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Poesias-->Não Escrevo Dodecassílabos -- 05/09/2003 - 16:09 (Roberto Ponciano Gomes de Souza Júnior) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Não Escrevo Dodecassílabos



Não, eu não escrevo dodecassílabos.

Sei que sou um péssimo poeta por isto.

Minha poesia é uma lástima.

A lástima dos meninos toupeiras

Que morrem feito moscas, como os pulmões transformados em pedra

Do inferno das minas peruanas, chilenas, colombianas, brasileiras.



Minha poesia não tem técnica.

É pura e frágil revolta e emoção.

Uma reles fotografia em branco e preto

De uma menina que vende chiclete aos seis anos

Para sustentar uma miserável mãe sem trabalho.

Aos dez será estuprada por um de seus muitos padrastos

E aos doze já será prostituta.



Minha poesia realmente não venceria qualquer crítica

Posto que é apenas uma pichação

Que aponta para mais um corpo esfacelado na esquina

Um menino exterminado

Por estar perdido em sua existência

Cheirando cola aos cinco anos,

Cocaína aos seis,

Roubando aos sete, fazendo “avião” para um traficante aos dez

E sendo morto por este por uma dívida de cinco reais.



Não sei dos grandes críticos estruturalistas, pós-realistas, surrealistas, modernistas, niilistas,

Pós pós pós tantos “istas”
..

Realmente, não sou iniciados nestes mistérios,

Os grandes segredos trazidos da Europa e do Estados Unidos.

Jamais escreverei para ganhar prêmios ou iludir catedráticos.

Meus versos são mensagens francas

Feitas para que até os analfabetos possam entender

Este novo sermão social.

É uma boa-nova dada à esta massa perdida

Seviciada diariamente pela televisão que nos transformou

Nestes capatazes assassinos de nossa própria sensibilidade e inteligência.

Uma massa denominada povo, que é cada vez mais alienada de sua própria essência

Ao transformar o próximo num inimigo

Quando na verdade um outro homem é nossa continuação,

Como águas de um mesmo grande oceano

Cada um uma gota enlouquecida que pensa

Poder existir fora deste imenso caudal humano.



Sim, sou este vate louco, que prega palavras ao ar.

Pobre profeta de gente pobre

Que apenas quer abrir olhos e estreitar laços.



Livrar o homem desta dupla prisão.

Uma, a da miséria generalizada, que nos entrega a uma situação

De animais em espetáculo de angustiosa degeneração.

A outra, a da prisão dourada de uma minoria

Que solidifica seu coração em ouro

Ricos, minoria trancada em sua vida de luxos,

Esquálidas imitações macaqueadas

De glacial gente estrangeira distante

Que sequer pisca os olhos para este espetáculo mímico de bajulação à Europa e EUA.

Pessoas abstraídas da vida, trancadas, retiradas do leito da cidade, da vida, da realidade.



Não, meus versos não são dodecassílabos,

Nem brancos e nem livres.

Um poeta preso pela Ditadura da Imagem Única

Não pode querer que suas palavras sejam impunes

E voem distantes quando a Terra é uma prisão.

São versos marcados, profundos, tão negros quanto a cor de nossa gente brasileira.

Pintada de louro até o último pentelho do cu.

Nas telas preconceituosas do gênio televisor.

São poemas exilados como nós, mesmo que em nossa própria terra.

Proibidos de ter paz, de amar, de andar impunemente, de ter futuro

De ter ternura,

Proibidos de ter esperança,

Já que só é lícito hoje um sonho,

O sonho de consumo...



Realmente sou um analfabeto técnico.

E sinceramente espero que os críticos se divirtam com os seus dodecassílabos

E preparem novos, especialíssimos prêmios

Em grandes noites de gala.

Estarei com meus versos, negros pobres

Na senzala da favela, dos sem-trabalho e sem destino

Semeando o único prêmio que quero

O de recriar o futuro

Que nascerá deste poema coletivo

De amor, trabalho, pão, terra, dignidade, fraternidade, pátria, solidariedade,

Escrita anônima entregue para que o mar a espalhe

Como um grito internacional de liberdade

Como um gesto de negativa ao tédio e a imitação.

Como uma construção inédita gerada do ventre da coletividade.



Para que novamente sejamos irmãos,

E a mulher a companheira igual, amante infinita

De noites de gozo e dias de labuta.

E que a vitória seja de uma vez para sempre

E consigamos banir a desigualdade,

Por ser ela a maldita criadora do caos e do desencontro.



É uma pena,

Mas realmente,

Não sei escrever um dodecassílabo..
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