Saber quem sou ou de onde venho, pra quê uma coisa dessas? No entanto, se gasta quase a vida inteira com perguntas como esta, sem resposta, o que é pior. Sei lá se é mesmo pior. Houve um tempo em que saber qual era a cor da chuva importava bastante mais, tempo de risos frouxos, bem lembro, namoros na esquina, um bar esquisito cheio de pessoas esquisitas num bairro esquisito, tinha até um garçom vestido de anjo azul, sim!, circulando entre as mesas e carregando esperança na forma de pequenos bilhetes – havia um mapa em cada mesa, como se o planejamento antecipado garantisse sucesso... Piada sem graça, mas piada maior era ouvir Twisted Sisters, e ver os caras, entende? Não sei: às vezes penso que não sou daqui. Tanta gente vibra com cada coisa, cara. Vê só esse negócio de música: tem alguém compondo essas merdas todas, não tem? Um cara que fica um dia inteiro em cima pra sair o troço, e sai daquele jeito, mas tem esse cara que deve parar pra pensar e tudo e no final deve suspirar e dizer: Cara eu terminei minha música! Eles chamam de música, chamam sim, já vi entrevista na tv, e falam com expressão de seriedade e tudo. Olha só: eles acreditam no que estão dizendo.
Tudo bem, eu sei que tem isso de dizerem que me acho grande coisa, mas cara! sempre tive certeza de que sou um ser superior. Tem certas coisas que a gente sabe, entende? Marina me disse que eu não ligasse pra essa história de pensar no que os outros estão pensando, como querer adivinhar o conceito que acabam tendo de cada um quando conhecem, porque acaba que a gente fica com medo de descobrir que tipo de imagem da gente essas pessoas fazem. Quero dizer: você acaba com medo daquele você que está dentro de outra pessoa, e isso me parece uma loucura sem tamanho. Marina tem umas sacadas geniais, às vezes; outro dia me mostrou um quadro, cara! que loucura aquele quadro. Eu não sei explicar direito, tinha umas cores estranhas, umas figuras, dava pra ver que eram pessoas, mas não pessoas pessoas, era outra coisa. Eu disse: Cara, isso é muito bom, Marina! Sabe o que ela disse? Disse: Bom nada, Bolan. Queria ver o que você diria se visse o quadro que tenho aqui dentro. Aí eu disse: Então me mostra, Marina. Me mostra esse quadro que está aí dentro. Por uma coisa como esse quadro eu faria loucuras, entende, e eu precisava dizer isso a ela, pra dar uma força. Sabe, nunca sei se não é a minha palavra sobre algo que vai determinar sua existência ou sua não-existência. E se for e eu me negar a dizer, tem idéia do puta estrago no equilíbrio cósmico que eu provoquei?
Não tinha aquele cara que contava os tipos de chuva? E aquele outro que guardava lágrimas dentro de uma caixinha? Pois é: sempre tem isso em toda parte. E, velho!, não estou aí pra atrapalhar o bom andamento das coisas, tipo essa história de haver um cara por trás de tudo. Quero dizer: O Cara, entende? Porque se isso tudo, como dizem, for mesmo um puta relógio, cara!, é melhor que haja um relojoeiro se o troço quebrar, porque do contrário o que será da gente neste grão de areia azul?
Ih, cara, essa conversa está tomando um rumo que não sei não: daqui a pouco a gente está conversando sobre destino e tais, distribuindo conclusões e conceitos acerca de tudo, dá pra ver onde terminaremos, não dá? Cara! esse papo não me pega mais; quero dizer: perder meu tempo tentando fazer outra pessoa pensar como eu penso. Isso é tolice. Não sei o que sou, ou de onde venho. Só sei que não sou daqui. Sempre fui meio líder em tudo o que fazia. Mas era muito solitário. Criei um mundo onde eu era o rei. King Bolan, cara! o rei de nada.
