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Contos-->Bingo! -- 13/09/2005 - 20:10 (Marilisa Loureiro Gomes) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos



Todos já estavam instalados em suas mesas, esperando o jogo começar. Quando o responsável pelo sorteio das bolinhas, “cantou” o primeiro número, Neuza adentrou no salão. Todos os olhares voltaram-se para ela. Não por sua beleza, mas, porque ela havia interrompido por alguns segundos o jogo.
Neuza acomodou-se na primeira mesa vaga, seguida por outra senhora. Por alguns instantes os olhos de Neuza cruzaram com os olhos maliciosos de um rapaz que estava sentado próximo a elas. Ademir, este era o nome dele, fez um aceno com a cabeça, ao qual ela respondeu com um sorriso enviesado, alisando o cabelo ressequido tingido de vermelho.
Terminada a primeira rodada, foram vendidas mais cartelas. Neuza adquiriu algumas.
O sorteio dos números recomeçou e em pouco tempo Neuza já levantava a mão, gritando: bingo! Conferidos os números, recebeu o dinheiro que lhe era de direito e continuou a jogar e a ganhar! Bastava olhar para ela, para entender o significado da frase “sorte no jogo, azar no amor”.
Neuza nunca tivera o amor de um homem em sua vida. Criada por uma família para quem prestava serviços domésticos obteve o direito de estudar. E ela fez disto, prioridade. Seu diploma foi sua carta de alforria.
Dedicou-se então ao Magistério, até aposentar-se. Um dia, uma amiga convidou-a para uma excursão. Neuza não pensou duas vezes e no final de semana as duas rumaram, pela primeira vez, até ao litoral. Chegando lá, hospedaram-se num hotel fazenda que havia nas proximidades.
Todas as manhãs havia um passeio pela fazenda, que incluía visita à casa principal, uma construção antiga, rodeada por árvores centenárias. A maior atração era um frondoso carvalho, moradia de corujas. Neuza encantou-se com as aves. Admirava principalmente o destemor daqueles animais para com a vida noturna.

Aos poucos as pessoas começaram a retirar-se do salão e foi dado por encerrado o jogo de bingo daquela noite.
Neuza voltou ao hotel com as faces coradas, os olhos brilhantes. Ao chegar no apartamento, contou e recontou o dinheiro ganho. Era inacreditável pensava ela, que fosse possível ganhar dinheiro com tanta facilidade!
Deitou-se, mas, não conseguiu pegar no sono. Sua companheira de quarto já ressonava, quando Neuza resolveu sair para tomar um pouco de ar.
No saguão do hotel, ela caminhava de um lado para o outro e notava coisas que não havia notado antes. Ora era uma planta, ora era um objeto de arte e neste vai e vem descobriu uma pequena vitrine, que exibia lembrancinhas para venda. Ao ver um estojo de maquiagem, chamou o rapaz da recepção, pois ela queria dar-se aquele presente. O recepcionista abriu a portinha de vidro e entregou o estojo à Neuza que saiu cantarolando baixinho pelos corredores.
Antes de chegar no apartamento avistou Ademir, que veio sorrindo em sua direção. Cumprimentou-a pela sorte no jogo e convidou-a para ir com ele a um barzinho. Neuza já não era a mesma. Agora sorria olhando diretamente nos olhos dele. Lembrou-se do destemor das corujas, pediu alguns minutos para trocar de roupa e combinaram de encontrar-se em frente ao hotel.
De vestido preto e sapato de modelo antigo, o qual havia guardado para uma grande ocasião, Neuza parou na frente do espelho e pintou generosamente as pálpebras com sombra azul.
Preocupou-se em guardar o dinheiro ganho no jogo e como não achasse nem um lugar no apartamento, bastante seguro, puxou o decote do vestido e acomodou as notas dentro do sutiã.
Ademir com um cigarro no canto da boca planejava uma maneira de se apoderar do dinheiro de Neuza. Não podia falhar. Ela lhe confidenciara a intenção de partir no dia seguinte.
Neuza chegou caminhando lentamente, com um passo arrastado. O couro endurecido, dos sapatos guardados por tanto tempo, começava a machucar seus pés sem meias. Pensou em voltar e trocar de calçados, mas, Ademir já a tomava pela mão e dirigia-se ao táxi que os aguardava.
Desceram na frente de um quiosque, de onde se avistava o mar. Sentados em cadeiras ao ar livre, Ademir pediu uma cerveja ao garçom e só então notou que Neuza estava sem bolsa. Neuza não estava acostumada a tomar bebida alcoólica, naquela noite, porém, resolveu experimentar. Depois do segundo copo, já ria sem motivos e Ademir, com motivos de sobra. Mais uma cerveja e foram caminhar à beira-mar. Aconchegada no ombro daquele homem a quem mal conhecia, Neuza já não sentia dores nos pés.
Na noite escura, de lua minguante, Ademir seria capaz de qualquer coisa para roubar o dinheiro de Neuza. Teria que voltar ao hotel com ela. O dinheiro devia estar guardado em algum lugar do apartamento. Ele tinha que entrar lá e para isto precisava ganhar a confiança de Neuza. Começou a beijá-la e a acariciá-la. Suas mãos foram subindo, apalpando o corpo mole de Neuza. Então, ao tocar em seus seios, percebeu algo diferente e suspeitou do que pudesse haver ali. Delicadamente colocou a mão dentro do sutiã de Neuza e surrupiou o dinheiro. Antes que ela se desse conta do que havia acontecido, Ademir já se afastava rapidamente.
Neuza, desesperada, correu atrás dele, mas, seus pés machucados não ajudaram. Jogou longe os sapatos e depois, caiu na areia, exausta. Ficou algum tempo ali, chorando e, quando se levantou, o mar feito cachorro faminto veio lamber-lhe as feridas dos pés. Sem rumo, Neuza demorou-se mais um pouco e o mar aproveitou para enterrar-lhe os pés ossudos. Depois, de um pulo, derrubou-a.

Na manhã seguinte, um novo grupo de hóspedes saiu para conhecer a fazenda.
Visitaram o casarão antigo, tentaram ver as corujas do pé de carvalho e foram até aos fundos da casa. Ao se aproximarem, depararam com uma coruja dentro da piscina, tendo apenas a cabeça fora d’água. O peso das penas molhadas impedia-a de voar. O grupo, excitado, quis tirá-la dali.
Um senhor, cauteloso, tomou-a entre as mãos e colocou-a sobre a grama. Ela abriu toda a extensão das asas e girou a cabeça fitando a todos. Depois, piscou os olhos languidamente, mostrando as pálpebras azuis. Alguém fez um comentário sobre o fato e outra pessoa começou uma história dizendo que na noite anterior, como era sábado, a coruja havia pintado as pálpebras para sair, no que o guia de turismo emendou: como ela bebeu demais, ao voltar pra casa caiu na piscina e aí vocês já sabem o que aconteceu. Todos riram muito, a coruja foi colocada num galho de árvore e o grupo retornou à caminhada.

Soube-se mais tarde que Ademir havia deixado o hotel durante a madrugada, em virtude de um chamado urgente.
Neuza não voltou ao hotel para encerrar a conta e nem à cidade aonde morava. Muitas histórias foram inventadas para explicar o seu desaparecimento. Alguns dizem que ela foi morar em Brasília, onde se casou com um senador. Outros dizem que ela aprendeu a dançar tango e foi ser dançarina numa casa noturna em Buenos Aires e outros, ainda, dizem tê-la visto num luxuoso cassino em Monte Carlo.
No hotel fazenda, a coruja de pálpebras azuis fez morada na copa do antigo carvalho.



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