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Contos-->A Espiritualidade de Dona Gertrudes -- 11/09/2004 - 17:30 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A sogra era esotérica ao extremo. Duendes sobre os móveis, mantinha a casa protegida com abundantes feitiços e sal grosso. O espelho, posicionado em frente à porta principal, possuía a função de repelir qualquer negatividade ameaçadora. O telefone costumava testemunhar o misticismo: "- Dona Gertrudes... Meu marido chegou com perfume de mulher. O que eu devo fazer?". A guru recorria à simpatia da revista, aquela que lhe atraíra a atenção pela matéria referente às pedras da fortuna. Aconselhava então a consulta de tarô, agendada para daí a dois ou três dias. A necessidade da espiritualidade era o seu lema. Segundo ela, o homem incrédulo estaria sujeito ao infortúnio e à enfermidade.

Justamente aí entrava em cena o maldito genro, concretizado como exemplo vivo do castigo divino: o recém-aposentado Heitor Furtado. Militar reformado - diziam alguns - havia presenciado torturas a militantes políticos. Algo mal digerido avolumara-se nele com o passar do tempo, subtraindo-lhe o sossego. Só a bebida escamoteava a sensação de infelicidade que lhe embotava o peito e a razão. Heitor não suportava a sogra. Alegava que, inconveniente e oportunista, intrometia-se demais na vida do casal. Jamais permitira que morasse com eles. E Dona Gertrudes ressentia-se com isso, pois estava em maus lençóis devido à sua parca aposentadoria. Empenhava-se em demonstrar à vizinhança do genro o quanto ele era grosseiro e avesso à religiosidade.

Certo dia, Furtado recebeu um ultimato da esposa. Que procurasse um especialista ou recorreria a um advogado. À noite, quando regressasse, conversariam...A ansiedade de Heitor avançou com a tarde e resultou na ida ao bar. Devido às costumeiras reuniões de trabalho da mulher, certamente ainda retornaria antes dela.

Mais tarde, já em casa, sentiu-se descontroladamente transtornado. Dirigiu-se então ao quarto, abriu a porta do armário e apontou para a cabeça a arma retirada da prateleira superior...Chorava como uma criança, angústia de doente terminal que não mais enxerga futuro em manhãs ensolaradas com vôos rasantes de pássaros coloridos. A antiga empregada, atraída pelo barulho, pôs-se a gritar. Implorou que pensasse nos filhos... Não!... Que ele não fizesse isso!...Que pensasse em Deus!...Como ficaria aquele lar abandonado para sempre pelo pai?

Após muita insistência, os soluços do homem evoluiram para gritos descomunais. Roucos de início, avançaram livres pelo espaço opressor e, exaustos, desembocaram num choro quase silencioso. "- Chore, Seu Heitor! Vai lhe fazer bem...". Já imóvel e deitado em posição fetal, a moça apressou-se em telefonar para a patroa, mas o celular estava desligado. Aflita, resolveu recorrer à Dona Gertrudes que, embora explicitada a necessidade do rápido retorno ao quarto, reclamou por mais detalhes. Feito isso, desta vez foi a sogra a desesperar-se, os gritos dilacerantes recheados por conteúdo acusador:

"- Zefa!...Eu não acredito...Você impediu que ele se matasse?...Pois cometeu um enorme pecado!...Já ouviu falar em livre arbítrio? Ninguém tem o direito de..."

Interrompeu a ligação e chorou convulsivamente!...Pela pensão que a filha receberia com a morte do marido militar, pela casa que finalmente poderia tê-la acolhido e pela falta de espiritualidade que se espalha, crescente e impiedosa, por esse mundo afora...







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