menino Marcel Proust, do romance “Em busca do Tempo Perdido”, aguardando sua mãe para lhe dar o beijo de boa-noite; em outra era Mário, o personagem do romance “O carteiro e o Poeta”, de Antonio Skármeta, aprendendo o que eram metáforas. Às vezes, ia ao Paraíso, com Dante, na sua “Divina Comédia”; mas em outras, ele acompanhava “Dante” ao Inferno. A sua cabeça era o local em que os mais variados personagens ganharam vida, habitavam e se encontravam. Nem seus autores imaginaram que suas criações teriam vida além da que lhes fora destinada nos livros.


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