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Poesias-->Silêncio -- 10/06/2002 - 19:06 (Lucas Tenório) |
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Em silêncio são ditos os nomes
e os sobrenomes são malditos.
Em silêncio tudo some: o muro,
a casa, a sala, o edifício.
Em silêncio os versos conspiram
contra os poetas e muitas
portas são abertas ao medo
e à insegurança.
Em silêncio a nuança do apelo
se faz mais viva e colorida.
Em silêncio se concebe a vida
e silentes morrem os desgraçados.
Em silêncio fatos são narrados
à consciência pusilânime dos omissos.
Em silêncio correm-se os riscos,
projetam-se os circuitos e as torres do
pensamento.
Em silêncio a trama dos versos
é gerada e a fachada do poema
terminada.
Em silêncio são ditos os adeuses
às cabeças decapitadas,
conclamados os deuses onipresentes
em seus rituais.
Em silêncio os ausentes choram,
proferem-se os ais, e tantos outros
inocentes desaparecem,
tanto quanto imploram por mais um
dia.
Em silêncio há a tirania, a espada
afiada que degola a cabeça
desvairada.
Em silêncio contam-se as melhores
piadas, e jogam-se das sacadas
os aflitos.
Em silêncio fica o dito pelo
não dito, ouvem-se os gritos,
levantam-se os gestos hirtos
e o verbo mais pungente.
Em silêncio muita gente chora, e grita,
e esconjura os hinos de prosperidade.
Em silêncio transitam as juras,
as verdades que pelas bocas escoam
só como babas.
Em silêncio as babás amaldiçoam
suas crianças e são feitas as matanças
dos elefantes, das baleias, dos gorilas.
Em silêncio esperam na fila os
deserdados deste mundo, desacordados.
Em silêncio a lua cheia assombra
a alma dos descrentes, a dos desalmados.
Em silêncio nada se diz, nada se
proclama, há a isenção da culpa,
do engano, do erro, do pecado.
Em silêncio caminham lado a lado
pai e filho, até o horizonte
de uma bela cidade.
Em silêncio a realidade desvanece
e os fantasmas aparecem para
assustar os pequeninos.
Em silêncio pretende-se terminar
o verso e entender o universo,
e a mente de Deus.
Em silêncio não há morfina,
sente-se a dor,
escorre o suor,
procura-se a cura.
Em silêncio o franco atirador
abate sua vítima, eficaz,
dura e friamente.
Em silêncio, e disciplinadamente,
morremos, dia-a-dia, depois de alguns anos
de existência.
E em silêncio termina uma
sanha, uma estrada, um atropelo,
uma engasgada, uma ferida,
um desmazelo, uma facada,
um novo apelo, o fio da
meada, uma ciência, o novelo da vida,
que insiste, coitada, em viver...
Em silêncio tudo se pretende.
mas tudo acaba, e de tudo se descrê.
E não há mais nada.
Em silêncio termina o medo do silêncio.
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