Vai que a gente quando está numa roda de amigos escuta cada uma. Um dia desses, numa conversa com um colega, sobre uma velha história que havia acontecido no decorrer da minha infância, pude observar que ele escutava atentamente, mas louco para atalhar-me, dava-se para perceber nos olhos dele. Ia então narrando a história qual título era: Amaro Morais e a Morte dos Jacus.
Esse meu colega já desde o início demonstrou interesse em ouvir o que estava contando.
Fiquei surpreso.
Então ia contando, mas também pensando: - Será o quê ele vai dizer? Será que está gostando?
Cheguei ao final de minha narrativa e quando ia perguntar a ele se gostou, ele foi ficando vermelho. É, já estava vermelho como um pimentão e não se conteve e foi logo dizendo:
- Boa! Muito boa. Ocê é ótimo. Gostei.
Mas antes que eu pudesse concluir as minhas explicações e expor a razão pela qual construí aquela história, o meu amigo e colega foi logo apertando o meu braço, como era um costume dele, e foi se colocando como culpado de alguma coisa.
Desta forma, ele então foi expressando:
- Nossa! Num caço mais. Nunca mais.
Eu nem sabia que ele era um caçador, e por falar nele, peço minhas desculpas por não tê-lo apresentado, de agora em diante, Carlão é o nome dele. Cabra robusto. Apesar de ser filho de um homem pequeno, tem uma boa altura. É boa pessoa. Muito boa pessoa.
Começou a andar de um lado para outro e não muito contente, repetiu.
Num caço nunca mais. Nunca mais.
Eu, ali sem saber de nada. Sem saber que ele era um caçador. Apenas dei um sorriso meio pálido sem entender o porquê de seu desespero. Aí! Falei a ele: - Mas você não deve ficar assim. Com outra, você não é caçador. Sabe, Carlão, acho que esta história que contei serve é para que o homem pense melhor sobre a vida dos animais. Então, não se preocupe, você não é caçador... Fique tranqüilo...
Ele que estava com sentimento de culpa foi logo se desengasgando:
- Sou...Não.... Era.... Era um caçador. Sabe? Ainda na semana passada, fumo numa caçada.
Fui logo atalhando o Carlão: - Não! Não brinca. Caçada do quê?
O Carlão foi querendo se desculpar, querendo se explicar e acabou contando como foi a sua caçada. Dava para perceber o sentimento de culpa do Carlão. Caçada é coisa que não presta mesmo. Veja como o Carlão narrou a história dele. Veja:
- Nóis pegamo os cachorro, a noite já cumeçava a chegar, colocamo eles na carroçaria de uma caminhoneta, arrumamo as arma e pegamo a estrada.
A caçada, num foi muito longe daqui não. Tinha eu, o Quinzinho e o Berto de Zezé Lopes, nóis treis, sempre que tem caçada tamo junto.
Nesse dia, o Quinzinho num quis ir não. Disse ele que tava cum uma istrepada na perna direita e que num dava pra corrê atraíz da bicha não.
Antonce, deixemo ele in casa e fumo eu e o Berto de Zezé Lopes cum a cachorrada de caçada. O Berto ia no volante da caminhoneta dirigindo aquela coisa que dava cada solavanco. Tinha hora que ieu inté gritava. Tá doido sô! Nossa! Virge.
Num demorou muito tempo nois chegamo no locá. A noite já tinha chegado tombém. Descemo a cachorrada que já foi logo cheirando a terra e começando uma latumia danada. Antonce, eu disse: - É hoje, aqui tem tria. Vai sê só sortá a cachorrada e esperá. Aqui tem a bicha. Vai sê hoje.
O Berto que ainda tava lá na frente da caminhoneta fechando as porta e os vrido pra mode num entra bicho, cobra, pegou as arma e veio pru meu lado e foi logo dizendo: - Ocê fica aqui na spera, ôce é mió do que ieu na pontaria. Fica antonce pur aqui quieu vou dá a vortá lá pela chapada do alicrim. Vou levá os cachorro. Tudo qui eles farejá a bicha, antonce vou gritá. Óia a paca, Carlão! Oiá a paca!
