Ah! Que testemunho maravilhoso foi-me delegado, nessa tarde, transmitir àqueles que não tiveram a oportunidade de apreciar o astro-rei descerrando as cinzentas cortinas que encobriam o fundo azul do palco de seu solitário estrelato.
Senti-me jubiloso! Seus raios doirados cingiram-me a mais opulenta das coroas.
Pena que tudo tenha durado tão pouco. Logo cerravam-se novamente as cortinas, findando mais um ato glorioso no palco de nossas vidas.
Talvez, tenha sido em virtude dessa mesma circunstância que a maioria, sequer, tenha se apercebido da ação descrita acima de suas próprias cabeças e que, mesmo dentre uma atenta minoria, senão, poucos e privilegiados indivíduos tenham se dignado a interromper o curso de suas atividades para apreciarem por meros instantes toda a grandiosidade daquele momento.
Estou certo de que nem mesmo tu te apercebestes, empenhada em teus preparativos, desse breve período em que durou meu reinado...
Agora, basta-me! Pois, se detiver-me por mais tempo rememorando esse idílica lembrança, fatalmente, serei destronado, exilar-me-ão ou condenar-me-ão a apodrecer na masmorra solitária de meu próprio castelo ou, senão, tombarei ante um projétil certeiro, disparado por um súdito fanático oculto em meio à multidão.
Apressa-te, pois, com tua arrumação, porque a minha ida se fará ainda essa noite e não quero que me recebam nem trancas ou cadeados.
Acorrente o teu cão nos fundos de teu quintal para que, assim, tu não te alarmes quando eu chegar.
Deixe que a porta permaneça cerrada para que, assim, tu não te ressintas quando adentrar-me em tua morada.
Enceres teu assoalho.; lustres teus móveis, tua prataria e teus cristais.; retires o pó de teus quadros, de teus livros, de tuas estatuetas de mármore e de teus vasos de porcelana.; removes as máculas de teu cortinado, de teus tapetes, de tuas tolhas de mesa e de tuas roupas de cama.; arrancas o bolor incrustado nas paredes e no teto para que, assim, superfície alguma absorva luz e calor em demasia e eu possa atravessar de tua sala ao estreito corredor que conduz ao teu quarto sem que me atreva a tocar em algum interruptor, profanando, assim, a sublime expectativa de teu espectro silencioso, entre os umbrais da porta de teu quarto.
Permitir-me-á, então, que te envolva em meus braços e te aqueça, mas, não te assustes, se acaso, no fundo escuro de meus olhos, o sol também brilhar pra ti.