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cronicas-->Lembrança do Taquari -- 27/04/2004 - 12:25 (Antonio Perdizes) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Lembrança do Taquari

O ónibus seguia pela estrada poeirenta que cortava o milharal. Aspirava a poeira da estrada de terra e, depois, a turbinava, jogando jatos de pó pela traseira, que no redemoinho do vento subiam sujando a paisagem, ficada para trás. Parecia ser o pó o combustível. O ruído de lata da carroceria, na trepidação da estrada, fazia com que todos usassem um pouco de mímica para se comunicarem.
O milharal, começando a amarelar suas folhas, estava ficando pronto para a colheita. Seguia a várzea formada ao longo do rio e ia terminar junto aos laranjais cultivados nas coxilhas que se viam ao fundo. Do outro lado da estrada, o milharal continuava e seguia até uma mata irregular, escondendo a calha profunda e larga do Rio Taquari.
De quando em quando, avistavam-se casas de colonos afastadas da estrada, sempre na parte mais alta, numa clareira aberta no meio da plantação. As casas de madeira de paredes pintadas de verde ou vermelho, desbotadas pelo tempo e com janelas brancas, possuíam uma pequena varanda e canteiros de flores e hortaliças ao redor com cercas rústicas de madeira. Dessas casas saíam as pessoas que apanhavam o ónibus, fazendo-o parar aqui ou ali.
Os colonos, com suas roupas sóbrias, limpas, recém-saídas de algum armário e reservadas para a ida à cidade, possuíam o olhar solene e comportado. Sempre carregavam alguma coisa: às vezes, caixas com potes que pareciam de mel ou de algum doce; outras, sacos de laranja de umbigo, que precisavam ser acomodados no bagageiro inferior do ónibus, fazendo o motorista, meio a contragosto, descer para acomodar a carga.
Alguns estudantes, vestidos com uniforme, traziam pesadas mochilas, iam passar o dia inteiro na cidade. Eram barulhentos e sempre estavam fazendo, um com os outros, alguma brincadeira.
Eu estava ali como um elemento estranho, vendo todos sem ser visto, até que ela chegou e, não achando outro lugar vago, sentou ao meu lado. Fui iluminado por seu sorriso ao me pedir permissão para sentar e, então, meu sossego interno acabou. Eu estava com meus 23 anos, cabelos compridos de fã dos Beatles, calça boca larga. Ela, uns 17. Linda e encantadora, com os cabelos da cor da palha do milho maduro, carregava seus livros.
Dois mundos diferentes: eu era tal qual o rio Taquari, que vindo de terras distantes do alto da serra, com vontade de se tornar grande, forte e poderoso, quase sempre seguindo manso até desaguar no rio Jacui, porque da noite para o dia poderia com uma chuva forte se transformar, crescer, sair de sua calha e inundar tudo. Amedrontar todos os ribeirinhos, correr por esta estrada em que agora o ónibus segue, estragar todo este milharal e chegar até os pés das coxilhas. E, sem rumo, com uma ansiedade e um desejo de transformar, anarquizar o mundo.
Ela era tal qual a barragem, de grossas e altas paredes de concreto, que agora estavam construindo em Bom Retiro para dominar este rio, fazê-lo escoar controlado, dominando toda a sua intempestividade.
Conversamos: ela curiosa e contida. Eu, galanteador. Se ela, com sua inocente beleza, que até hoje guardo na memória, tivesse correspondido ao meu assédio, dado um olhar de esperança, com certeza eu teria ficado retido em sua barragem e não teria ido tão longe.
Segui o caminho através de rios, lagos e mares, estou aqui tão distante, não foi ela, mas sim, outra que me dominou, a vida me dominou.
Nunca voltei àquele lugar, mas tenho certeza que ela ainda está lá, no sorriso de todas as moças do Taquari.

Antonio Perdizes



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