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Cordel-->CHEGADA DE LAMPEÃO NO INFERNO -- 19/09/2011 - 16:58 (GESNER CAPISTRANO LINS DA CUNHA) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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chegada de Lampião no Inferno

Autor: José Pacheco



Um cabra de Lampião

por nome Pilão Deitado

que morreu numa trincheira

um certo tempo passado

agora pelo sertão

anda correndo visão

fazendo mal assombrado



Foi ele que trouxe a noticia

que viu Lampião chegar

o inferno nesse dia

faltou pouco pra virar

incendiou-se o mercado

morreu tanto cão queimado

que faz pena até contar



Morreu mãe de Canguinha

o pai de Forrobodó

cem netos de Parafuso

um cão chamado Cotó

escapuliu Boca Ensossa

e uma moleca ainda moça

quase queima o totó



Morreram cem negros velhos

que não trabalhavam mais

um cão chamado Traz Cá

Vira Volta e Capataz

Tromba Suja e Bigodeira

um cão chamado Goteira

cunhado de Satanás



Vamos tratar na chegada

quando Lampião bateu

um moleque ainda moço

no portão apareceu

quem o senhor cavalheiro

moleque eu sou cangaceiro

Lampião lhe respondeu

o moleque não sou vigia

e não sou seu pareceiro

e você aqui não entra

sem dizer quem é primeiro

moleque abra o portão

saiba que sou Lampião

o assombro do mundo inteiro



Então esse vigia

que trabalha no portão

dá pisa que voa cinza

sem fazer distinção

o cabra escreveu não leu

a macaiba comeu

ali não se faz perdão



O vigia disse assim

fique fora que eu entro

vou falar com o chefe

no gabinete do centro

por certo ele não lhe quer

mais conforme o que disser

eu levo o senhor prá dentro



Lampião disse vá logo

quem conversa perde hora

vá depressa e volte já

que eu quero pouca demora

se não me derem ingresso

eu viro tudo asavesso

tóco fogo e vou embora



O vigia foi e disse

a Satanás no salão

saiba vossa senhoria

que aí chegou Lampião

dizendo que quer entrar

eu vim lhe perguntar

se dou-lhe ingresso ou não



Não senhor Satanás disse

vá dizer que vá embora

só me chega gente ruim

eu ando meio caipora

eu já estou com vontade

de botar mais da metade

dos que têm aqui pra fora



Lampião é um bandido

ladrão da humanidade

só vêm desmoralizar

nossa propriedade

e eu não vou procurar

sarna pra me coçar

sem haver necessidade



Disse o vigia patrão

a coisa vai esquentar

eu que ele vai se danar

quando não puder entrar

Satanás disse é nada

convida toda a negrada

e leve o que precisar



Leve cem dúzias de negros

entre homem e mulher

vá na loja de ferragens

tire as armas que quiser

é bom avisar também

pra vir os negros que tem

mais compadre Lucifer



E reuniu-se a negrada

primeiro chegou Fuchico

com um bacamarte veio

gritando por Cão de Bico

que trouxesse o pau da prensa

e fosse chamar Tangença

na casa de Maçarico



E depois chegou Cambota

endireitando o boné

Formigueiro e Trupe Zupe

e o crioulo Quelé

chegou Caé e Pacaia

Rabisca e Cordão de Saia

e foram chamar Banzé



Veio uma diaba moça

com uma caçola de meia

puxou a vara da cerca

dizendo a coisa tá feia

hoje e negocio se dana

e gritou eita banana

agora a ripa vadeia



E saiu a tropa armada

em direção ao terreiro

com faca facão e pistola

canivete e granadeiro

uma negra também vinha

com a trempe da cozinha

e o pau de bater tempero



Quando Lampião deu fé

da tropa negra encostada

disse só na Abissínia

dá tropa preta danada

o chefe do batalhão

gritou de arma na mão

toca-lhe fogo negrada



Nessa voz ouviu-se tiro

que só pipoca no caco

Lampião pulava tanto

que parecia um macaco

tinha um negro nesse meio

que brigou tomando tabaco



Acabou-se o tiroteio

por falta de munição

mas o cacete batia

nego rolava no chão

pau pedra que achavam

e tudo que a mão pegava

sacudiam em Lampião



Chega trás um armamento

assim gritava o vigia

trás a pá de mexer doce

lasca os gamos de caria

trás um birro de massau

corre vai buscar um pau

na cerca da padaria



Lucifer mais Satanás

vieram olhar do terraço

todos contra Lampião

de cacete vaca e braço

o comandante no grito

dizia briga bonito

negrada chega-lhe o aço



Lampião pode apanhar

uma caveira de boi

e sacudiu na testa dum

e ele só fez dizer oi

ainda correu dez braças

e caiu enchendo a calça

mais não digo de que foi



Estava travada a luta

mais de uma hora fazia

a poeira cobria tudo

negro embolava e gemia

porem Lampião ferido

ainda não tinha caído

devido a grande energia



Lampião pegou um seixo

e rebateu em um cão

mas o qual arrebentou

a vidraça do oitão

saiu um fogo azulado

incendiou o mercado

e o armazém de algodão



Satanás com este incêndio

tocou no búzio chamando

correram todos os negros

que se encontravam brigando

Lampião pegou a olhar

não vendo com quem brigar

também foi se retirando



Houve grande prejuízo

no inferno nesse dia

queimou-se todo dinheiro

que Satanás possuía

queimou-se o livro de ponto

perdeu-se vinte mil contos

somente em mercadoria



Reclamava Lucifer

horror maior não precisa

os anos ruim de safra

e agora mais esta pisa

se não houver bom inverno

tão cedo aqui no inferno

ninguem compra uma camisa



Leitores vou terminar

o tratado de Lampião

muito embora que não possa

vos dá maiores explicação

no inferno não ficou

no céu também não chegou

por certo está no sertão



Quem duvidar desta historia

pensar que não foi assim

querer zombar do meu eu

não acreditando em mim

vá comprar papel moderno

e escreva paro o inferno

mande saber de Caim.

Colaboração

GESNER LINS Recife -PE.

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