O Bug do Milênio
(o mundo não acabou, mas resolveu piorar)
Félix Maier
O ano de 2000 começou como começam os fins do mundo: com PowerPoint, atas, coffee break e uma convicção absoluta de que ninguém sabia exatamente do que estava falando. Chamava-se Bug do Milênio, um nome curto para um apocalipse longo, técnico e internacional. A profecia era clara: quando os computadores vissem o ano “00”, entenderiam “1900”, entrariam em pânico existencial e, como qualquer sistema nervoso mal programado, levariam tudo junto.
Aviões cairiam do céu como mangas maduras. Bancos esqueceriam quem devia a quem. Esgotos não tratados seriam liberados sem pudor — beberíamos merda líquida, como se fosse um novo isotônico. Mísseis nucleares, confusos com a data, poderiam ser lançados por engano, talvez para comemorar a virada do milênio. O Apocalipse Segundo Bill Gates.
No Ministério da Defesa, onde eu trabalhava, formou-se um Grupo de Trabalho — entidade mística que surge sempre que ninguém sabe o que fazer, mas alguém precisa parecer ocupado. Sentavam-se à mesa generais, coronéis e técnicos de informática. Os primeiros sabiam mandar, os segundos sabiam obedecer e os terceiros sabiam que nada daquilo fazia muito sentido.
— E se os radares pararem? — perguntou um general, franzindo o cenho como quem encara o fim da civilização.
— A gente reinicia — respondeu o técnico, com a serenidade de quem já tinha visto Windows travar coisa pior.
— Reinicia o quê? O país? — retrucou o general.
Fizeram-se planos de contingência. Simulações. Checklists. Alguém sugeriu imprimir tudo, por segurança. O papel, afinal, ainda não tinha bug. As empresas de TI faturaram como nunca. Atualizações, patches, consultorias, cursos, certificados, manuais em inglês traduzidos às pressas para português técnico — aquele idioma que ninguém entende, mas assina.
E então veio a noite de 31 de dezembro de 1999. O relógio correu. O mundo prendeu a respiração. O ano virou.
Nada.
Nenhum avião caiu. Nenhum míssil saiu por engano. O esgoto seguiu seu rumo habitual de purificação, que no Brasil já não era grande coisa. O bug, ao que tudo indicava, tinha sido vencido — ou nunca existira. O mundo não acabou. Mas algo, silenciosamente, começou a dar errado.
O terceiro milênio amanheceu com outro tipo de pane: a trilha sonora. Se o Bug do Milênio não derrubou sistemas informáticos, derrubou qualquer esperança de bom gosto. O funk espalhou-se pelas rádios e televisões como uma praga bíblica — daquelas que o Antigo Testamento teria vergonha de listar.
Um tapinha não dói atravessava paredes no Rio de Janeiro, numa casa vizinha à da minha sogra Zoé, durante uma noite inteira de férias de janeiro, em 2001. O volume não diminuía, o refrão não acabava, e a letra parecia escrita por alguém que tinha brigado feio com o dicionário.
— Isso é música? — perguntou dona Zoé, às três da manhã, com a dignidade de quem já sobreviveu à Segunda Guerra e a três planos econômicos.
— É o futuro — respondi, pessimista.
— Então o futuro devia pedir desculpas.
Na televisão, programas infantis ensinavam coreografias que sacrificavam joelhos e valorizavam lombares. É o Tchan, Equinha Pocotó, Dança do Créu em festas juninas de escolas de 1ª à 5ª Série. Mães incentivavam, orgulhosas, como se estivessem preparando pequenos atletas para as Olimpíadas do Rebolado. O folclore, que antes tinha boi-bumbá, balaio e fogueira, foi sendo substituído por garrafas plásticas e coreografias que fariam corar um estivador do porto de Santos em 1964.
