É certo que toda cidade - grande ou pequena - tem sua praça dedicada exclusivamente à queles que desejam apenas ficar taciturno com seus pensamentos.
Sozinhos em grupos; sozinhos mesmos; sozinhos consigo mesmo... enfim, simplesmente sozinhos de tudo e de todos, muitos mexem e remexem nos seus sismares ou passam a observar coisas, digamos, hilárias, sem significados, como os pés.
Hora causticante do verão nordestino, nada como uma boa e frondosa sombra de oiti para olhar o chão e imaginar para onde vão tantos pés. Isso mesmo: pés humanos.
Pés cansados de vadiar de um lado para o outro - sem destino - apenas vagam sem direção; pés apressados - o patrão não quer saber o que os atrasaram - têm que chegar logo no cartão de ponto ou na presença do gerente; pés alucinados, trópegos - as drogas consomem cada ramo do neurónio - sabem apenas que devem caminhar.
São tantos os pés que não dá para muito imaginar. Pés descalços - a crise e a miséria os fazem sempre ficar assim - esses são os mais envergonhados, acanhados na frente de tantos outros pés: pés bonitos, pintados, maquiados, cintilantes... finos e delicados - esses amigos das pedicures; pés achatados de tanto peso; pés cansados, fatigados de uma vida dura e cruel; pés educados - esses gostam de andar enfilileirado.
Pés enrrugados com o peso dos anos; pés sujos de pensamentos e ações; pés dissimulados, guardados em cromo alemão, cobertura conseguida com a miséria dos outros (mais o que tem isso a ver com o testo?); pés esnobes; pés bonachões.
Pés... Pés... Para aonde irão???