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Meu afilhado
Renato Ferraz
Sonhei que via nascer um poema
de uma forma inusitada.
Vi surgir ao redor uma fumaça de ideias.
Não se sabia da origem, mas cada vez passava uma nuvem de fumaça, depois vinha outra e mais outra. Iam passando lentamente. Em seu interior percebia-se o movimento aleatório de partículas que pulavam, animadas, como criança em parque de diversão, seu formato era de letras minúsculas. As vogais se destacavam.
Rajadas de raios, à medida que se tocavam, clareavam o pensamento. Era como se elas se divertissem, encostando umas nas outras e brincassem de empurra-empurra.
De repente vi aparecer um beija-flor,
que pairou, beijou uma folha e voou.
Saiu batendo asas, voando, parando, beijando e polinizando. Beijou várias folhas!
Ora demorava um pouco mais, ora parava um pouco.
Prosseguia, como faz um jardineiro, aguando as plantas, uma por uma.
Era bem cedo, o dia havia clareado há pouco,
o ambiente e o momento pareciam ser favoráveis, como é todo ato de nascer.
Na natureza todo nascimento é sagrado!
Surgiram mais nuvens de partículas em suspensão, agora eram palavras, umas apenas passavam, outras decantavam e algumas ficavam por ali flutuando lentamente, como se quisessem falar...
vi quando se formou o primeiro verso. Mas não consegui ler, naquele instante.
Em seguida, não demorou muito, já havia se formado mais de uma estrofe, quando comecei a ler, acordei e vim relatar o que se passara, antes que esquecesse, como de outras vezes.
Havia nascido um poema, eu não o li, mas o vi nascer, e antes de acordar pedi para seu padrinho ser, já que o pai não sou.
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