Te libertei de mim. De todas as lembranças que guardou até aqui. De todos os momentos que eternizou na memória. De todos os fantasmas que carregou contigo por anos a fora. És livre agora! Nesse instante, deixo de ser a amada. Começa a ver-me de forma real. O amor ideal que até então resistiu ao tempo, ao vento, começa a desaparecer nas minhas palavras, no meu relato, nos meus medos e fracassos narrados e confessos a ti.
Por onde estive, por onde andei, por caminhos nada tão dignos da heroína do romance que escrevera pra mim. Protagonista da sua história, tão linda e perfeita, de um sentimento quase platónico. Narrado em versos poéticos, rimados, cadenciados, como deve ser todas as histórias verdadeiras de amor.
Temos a necessidade de guardar um amor perfeito. Feito exatamente pra se guardar na memória. Um sentimento forte, intenso, quase sempre não vivenciado por muito tempo. Mas que resiste a tudo, dentro de nós. Como se não tivéssemos vivido em vão. Como se essa paixão pudesse te alimentar por toda a vida.
As grandes histórias de amor, geralmente são tristes e mal acabadas. Pois foram interrompidas antes que pudessem cair todas as máscaras. Ficaram cristalizadas. Perfeitamente intactas as erosões e aos desgastes do dia a dia. É um amor que enlouquece, por ser totalmente mantido fora da realidade. E enaltece o objeto amado a cada instante, como por um encantamento.
Uma visão crítica, pessimista, diriam os leitores. Não exatamente. Apenas uma análise dos amores imortais. Que sobrevivem ao tempo, por desconhecer o verdadeiro amado, a verdadeira amada, como um ser não tão perfeito, não tão sincero, não tão maravilhosamente digno do seu amor inventado.
Te libertei de mim, como que não querendo fazê-lo. Não é fácil mostrar-me agora. Nem tão bela, nem tão maravilhosa. Mas sou eu. O que é verdade ou mentira cabe agora descobrir. Ou se preferir, continue com a fotografia, que embora não consiga tocar, te satisfaz aos olhos, numa imagem congelada, mas perfeita de mim.