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Contos-->A ESPIADA -- 07/03/2004 - 12:29 (Antonio Perdizes) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A ESPIADA

Joãozinho era o maior jogador de bolinhas de gude de todo o campinho, ou melhor, de toda a cidade. Ninguém podia com ele. Adversários de todos os lugares já o haviam procurado e saído de mãos vazias.
Possuía também a maior coleção de bolinhas, conseguidas nesses embates. Só aceitava jogar com adversários que colocassem em jogo as mais bonitas, as mais raras. Ninguém no campinho queria jogar contra ele, não tinha graça. Além de grande habilidade e força no pulso, contava com muita sorte. A bolinha sempre ia para onde ele queria. Então, de uns tempos para cá, não podia participar das brincadeiras, ninguém o aceitava, e passou a ser considerado um exibicionista. Interrompia o jogo dos outros para mostrar o quanto era “o bom”, colocava as bolinhas mais bonitas de sua coleção em diversas distâncias e posições, saía matando uma a uma, com precisão e rapidez fora do comum. Passou a ter aquele ar de superioridade e de mestre, difíceis de aturar.

Num certo dia, no meio de uma de suas exibições, foi interrompido por Geraldinho dizendo que queria uma partida contra ele, isso, se fosse colocado em jogo sua “olho de gato chinesa”. Era a mais bonita bolinha de gude da coleção de Joãozinho. Foi seu tio que a comprara em uma de suas viagens ao Rio de Janeiro. Vivia com ela no bolso, como se fosse sua bolinha da sorte, e não colocava em jogo com medo de lascar ou quebrar.
Geraldinho ofereceu em troca o seu “rojão”, sua melhor bolinha, mesmo bem inferior e de cor opaca. O exibicionista não pensou duas vezes, já que estava com muita vontade de jogar e aceitou o desafio. Ia ser fácil, Geraldinho era um jogador mediano, e considerava-se além do seu nível. Daria um show mais uma vez.

Mas, naquele dia, algo saiu errado: Geraldinho jogou como nunca e, para espanto de todos, ganhou a “olho de gato chinesa”. O perdedor pediu revanche, implorou, mas ele apanhou todas as bolinhas, colocou no bolso, e foi para casa.
Joãozinho ficou com a missão de recuperar sua “olho de gato chinesa”, custasse o que custasse. Todo o dia implorava uma revanche e, não tendo resultado, começou a oferecer algo em troca. Era todo o tipo de propostas, de carrinho de lomba a bola nova de futebol, tudo por apenas uma bolinha de gude. Geraldinho recusava todas. Se Joãozinho tivesse um irmão maior, com certeza a parada seria resolvida à força. Geraldinho era mais forte do que ele e pertencia à turma de Tedesco. Deste jeito, ele não tinha nenhuma chance. Até que um dia, fez a pergunta mais direta do mundo:

- E daí? O que afinal você quer em troca da minha bolinha?
- Quero dar uma espiada na Ana Clara, respondeu diretamente.
- Espiada na Ana Clara? Joãozinho não havia entendido a resposta.
- Sim, quando ela estiver tomando banho, esclareceu Geraldinho

Ana clara era sua irmã, tinha 11 anos e era muito bonita. Ainda outro dia, numa roda de conversas sobre meninas, alguém havia dito que os peitinhos dela já estavam nascendo, e era só olhar a ponta dos dois biquinhos aparecendo no vestido. O sangue lhe fervera na cabeça e ferveu novamente agora. A vontade era de esmurrá-lo, encher aquela cara de socos e pontapés. Teria feito isso se o atrevido não sumisse estrategicamente da sua frente.
Chegou à triste conclusão de que era melhor esquecer aquela bolinha. Afinal, poderia arrumar outra, pedindo para o tio comprar quando viajasse novamente, mas sabia que, igual, era impossível.

A semana passou lenta, cheia de conjeturas, de possibilidades e impossibilidades. Não procurara mais Geraldinho para parecer que não estava mais interessado, que aquilo era um assunto terminado, como se não quisesse mais aquela bolinha, nem sendo de ouro.
Mas a bolinha não lhe saia da cabeça. Pediu para o amigo Joca arrumar uma partida de gude com Geraldinho, como se fosse aquele o interessado, e recuperar para si a bolinha. Assim foi feito: Geraldinho, este aceitou jogar, mas não quis colocar a “olho de gato” no jogo, nem contra outras “olhos de gato”, que Joãozinho fornecera ao amigo.
Então, começou a lhe ocorrer a possibilidade de aceitar a proposta de Geraldinho, afinal, uma olhadinha, não ia fazer mal algum a Clarinha. Seria através da janela, e ficariam separados por uma parede inteira. A irmã não ia ficar sabendo de nada. Poderia contrapor que só aceitaria aquilo, se ficasse entre os dois e mais ninguém.

