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Contos-->Neuron e o Peixe Amarelo -- 06/05/2004 - 14:48 (Antonio Perdizes) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
NEURON E O PEIXE AMARELO

Finalmente Neuron chegou à casa do Grande Mestre Deusdão. Ficava numa pequena elevação, de onde se podia avistar toda a extensão da magnífica praia em forma de enseada, com areias brancas e um mar de um verde azul-escuro despejando pequenas ondas, que faziam um leve movimento de ir e vir sobre a areia. Uma brisa constante refrigerava a casa. Não havia cerca ao redor e por uma trilha, no meio dos coqueirais, se chegava diretamente à ampla varanda, onde estavam estendidas redes e uma mesa posta para o almoço.
Ele alcançou a varanda e, era tal seu estado, depois da grande viagem, que nem percebia a beleza da paradisíaca praia do Nordeste. Seus pensamentos estavam limitados ao encontro com o Grande Mestre.
Um ancião levantou-se preguiçosamente da rede. Vestia um bermudão velho e colorido com uma camiseta sem mangas. Neuron parou à sua frente e baixou o olhar. Não foi preciso dizer nem uma palavra para que o Grande Mestre compreendesse a razão de ele estar ali. Olhando direta e profundamente, via todo o sofrimento estampado e a profundidade da ferida. Fez um gesto de aquiescência, ordenando:
- Fale!
Então, Neuron foi relatando todos os desatinos da sua vida. Apesar de toda a paciência, Deusdão já estava cansado de tanto ouvir, mas permaneceu impassível. Afinal, era esta uma de suas funções: ouvir o desabafar das pessoas que acreditavam ser ele a última esperança e deixavam para visitá-lo, quando não tinham mais a quem recorrer.
- Meu filho, tudo o que relataste transparece em ti e agora que estás mais calmo, o que queres de mim?
Neuron hesitou, pensou em pedir a cura para isso, mas não era uma doença dessas que as pessoas contraem através de um vírus ou padecem pelo mau funcionamento de um órgão.
- Quero mudar minha vida, sentir a felicidade e a paz de espírito que nunca tive.
- Então vamos começar, te senta à mesa para fazer esta refeição.
Deusdão se virou lentamente apontando para a mesa servida com grandes patolas de caranguejo, camarões, filé de agulha frita com molho rosé, e uma salada de maionese de lagosta. Tudo decorado com rodelas de abacaxi paraibano e, no balde com gelo, estava ela: a número “1”, geladíssima. Sua boca salivou. Da mesa levantou o olhar para Marinalva, a sorridente serva e tudo o mais, que estava postada ao lado da mesa, vestida com um shorte e uma mini blusa que deixava à mostra o contorno dos seios e a barriga de pele morena cor de jambo. Uma combinação perfeita para aquele quadro. Marinalva fez com um sorriso um gesto, convidando-os para sentarem à mesa.
Neuron, aliviado, comeu sem parar e, à medida que ia devorando as iguarias, seu ânimo foi serenando. Ao término da generosa refeição, Deusdão ordenou que ele combinasse uma pescaria com Benedito.
Neuron nunca pescara um peixe em toda a sua vida. Não entendeu o porquê da pescaria e qual a relação com os seus problemas. Obedeceu ao Mestre e foi ter com o pescador. Acertaram tudo para a manhã do dia seguinte. Depois, foi descansar na rede da varanda da casa e adormeceu profundamente. Acordou revigorado pela manhã.
Deusdão havia partido para uma caminhada pela praia. Serviu-se do café, posto na mesma mesa do almoço do dia anterior. Marinalva acompanhava tudo, ali ao lado da mesa, pronta para servir com aquele mesmo sorriso tranqüilo.

