Ronaldo era representante comercial, tinha um escritório em Belo Horizonte, e todos os meses ia a São Paulo fazer compras, acertar contas, saber das novidades. O resto fazia por fax, mas como trabalhava com representação de moda feminina, não podia apenas mandar dizer:
― Me manda o mostruário....
Não, precisava escolher a dedo, para depois poder mostrar nas lojas, isto nos tempos em que as lojas compravam de São Paulo, porque hoje em dia Belo Horizonte virou a capital da moda.
Mas, voltando ao caso, Ronaldo tinha de viajar todos os meses, e avião ainda era uma coisa cara. Ele ia de ônibus, saía às dez da noite, chegava cedo, trabalhava o dia todo, e voltava à noite. Assim, passava duas noites no ônibus.
Cansativo? Claro, mas empreendedor que ele era, e ainda noivo, querendo ganhar mais dinheiro para poder se casar logo, e contando que ainda estava na faixa dos vinte, isso era uma brincadeira.
Não precisava bagagem, apenas sua pasta. Mas neste dia em particular ele tinha de levar umas peças muito caras que tinham vindo com defeito, e não tinham sido mostradas aos compradores. Ele as trocaria.
Hilda, a noiva, aproveitou a chance e pediu que ele trouxesse algumas coisas que ela queria, fez uma listinha, e colocou os endereços. Pouca coisa, só dois itens, e Ronaldo jurou que os endereços eram bem próximos. Mas ele passou a lista a limpo, já que a letra dela era ilegível, como quase médica que era...
Jantou na casa da noiva, a sogra ainda ofereceu uma blusa de lã, e disse
―Rapaz, em julho, Cambuí é gelado !
Ele declinou do oferecimento, e disse à sogra que tinha medo de perder a blusa de lã, já que por dever de profissão precisava trabalhar de terno e gravata, ou não seria bem atendido, assim teria de guardar o agasalho na malinha...
―Tudo bem, disse a futura sogra, a gente te deixa na rodoviária.
Tudo resolvido, às dez o ônibus saiu. A malinha no bagageiro, e a pasta de documentos na mão. Lugar 27, não tinha ninguém do lado, e ele tirou a divisória entre os bancos e se esparramou para dormir.
Horas depois, o motorista para num lugar e avisa:
―Cambuí ! Quinze minutos para o café.
Ronaldo abriu um olho, respirou, abriu a janela, e viu que gelado não era bem o termo. O tempo estava glacial.
Mas é melhor depois de um cafezinho, com conhaque para aquecer.
Para quem não sabe, Cambuí em julho é um lugar onde você cospe e o cuspe cai em pedrinha de gelo.
Ronaldo tomou o café, comeu um pastel dormido, e pediu um conhaque, e já o motorista chamava para embarque.
A pasta bem segura em sua mão, voltou para o lugar 27, e ficou meio bravo, porque tinham recolocado a divisória entre o 27 e o 28.
―Droga, pensou ele, alguém pegou este ônibus aqui.
Mas, depois que o ônibus começou a rodar, ele viu que deveria ter sido alguém da manutenção, ou o motorista. Tirou-o de novo e se espranchou nos dois lugares.
Acordou por volta das sete da manhã, vendo a Refinaria Gabriel Passos aparecendo em sua janela.
―Que é que isso, meu Deus ? Parece Belo Horizonte !
E era ! Em Cambuí, por distração pegara o ônibus que estava em sentido contrário, indo de São Paulo para Belo Horizonte. O que significava que tinha viajado a noite inteirinha e chegado a lugar nenhum !
E ainda tinha de reaver a malinha que estaria agora chegando a São Paulo...
Que raiva ! Teria de viajar novamente naquela mesma noite !
Foi para o escritório e ligou para a noiva, no hospital. Ela estava um pouco ocupada, mas pensando que a ligação vinha de São Paulo correu para atender.
―O que, Ronaldo ? Você quer que eu acredite nisso? Depois nós conversamos.
Ele viu que Hilda, sua Hildinha começava a desconfiar que a noite tinha sido gasta noutro lugar que não em dois ônibus...Que vida, que coisa...
Passou todo o dia ruminando o azar. Informou-se na rodoviária, e disseram que a mala estava lá, em São Paulo. Sim, eles a guardariam.
Tentou falar com Hildinha antes de viajar de novo, mas ela mandou-o catar coquinhos, não era a idiota que ele pensava.
Chegou a São Paulo e antes de mais nada procurou pela malinha.
No guichê o funcionário muito gentil disse, olha, pela etiqueta colada e pela que o senhor deve ter consigo, eu posso entregar, mediante o preenchimento deste formulário.
Era um formulário simples, nome, endereço, horário da viagem, coisinhas comuns.
Mas o diabo pintou foi quando o funcionário passou a última informação para a entrega da mala.
―O senhor, agora, me cite uns cinco objetos que devem existir na mala.
E ele, sem se dar conta do ridículo, e de que a fila já tinha umas seis pessoas, foi ágil:
―Ah.....Uns dois conjuntos de calcinhas e soutien tamanho grande, um vestido de festa, dois conjuntos de malha para o dia a dia, duas blusas bordadas em missangas, e um belíssimo vestido de noiva, umas camisolas...
O pessoal da fila se alvoroçou.
O funcionário abriu a mala e começou a tirar as roupas, perguntando
―Isso é seu? Isso também?
Ele saiu de lá, com a alma e o espírito arrasados. Queria morrer mas nenhum carro o atropelou.
Fez péssimos negócios o dia inteiro, resolveu voltar de avião, e correr para os braços mornos de Hilda.
Os braços não estavam assim tão mornos, e ela cobrou
― Onde estão as coisas que eu pedi?
Dizer que tinha esquecido? Depois daquela palhaçada?
Resolveu abrir a mala e dizer que a moça tinha se enganado totalmente quanto aos pedidos.
Mas quando a Hilda viu o vestido de noiva, debulhou-se em lágrimas e pediu desculpas...
O que ela nunca soube é que aquele vestido era parte de um mostruário caríssimo, que ele jamais conseguiria pagar, e que tinha um defeito. As calcinhas e soutiens era muito grandes, mas ele disse, com todo o respeito, ter comprado para a sogra. As camisolas fizeram a alegria da noiva.
E casaram-se, foram felizes, e atualmente contam esta história, chorando de rir.
O que ninguém sabe, é que no mês seguinte, justamente por causa desta viagem, mudou de ramo, entrou no ramo de representações de material de escritório.