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Contos-->Deserção -- 08/05/2004 - 23:08 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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Há muito perdera a jovialidade. Atribuía o fato às coxas e seios mais flácidos, molduras de uma barriguinha saliente. As pessoas de sua relação, espectadores mais generalistas, desprezavam as partes. Tomavam como totalidade o seu olhar desesperado, que transportava numa bruma o medo de envelhecer.

Esguia e provocante, Bárbara sempre levitara sobre a cobiça masculina. Julgava-se demasiadamente independente, posto que sua insistência havia sido precocemente premiada com a alforria concedida pelos pais. A pretexto de estudar, migrou para São Paulo e desde então passou a preocupar-se com os ângulos, luminárias e penumbras do quarto, que melhor revelassem a sua nudez.

Pais abastados, o resultado financeiro de sua profissão, alicerçada mais adiante, direcionou-se às cirurgias plásticas e cuidados que lhe realçassem a beleza. A sua vida havia culminado exatamente no objeto de sua devoção: uma dadivosa prática de conquista e prazer. Os homens e o mundo, famintos por alegoria, justificavam os cursos de sexo tântrico e os banhos de loja desmedidos.

Os casados eram bem-vindos. Discretos, não ameaçavam a mobilidade dos finais-de-semana e faziam-na sentir-se preferida. Apreciavam o seu perfume, a risada descomprometida e a soltura na cama, os seus corpos sendo sorvidos e mordiscados por uma mulher despudoradamente excitante. Mesmo o alerta para que não usasse batom era algo estimulante, ela feliz pela cumplicidade que reduzia à condição de filial cada uma das matrizes incompetentes e enganadas. Talvez fosse esse o seu maior prazer, o diferencial que lhe conferia diferenciação e maior valor.

Alguns dos amantes perderam-se nesse jogo, olhares longínquos capturados pelas esposas. Num país recém-distante, aqueciam o gozar de ontem e o orgulho por despertar libido naquela mulher sensual e inatingível. O tempo, no entanto, passou veloz. Gradativamente, ela percebeu que os homens vinham se desviando dos seus sensuais artifícios de conquista. Os esforços foram então direcionados para a reconstrução do que o tempo vergastara. Daí surgiu, conforme citei inicialmente, o olhar desesperado pelo qual passou a ser distinguida.

Dos contatos, poucos resistiram. Uns saíram de seu alcance em razão de mudança, outros adoeceram e não poucos com ela se incompatibilizaram. Restaram apenas algumas amigas, de casamento convencionalmente estabelecido ou enviuvadas. Uma delas, justamente aquela cuja opção de vida mais se contrastara a sua, transformara-se em referência social. O casal não se importava que Bárbara os acompanhasse ao teatro ou coisas afins. As saídas das duas mulheres passaram a liberar Alfredo para as tardes de sábado livres, propícias à reativação do time de futebol dos ex-alunos da faculdade.

O modesto orgulho de Sandra agora germinava. Possuía um companheiro e com ele o sucesso de uma vida amorosa e amparada. Em que redundaria uma prática libertina e frívola? No prenúncio de uma velhice amarga e solitária? Melhor assim: a coroação através de uma relação sincera e gratificante, os cuidados do marido perpetuando-se pela vida afora...

Bárbara, é claro, ensaiou alguns passos dirigidos à libido de Alfredo. Na última investida, veio a decepcionar-se, pois ele não atinou o fogo que nela ardia. Enxergou ali apenas uma mulher carente, desesperada por companhia. Em decorrência disso, foi nela que a inveja corroeu dessa vez. Planejou algumas correções cirúrgicas e finalmente conseguia pegar no sono. Com onírica sorte, teve a sensação de uma barba mal-feita irritando-lhe a pele do rosto, as mãos fortes acariciando-lhe a virilha e avançando.

Expressão transtornada, certo dia Sandra pediu para pernoitar na casa da amiga. Exigiu, no entanto, a ausência de quaisquer tipos de questionamento. A luz do quarto de hóspedes permaneceu acesa pelo avançar da madrugada. Pela manhã, rejeitou o café e partiu, aflita e silenciosa. O que teria acontecido?

O segredo não se manteve por muitos dias, pois a angústia de Sandra não permitiu. Revelou-se o inadmissível: havia encontrado o marido na cama com outro. Nunca havia imaginado que uma amizade de longa data lhe propiciaria esse desgosto. A essa revelação, a confidente respondeu com íntima satisfação: "- Ainda bem que não me casei!". O remorso, porém, abordou-a no elevador, a imagem refletida no espelho iluminado.

O casamento, é necessário que aqui se registre, acabou por ali. A amiga reforçou-lhe o empenho para afastar-se daquela "nojeira" e passaram a um ritual mais equilibrado em termos de visitas mútuas. As longas queixas engasgavam apenas num detalhe: por que as duas na mesma situação, quando haviam perseguido posturas afetivas tão distantes?

Os dias precipitaram-se numa escada decrescente. Tentaram reagir através de mobilizações frustradas, no anseio do par perfeito a única esperança de emergirem da solidão. As opções turísticas prometiam diferenças, mas o retorno reconduzia à realidade. Na última delas, no entanto, numa pousada da serra, o frio aproximou-as meio a risadas e exagero nos vinhos. Bárbara afagou a nuca de Sandra, as línguas projetaram-se com volúpia e os toques sucederam-se afoitos. Dormiram nuas e abraçadas, Sandra absorvendo do corpo da amiga todos os homens que por ali haviam passado, em detrimento de sua monogamia assumida. A outra, por sua vez, habituada na juventude a aproximar-se dos parceiros para farejar as mulheres que estes encerravam em seus castelos, finalmente fez por concretizar uma delas. Constatou, pela manhã, a metamorfose do olhar, mas desconsiderou que a loucura é um tênue fio de cabelo que invade a alma. Chegou a atribuir-se uma supremacia fatal, pois finalmente havia conseguido vingar-se das deserções de todos os homens que um dia havia possuído.




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