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Poesias-->Fogo-fátuo -- 07/07/2002 - 19:05 (Darques Lunelli) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
FOGO-FÁTUO



Porque a alma não pode estar possuída da união divina

enquanto não renuncia ao amor das coisas criadas.

SÃO JOÃO DA CRUZ



I



Repousa enfim a rosa do teu pranto

nuns olhos meus de 1980

o lento repuxo das ondas do mar que avistei seis anos depois

por acaso eram as mesmas daquele anos de esperanças tolas

as mesmas vistas nos sonhos, indo e vindo, feitas da mesma matéria dos sonhos.;

olhos meus de 1980, longínquo pranto unido ao teu

agora que março principia e os dias com maior rapidez se vão

o mês de março das águas, dos túneis, das folhas que secam e tombam

de uma chuva imprevista que morre na vidraça deste meu quarto.;

repousa teu pranto nuns ombros meus

agora envelhecidos seis anos depois de seis invernos rigorosos e apenas uma primavera

deixa que acolha em minhas mãos as pétalas do teu pranto antes que cheguem agosto e os cães

antes de setembro e suas virgens dissimuladas

antes que estanque a força da chuva e os vidros secos e sujos tornem-se mais tristes e desolados

que estes teus olhos de 1986.



II



Sábado à tarde é como um vaso de margaridas onde se lança meu desejo aprisionado

é como cada uma das nervuras das folhas vivas

como o feixe de músculos do peito de Emílio no frescor da juventude

e ainda talvez

ouvido atento aos súbitos sons

que principiam longe e acabam morrendo dentro de mim

como assobiar o Bolero de Ravel na solitária cela do meu quarto.



III



Rompe as cadeias e descortina o desejo

um tal Roberto que adivinho sorrindo no Arpoador, em Ipanema

onde as garotas e os garotos são mariposas que voam perdidas

e espetam-se involuntárias no tridente dourado de Netuno

e em vão batem as asas cansadas no último estertor quando se esvai a vida que jamais existiu.;

mas esse tal Roberto rompe as cadeias sorrindo

e aventura-se no mar do sol e na areia de Ipanema

e descortina o anseio do desejo e do amor que se esconde e sabe-se nas patas do centauro

abre o peito corajoso e abriga a seta incendiária que o centauro lança como um beijo

e sorri, esse Roberto, enternecido.





IV



Murmura a chuva nos ouvidos

do que procura rimas que não existem

desce pela calhas e perde-se entre as pedras pontiagudas da calçada

e morre num rio imaginário que existiu em 1980.

Por que um ano pode ser assim tão importante

e lançar-se com tanto desespero das escuras celas da memória?

Por que uns olhos meus de 1980

insistem em reviver agora que o rio do tempo tantas coisas trouxe e levou embora

um tempo que se perdeu?

In my beginning is my end. In my end is my beginning.

Uns olhos meus de 1986 quedam-se tristes

noutros tristes olhos de 1980.



V



Presta atenção agora que Maximiliano entrou

ao garçom pede cerveja, coça a grisalha barba

e repousa as mãos na mesa gordurosa.

Esse Maximiliano de olhos tristes e cansados

cabelos brancos como as ondas daquele mar de seis anos depois

esse Maximiliano que não viu os olhos de 1980

nem conheceu o pranto sem repouso

sequer ouviu Ravel na tarde chuvosa de sábado

sorri, esse Maximiliano, sorri temeroso

e só o que podes fazer é sorrir com teus olhos de 1986

e esperar que teu olhar na seta do centauro se transforme

antes de encontrar abrigo nos olhos tristes e cansados desse Maximiliano que sorri temeroso.



VI



Agora sim,

repousa a rosa do teu pranto

nestes esperançosos olhos meus de 1986.

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