Quarta-feira, depois do colégio, lá estavam os dois conversando e acertando os detalhes. Na quinta-feira, às cinco horas da tarde, estavam fingindo uma brincadeira no pátio dos fundos da casa de Joãozinho. O banheiro, que ficava no fundo da casa, dava para esse pátio. Tinha uma janela basculante com vidros foscos e duas ventarolas. Era através delas, que estariam abertas, que Geraldinho olharia para Clarinha.
A mãe dele passou pelo pátio, viu os dois ali, brincando e conversando, e não desconfiou de nada. Eles ficaram paralisados de medo, mas agora teriam que seguir adiante.
Arrumaram a escada para poder alcançar a altura da janela, de quase três metros acima do chão, e ficaram discutindo. Joãozinho queria a bolinha já, o outro só queria entregar depois, enquanto isso, ela ficaria guardada no bolso. Joãozinho quis ver a bolinha, Geraldinho mostrou só na sua mão. Foi aí, que ouviram o barulho no banheiro. Geraldinho saiu correndo, subiu a escada carregando a bolinha na mão e, quando olhou pela ventarola aberta, Clarinha já havia fechado a cortina de plástico do box do chuveiro. Não pôde ver nada. Joãozinho balançava a escada, pedindo para ele descer, e ele fazia sinal e, sussurrando baixinho, dizia que não tinha visto nada, e que esperaria ela abrir a cortina.

Foram os 15 minutos mais longos de suas vidas, Geraldinho no alto da escada, pensava em desistir. Segurando-se, com uma mão, na janela e, com a outra, a “olho de gato”, às vezes, mostrava-a para Joãozinho, só para provocá-lo.
- Banho de mulher é demorado! repetia para si mesmo a cada 10 segundos.
Então, ouviu o barulho do chuveiro sendo fechado e colocou a cara na janela.
Clarinha foi abrindo a cortina devagar e, percebendo a sombra de um vulto na janela, olhou na direção da mesma. Ficou paralisada com aqueles olhos encarando os seus. Custou a entender o que estava acontecendo.
Geraldinho, quando viu aquele rosto lindo, com os cabelos longos, molhados e desalinhados, sobre o rosto de lábios carnudos, entreabertos pelo olhar de espanto de olhos grandes e profundos, tudo salpicado com pingos d´água, ficou com o olhar preso e paralisado. Nem olhou para o resto, permaneceu assim durante exatos e longos 6 segundos, até que Clarinha se recobrasse e desse um grito.

Antes de despencar da escada, soltou a bolinha da mão, que bateu na calçada de pedra e saiu quicando pelo chão. Joãozinho correu atrás, alcançou a bolinha e, quando a examinou, viu que ela havia sido lascada na queda contra a calçada. Agora não valia mais nada. Os olhos se encheram de lágrimas, olhou para o outro, e gritou:
- Seu porco safado! filho de puta! E saiu correndo em sua direção.
Geraldinho escorregou escada abaixo, ralou a bunda e os braços nos degraus da escada. No chão, nem teve tempo de se recuperar. Joãozinho foi para cima dele, batendo e socando seu rosto. Foi parcialmente salvo pela mãe, que depois de ver o que havia acontecido no banheiro, correu até o pátio para ver quem era o autor da façanha. Lá chegando, viu seu filho batendo no outro e o afastou. Achou que ele estava defendendo a honra da irmã. Depois, ergueu o intruso pelas orelhas, apontou o portão e o expulsou da casa.

Geraldinho só foi visto pelas ruas uma semana depois. Inventara para a mãe que foram uns meninos grandes, da rua de baixo que haviam lhe aplicado uma surra, agora, o estavam perseguindo. Uma grande mudança aconteceu em sua vida: só saía de casa bem alinhado, usando calças vincadas e cinto de couro com fivela dourada, camisa limpa, com os botões fechados, enfiada para dentro das calças, sapatos com meias e cabelos penteados e fixados por um gel. Não brincava mais com ninguém, abandonou a turma. Seu passatempo passou a ser a leitura de livros. Estava aprendendo a jogar xadrez e só entrava nas conversas dos meninos maiores para falar de política, economia e outras besteiras. Dizia para todos que seria advogado.
Os seis segundos haviam mudado sua vida. Foi a armadilha da paixão instantânea, algo que acontece a poucos, e que tem efeito devastador, mesmo quando tão precoce. Quase todos os dias, durante um bom tempo, colocava-se no caminho de Clarinha. Ela nunca lhe dirigiu um olhar, nada que pudesse dar uma chance de aproximação e fora a grande paixão de sua vida. Ainda adulto queria saber dela. Suas relações com outras mulheres nunca deram certo, e nem a carreira de advogado.
O que o salvou foi o casamento com Renata, filha única de um grande industrial, que lhe deu um lugar de diretor em uma de suas empresas. Apesar de esconder, sempre guardou com carinho e nostalgia uma foto de Clarinha.

Antonio Perdizes

Este conto faz parte das histórias do Campinho.
Leia “O Campinho” e "O Psicopata Natural"







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