Aí, antonce, concordei cum ele e fui pru crareador que a bicha feiz para entrá no rio. Lá eu fiz uma cama de capim e me inrrosquei debaixo de uma moita.
O sereno caía dando de doer às costas da gente. Naquela noite inté pensei qui ia sofrê pneumunia.
Tava demorando muito. Eu não ouvia mais o mato quebrá com o caminhada do Berto de Zezé Lopes e nem o baruio dos cachorro. Antonce pensei: O Berto já deve tá lá.
A demora tava dimais, antonce comecei a tirá um cuchilo, desses de baixá a cabeça e levantá assustado. Vai daí que acabei ferrando num sono. Drumi cumo se fossi um pedra. Antonce inté cumecei a sonhá. Sonhava cum a fia da Mariquinha, outra hora qui tavo bebendo na venda do Genaro. No sonho, tombém parecia qui tavo numa caçada. Era uma emboleira só. Quando daí a pouco ouvi grito da cachorrada. Acordei. Mas dipois drumi de novo.
Num é que o Berto de Zezé Lopes havia sortado a cahorrada no rastro de uma paca e das grande. A cachorada vinha naquela latumia e ieu naquele cuchilo tavo pensando que era o sonho. Quando dirrepente quebrou uns mato ali pur perto. Tava muito escuro. Num tava dando pra vê direito não. Antonce Pensei: - tô acordado ou tô sonhando?
So seio é qui escutei uma voz longe... Era Berto de Zezé Lopes gritando: Óia a paca! Oia a Paca, Carlão.
A bicha que já vinha na tria rasgando o mundo pruquê o Tigrão já vinha atraiz dela naquela latumia e já vinha devorando tudo, quaz qui pegando o rabo dela, aí foi qui ela vistou ieu e parou pirtinho de mim, distância cumo daqui ali. A bichinha, coitadinha, tava meio assustada, cum uns zóio vremeio feito brasa. Num repente, o Tigrão que tava num imbalo passou qui nem um curisco e banou lá dentro d’água. O danado do cachorro vortou, passou perto de ieu, abanou aquele peluge moiado e fidido. Aí, raiei cum ele. Antonce ele cumeçou a me rudiá. Vai daí que para num perder a paca dei uma oiada e lá tava a danada parada e cuz zóio arregalado. Parecia mais sê um fiote de assombração. Tive inté medo. Aí, daqui a pouco, veio o Berto quebrando o mato e a cachorrada tombém.
O Berto vinha gritando: Óia a paca! Carlão.
Foi aí que a bicha assustou. Cumeçou a correr pru meu lado, quando assustei, ela passou perto de ieu cumo se fosse uma ventania. Tomei aquele susto grande, antonce apertei o burráio atraiz daquela porcona, mas errei o tiro.
O Berto ouviu o stampido gritou: Ferrou a bicha, Carlão!
Foi antonce que percebi qui num tavo drumindo e nem tavo sonhando. Era tudo verdade mermo.
O Berto continuou gritando: Ferrou a bicha, Carlão!
Antonce, arrespondi prele, que tinha apertado o burráio nela e qui ela deu um sarto pra riba e pulou dentro d’água.
Ele ficou zangado. Num gostava de vortá sem caça prá casa. Arrebitou o nariz e deu de xingá. Xingou... xingou... Mais ieu num pudia fazê nada, já tinha errado mermo.
Acho qui fiquei foi cum dó dela. Aquele zóio vremeio me oiando. Juro qui fiquei foi cum dó. Num atirei pra certa nela não. Deixei a bicha i simbora e minti pru Berto de Zezé Lopes. Diz prele que tinha abrido o burráio atraiz dela.
Atirá ieu inté qui atirei. Mais quar... Num atirei pra certá nela não. Deixei a bicha i simbora.
Vortemo pra casa sem a caça. O Berto cum aquele falatório foi logo ligando a caminhoneta. Antonce a bicha funcionou e viemos simbora. Mais ieu qui já tava cum os zóio pesado, acabei incostando na porta daquela giringonça de carro e ferrei no sono.
Dispois daquele dia, o Berto nunca mais me chamou pra caçá.
Adispois eu fico pensando: Matá bicho pra quê?
Num caço mais. Acho inté é bão o Berto num mim chamá mais. Assim é mió. Num caço mais.