Se eu pudesse voltar na vida, ia ser boiadeiro. Não gosto de andar a cavalo, da vida no campo, de fazenda, ar puro, leite de vaca tirado na hora, mas ia ser boiadeiro, porque ele não faz nada disso. O boiadeiro não é esse que está no imaginário de todo mundo. Esse é o vaqueiro, como aliás é chamado também nos Estados Unidos aquele que lida com o gado. É caubói, alusivo a vaca. Ou peão de boiadeiro, como se chama aqui o que cuida do gado. Que toca boiada, laça boi, vacina, aparta a vacada da bezerrada e por aí vai. Boiadeiro, não.
Boiadeiro é urbano, mora na cidade. Não usa roupa de lida, é botina ou sapato em vez de bota. Mas usa chapéu, e dos bonitos. Não anda a cavalo, tem jipe, fusca, ou camionete quando enrica. E boiadeiro não tem fazenda. Sabe tudo de boi, mas não põe a mão neles, é negociante. Sabe dos bois de todo mundo na sua cidade e nas vizinhas. Conhece os donos pelos seus bois. Boiadeiro é formador de boiada, como eu, jornalista, sou de opinião. Temos isso em comum. E também formamos os filhos, os de boiadeiro estudam na cidade e são amigos dos filhos dos outros, e como eles também se formam.
Eu gostava muito da filha de um boiadeiro. Era minha colega de ginásio, boa aluna, bonita, educada e escrevia muito bem. Mas falava meu pai tem mais de cem boi. Tem isso. Boi não tem plural prá ninguém, um boi, dois boi, os boi, as boiada. Fui fazer colegial em São Paulo, e ela em Rio Preto, como toda filha de boiadeiro, naquela época. Nunca mais vi.
A vida deles é muito legal. Acordam antes das cinco da manhã, e vão pro ponto, conversar de boi, prá depois ir ver os boi, se for o caso. Não é todo dia que tem boi pra ver, só quando vai dar negócio. E aí eles vão lá prá ver como os boi está, porque geralmente eles os conhecem desde que eram bezerros. É comum conhecerem até as mães dos boi.
Ninguém engana um boiadeiro. Chegam na fazenda, os peões trazem um monte de boi, eles escolhem - apartam- uma parte, e negociam o preço para fechar o negócio. Feito isso, todos os boi, inclusive os escolhidos para a compra voltam - vorta tudo - para o pasto, levados pelos peões. Em outro dia eles vem buscar o que foi comprado, e em hipótese alguma os bois são trocados. Eles conhecem. Pela cara, mais essa, boi é reconhecido pela cara. E tem mais uma, o preço é negociado pelo peso. O boiadeiro olha o que separou e diz o peso do lote que formou, que será conferido no frigorífico. Não erram.
A vida deles, quase o tempo todo na cidade, é muito gostosa. Na hora do aperitivo do almoço, frequentam os cafés dos doutores e dos ricos, porque boiadeiro sempre negocia casas, terrenos e outros bens, que recebem em pagamentos. São bons de prosa, como todos os outros interioranos.
Eu gostava muito de ficar no meio deles. Um dia, numa roda, tava um contando pro outro sobre o filme que os dois, aliás todos da roda, haviam assistido no cinema da cidade. É comum no interior contar as mesmas histórias várias vezes entre as mesmas pessoas, e todo mundo escuta, "apreciando" o estilo já conhecido de cada um, outra vez, e sempre. Mas dessa vez a prosa era mais animada, porque era um filme assistido na véspera. Quando ele acabou de contar, o amigo disse: olha, desse jeito que você entendeu o filme, ficou muito bom!