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Contos-->TAL QUAL -- 04/12/2004 - 22:04 (Domingos Oliveira Medeiros) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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TAL QUAL
(Por Domingos Oliveira Medeiros)

Tal qual o caminhão que, no meio da madrugada, rodando pela estrada escura, em noite chuvosa, agravado pelo sono do motorista, perdera a direção e tombara na pista; que, de pronto, ficou coberta de pacotes contendo produtos alimentícios - doces e salgados - que estavam sendo transportados na imensa carroceria daquele veículo mal tratado e mal conduzido.

Não demorou muito tempo, apesar da solidão daquela curva, e do adiantado da hora, para que filas imensas se formassem ao redor do caminhão, na busca de sua cota gratuita de alimentos. Tudo de graça: comida de primeira. Industrializada. Bem embalada. Em sacos e sacolas coloridos. Fechados a vácuo. Tudo em nome da segurança e da higiene alimentar. Livre de impostos. Coisa que há muito não se via por aquelas bandas, onde as pessoas estavam habituadas a se conformarem em comer o que pudessem retirar do seu próprio plantio: mandioca e milho - ainda com cheiro de terra -, e hortaliças e frutas, com suas embalagens naturais.

A fila crescia à cada minuto. A notícia do acidente, tudo indicava, parecia ter corrido depressa. A despeito do inusitado do acidente e do adiantado da hora.

Mas, ao contrário do que estamos acostumados a presenciar, não havia tumulto. Tudo caminhava com muita disciplina. A impressão era a de que aquela “gente” já estava bem acostumada a fatos semelhantes e rotineiros naquela época do ano em que as chuvas são mais freqüentes, as noites mais escuras e as estradas, como sempre, esburacadas. Sem contar com a falta de manutenção dos veículos e o cansaço dos motoristas em função do excesso de horas trabalhadas para garantir maior rendimento salarial.

Pacientemente, um a um, todos retiravam a cota do alimento a que se julgava ser de direito líquido e certo. - Achado não é roubado, diziam alguns, alardeando a justificativa de seus atos ali praticados, ao largo das leis. E complementavam as argumentações a favor do saque com a idéia de que, além de achado, a questão envolvia o direito à vida, garantido por qualquer texto constitucional: o direito natural à uma alimentação para a própria sobrevivência.

Não demorou muito tempo para que tudo terminasse. Para que tudo voltasse ao seu normal. Abrindo espaços para que a madrugada escura retornasse à pista - agora sem nada para atrapalhar o trânsito – que, em poucas horas, voltaria à sua rotina os primeiros raios de sol.

Foi desse jeito. Tal qual o caminhão. Não demorou muito tempo para que todo o besouro, que batera nas paredes e tombara dentro do quarto, naquela noite chuvosa, fosse carregado pelo exército de formigas que não dispensaram sequer asas e pernas. Tudo foi aproveitado por aquela gente carente e com fome, e que tinha a certeza de agir ao encontro de obter seu s direitos adquiridos ao longo da vida. Direitos líquidos e certos.

Gente miúda, esquecida pelos governantes. Que nunca se davam ao trabalho de ver o quanto elas eram trabalhadores, ordeiras e produtivas. E que por serem pequenas e indefesas, eram sempre pisoteadas pelos detentores do poder.

Belo exemplo de organização. Uma espécie de “programa- fome-zero” bem executado, foi o que demonstraram todas elas. As formigas esfomeadas do campo, realizaram, sem burocracia e sem algazarra, a distribuição de alimentos que lhe eram devidos. Com ordem e disciplina. Um exercício de cidadania.

Talvez porque, no caso, não estava em jogo qualquer interesse político escuso. Ou, quem sabe, o prefeito daquela comunidade, dado ao adiantado da hora, bem agasalhado e distante do frio e das questões sociais, curtia seu sono profundo, provavelmente sonhando com a sua reeleição ?

04 de dezembro de 2004.

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