O pequeno barco navegava contra o vento sudoeste, e as marolas provocavam respingos ao baterem contra o casco, lançando uma chuva fina que molhava o convés. Procurou abrigo junto à cabine, onde Benedito conduzia o barco com o olhar distante e sereno.
- Aonde vamos? perguntou.
- Para lá. Benedito apontou um ponto vago e distante na imensidão do mar.
Para ele tudo era igual, não via diferença entre um ponto e outro. Já estavam navegando há mais de duas horas naquela mesmice. A terra já havia desaparecido de vista atrás de si, e o mar ficara bem calmo. Benedito, um homem de meia idade, pele morena sem brilho e castigada pelo sol, não dizia uma palavra. Respondia uma ou outra pergunta com um monossílabo. Então, desistiu de falar com ele.
Foi sentar no convés defronte à cabine. O tempo passava. Estava cansado de tanto mar, quando estranhas e escuras nuvens se formaram, e o mar começou a despertar, com ondas cada vez maiores. Olhou para Benedito que permanecia impassível atrás do leme com a mesma cara tranqüila e distante. E, então, pensou: isto deve ser normal.
Olhou para frente e ficou paralisado de medo com a onda gigante que se formara. Primeiro, ela jogou a proa do barco para cima e, depois, o adornou. A borda do convés afundou na água. Neuron caiu ao mar e mergulhou fundo no turbilhão, ficando alguns segundos embaixo da água. Voltou à tona e ainda pôde ver o vulto do barco que se afastava. Gritou, enquanto agitava os braços, mas não obteve resposta. Procurou se manter na superfície, batendo levemente braços e pernas, à espera do barco. Benedito deveria fazer uma manobra e voltar para apanhá-lo.
Por algum tempo ficou assim, aguardando. O mar se acalmou rapidamente, olhou ao redor e só havia água: compreendeu que o barco não voltaria. Decidiu se desfazer das roupas e fazer o caminho de volta a nado, seguindo a direção do vento.
Estava completa e estranhamente calmo. A gravidade da situação não o abalara, estava feliz, sentia-se livre e sereno. Gostando de estar ali na água levemente fria, com a qual seu corpo nu havia se acostumado. Com braçadas leves e preguiçosas, num ritmo constante, sem pressa, começou a nadar.

Nadando... nadando... nadando.... respira....
O mar calmo formava longas vagas, que seu corpo acompanhava sem sentir. A cabeça ia aos poucos se esvaziando de todos os pensamentos. A freqüência da sua respiração se tornou lenta, intercalada pelas três vagarosas braçadas.

Nadando.... nadando... nadando.... respira....
Sua visão embaçou aos poucos. Foi perdendo lentamente a consciência da situação. Uma única coisa ainda se manifestava: a necessidade de sobreviver, que, num reflexo, o fazia nadar e respirar, sempre no mesmo ritmo.

Nadando... nadando.... nadando.... respira....
Depopis de meia hora, não sentia nenhum cansaço e nem consciência disto ou de qualquer outra coisa. O instinto fazia tudo. Sua mente estava liberada, com uma inconsciente separação do corpo, que continuava ali, nadando automaticamente.

Nadando.... nadando.... nadando... respira....
Vultos rondavam sua mente e foram se tornando mais nítidos.
O que estou fazendo aqui? Foi a pergunta que se fez, quando ele próprio surgiu, com seus três anos de idade, como a querer se incorporar ao seu corpo já adulto. A surpresa fez a imagem desaparecer, assustada pela intervenção. Neuron desejou que ela voltasse. Ficou curioso: não resistiria a ela.

Nadando.... nadando... nadando... respira...
- Mamãe? Cadê você? Tô com dodói, não consigo comer sopinha.
- Quero meu gagau de volta.
- Mamãe! Vem! não deixa eu sozinho! quero meu gagau. Mamãe tráz gagau... não quero sopinha. Aí... mamãe tá doendo... não consigo engoli. Cadê você???
- Mamãe!!! Mamãe!!! Eu quero mamãe...
A agonia da situação levou-o a chorar. Suas lágrimas, no entanto, não se faziam sentir, misturadas às águas do mar.

Nadando... nadando... nadando... respira....
E assim, foi revivendo os nós do passado. Nadando e se reencontrando com si mesmo. Cada situação, que aflorava do seu subconsciente, levava-o a uma enorme agonia para, depois, torná-lo mais leve.
Nadando e respirando fez o cérebro se abrir e pôde experimentar uma sensação de paz e harmonia jamais sentida antes. Nem com o álcool que o deixara na sarjeta da vida, fazendo com que perdesse a família, nem com as drogas, experimentadas uma após as outras até a mais potente, que o haviam deixado dependente, nem com o corpo das mulheres que tivera e o orgasmo que logo termina dando um distanciamento.
Nadando e respirando o colocaram frente a frente com o seu nascimento e o difícil parto, que quase lhe custara a vida. Fez ainda com que ele chegasse, pequenino e encolhido, ao útero de sua mãe. Tão pequenino que um grande peixe amarelo, surgido das águas calmas do oceano, o engoliu.
Nadar... respirar... a melhor coisa do mundo.

Antonio Perdizes


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- O Campinho
- O Psicopata Natural








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