- Mãe?
- Amor?
- D. Vitória?
E eu? E eu? A quem grito? Eu também quero! Eu quero amor, eu quero sexo, eu quero status, mas quero a mim também! Tranqüila e serena, plena e satisfeita, amada e doce! Eu quero eu só mulher! Com meus dramas, meus sonhos, meu corpo e alma femininos, minhas palavras finas e lânguidas, minha sinuosidade, minha fraqueza e minhas forças, meu íntimo e minha pele!
- Mãe, fica de quatro?
E lá vou eu! Joelhos no chão, palmas no chão, upa, cavalinho! Upa, cavalinho!
- Relincha, mãe, relincha!
Suporto feito égua. Égua-mãe! De raça! Pois só MÃE tem raça! Visto que a dor é tanta, e tudo que quer é morrer! Mas morre sim a dor, assim que o amor nasce, amor de mãe, amor de sangue! Deus, por quê? Por que tanta preocupação, tanta dor, tanto amor? Obrigada Deus!
- Amor, minha gravata?
Somos um. Mas e a minha história? Eu também tenho o que contar, o que fazer, o que querer, o que pedir?! Somos um, mas não posso perder tudo! Além de seios, tenho também anseios, metas, vida! Quero vida! A minha vida! Própria! Feita de mim! Para mim! Por mim! Não sou vaca nem borboleta, mas as duas! Explico, explico porque alguma mulher não me entenderá como mulher; e os homens, esses não entendem as mulheres: a vaca é sagrada em algum país feminino e selvagem; e a borboleta, bem, a borboleta, você já viu uma borboleta?
Então não me pergunte, pois eu estou com um nó na garganta...
- Dorme meu filho!
- NÃO SEI ONDE ESTÁ A GRAVATA!
- D. Vitória, os arquivos, por favor!
Quem mata o homem é o homem. Quem mata a criança é o homem. Quem mata a mulher é o homem. Ai, meu Deus, que bom seria estar agora ao pé do fogão, de avental, três filhos agarrados na minha perna, o almoço quase pronto, meu marido quase chegando, meus filhos quase prontos para irem à escola, eu quase satisfeita com tudo aquilo, porque estaria reclamando de quase tudo! Mas não, estou aqui reclamando de tudo! É duro? É, mas alguém tem que segurar essa barra! Fui educada assim, a vida me ensina assim, eu quero assim, porque assim eu sou alguém, como se alguém fosse alguém; alguém, na verdade, é ninguém, não é nem nome, é pronome, e indefinido, para piorar. Não, eu não quero ser alguém, eu já sou Vitória, mulher é símbolo de Vitória, pois já venceu várias batalhas, muitas delas sem dar um só tiro! Já venci muitas batalhas, já lutei muito, já aprendi muito, já sofri muito... doeu muito. Por que não cuidam de mim? Onde estão todos? Sai, solidão. Sai daqui. Sai, câncer de almas! Desgraçada, sai! Onde estão todos? Meu filho?... Meu filho?... Amor?... Amor?
- E a paciente?
- Só...