Bailes se multiplicavam — em favelas, chácaras, ruas, clubes, iates, com muito pó branco. Tudo virou trenzinho. Tudo virou batida. Tudo virou excesso. O bug, afinal, não era tecnológico: era cultural.
Nas artes e na música, instalou-se o verdadeiro colapso sistêmico. Surgiram MCs tatuados, musculosos, adornados com correntes de ouro que fariam um navio mercante se sentir subequipado. Rapeavam platitudes sobre nada, com vento na cabeça e convicção no olhar, como se estivessem fundando uma nova Renascença — só que sem Leonardo, sem Michelangelo e sem vergonha.
Essa estética da gritaria, da pichação, da violência como marketing e da vulgaridade como virtude espalhou-se pelo mundo e foi rapidamente copiada no Paraíso do Vira-Bosta, onde tudo que é ruim chega rápido e tudo que é bom fica preso na alfândega.
O Brasil, que já teve Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Chico, Caetano, Elis, Milton, Gonzaga, virou um grande karaokê desafinado. O sertanejo universitário — que não é sertanejo nem universitário — passou a dominar tudo. Vozes agudas, sofridas, dramáticas, imitando Xororó e Zezé di Camargo como se fossem castrati modernos, castrados não pela arte, mas pelo algoritmo.
O Brasil, tão rico em música nos anos 1960 a 90, hoje é convidado a ouvir gritaria sertanojo, baixaria funk e lixo piseiro. Não mais em fitas K7, nem CDs, nem DVDs. Agora é streaming. O lixo, finalmente, ficou sustentável: reciclável, infinito, onipresente. Não apenas Veneza e Nova York estão afundando. O Brasil também submerge, lentamente, em sua própria indigência cultural.
— Isso é o sinal dos tempos? — perguntei a um amigo.
— Não. É só o gosto médio de um país ignorante.
Enquanto isso, um bug político se instalava com atualização automática. Em 2003, o Ogro de Nove Dedos ascendia ao poder, como se o país tivesse clicado em aceitar termos e condições sem ler nada. O sistema passou a travar moralmente, socialmente, economicamente. Corrupção virou rotina, escândalo virou ruído, indignação virou cansaço.
E então veio o telefone celular. A grande bênção se revelou também uma praga portátil. Uma bomba atômica de bolso. A juventude, agora, não tem tempo para livros — está ocupada demais masturbando a estrovenga tecnológica, rolando infinitamente, como hamsters digitais.
— Você já leu esse autor clássico? — perguntei a um amigo.
— Não, mas vi um resumo em 30 segundos.
O bug final talvez seja esse: uma humanidade que já não lê, não escuta, não espera — apenas desliza o dedo, convencida de que entender o mundo em meio minuto é sinal de progresso.
E antes que alguém diga que tudo começou agora, lembremos do Xou da Xuxa. Ilariê destronou cirandas, cantigas, músicas folclóricas. A infância passou a usar figurino, maquiagem, coreografia. Tudo muito colorido, tudo muito alegre, tudo muito cedo. A adultização não nasceu na internet. Só ganhou Wi-Fi.
Por isso causa espanto quando um influencer descobre hoje o que já acontece há décadas.
— Onde ele estava? — pergunto.
— Quem?
— O Felca.
— Em Plutão, talvez.
E como tudo que é ruim pode piorar, surge uma cena carnavalesca em que uma mulher adulta canta luxúria ao lado de uma criança em palco festivo, sob aplausos. É o caso de Ivete Sangalo, cantando Vampirinha: Vou te chupar, chupar teu pescoço, te chupar todin, chupar, chupar, chupar com gosto.
Depois de tanto tempo normalizando a imundície, ainda há quem pergunte se dá para criticar. Dá. Sempre dá. O bug mais perigoso é achar que não dá mais.
O Bug do Milênio não destruiu sistemas informáticos. Desorganizou valores. O mundo não acabou em 2000. Mas desde então parece rodar sem antivírus.
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