Meu nome, cara? Tá ligado naquela banda dos anos setenta chamada T-Rex? Tudo bem, quase ninguém lembra mais, mas os caras eram muito bons. O primeiro disco dos caras se chamava My people were fair and had sky in their hair but now they’re content to wear stars on their brows, dá pra imaginar uma coisa dessas? Era um troço chamado glam rock e tinha até o David Bowie na parada, mas ele eu só conheci depois daquele filme Labirinto que assisti com o Fernandes, não o Mariano, mas o José Fernandes. Bueno, tinha essa cara, o vocalista e meio dono da banda, entende?, chamado Marc Bolan que era assim o ídolo da minha mãe, do meu pai também, mas ele não admitia muito porque o cara era meio bicha e usava aquelas roupas esquisitas e brilhantes como se fosse uma antecipação das drag queens, tá ligado?, e tinha umas sacadas geniais tipo a Marina, cara, dizendo coisas como essas que eu repito às vezes pra parecer mais esperto, tipo isso de eu ser superior e tudo, quando na verdade eu sei que a verdade é bem outra, mas isso é coisa daqui de dentro que ninguém mais precisa conhecer ou saber, importante, penso, é que pensem que sou inofensivo, ao menos enquanto for conveniente pra mim. Tá ligado na liberdade que tenho agindo assim? Quem liga pra um cara pirado com um nome esquisito de roqueiro inglês morto e que vive dizendo que é o bam-bam-bam? Nobody, claro. Então, cara, minha mãe ficou grávida e eles tiveram que juntar as coisas, entende?, e tinham que escolher um nome pra mim, né cara! Adivinha que nome: Marc Bolan da Silva. Tudo bem que eles tiveram que pagar uma bola pro cara do cartório, mas isso não conta. Pra mim é genial que eles tenham escolhido esse nome todo cheio de fri-fri-fris e tenham conservado o Silva, cara! isso é demais! Tou cagando pro nome, é o Silva que me faz retumbar, tá ligado?
Música dele? Claro, cara, um monte de músicas dele eu conheço, mas tem um disco que é especial, lançado depois da morte dele chamado You scare me to death. Tem uma música chamada Cat Black que é uma coisa! Queria ver esse pessoal da tv ouvir isso e continuar afirmando que faz música. O quê, cara? Já tá na hora? Puts, nem vi o tempo passar! Conversando a gente não percebe, e como disse o velho Machado, a gente mata o tempo e ele nos enterra. Do caralho esse cara, não acha? Tudo bem que a gente tem uma certa antipatia por ele por conta dos professores que obrigam a leitura dos livros dele na escola, mas é preciso reconhecer o talento dele.
Tudo bem, cara, tou indo. Me avisa quando eu puder sair novamente, porque esses dias em que posso caminhar aqui me ajudam a suportar aqueles outros que passo lá dentro, mordendo paredes por causa da falta que sinto daquelas porcarias todas que eu tomava, tá ligado? Marina me trouxe telas e papel e tinta e lápis e tudo pra eu distrair minha cabeça e não pensar bobagens tipo essas que a médica diz pra eu ter cuidado de não pensar, mas eu juro, cara, que não penso nessas merdas nunca. Quando sinto que posso acabar pensando eu penso nas músicas do Bolan que a minha mãe cantava pra eu dormir quando eu era pequeno, e fico pensando e tentando lembrar tudo que eu puder lembrar e capturo aquele sentimento e o acaricio como uma pequena jóia, a minha pequena jóia, e fico pensando que no dia em que sair daqui, limpo, vai ser como disse uma vez minha mãe, mas isso é ladainha de mãe, cara, e talvez a gente não deva dar tamanha importância ao que elas dizem, porque todas dizem a mesma coisa, tá ligado?, mesmo que o filho ou a filha delas seja um tremendo ou uma tremenda vigarista, tá ligado? Mas tudo bem, a gente tem que se agarrar a alguma coisa, e eu me agarro nisso que disse a minha mãe, cara. Tudo bem, cara, não é grande coisa, mas é alguma coisa, e foi pra mim, tá ligado?, que ela disse, minha mãe e tudo cara e eu seria maluco se não desse atenção ao que ela me disse sobre o labirinto nos meus olhos e tudo, só que quem se perdeu ali fui eu, tá ligado? e como disse a Marina: Queria ver o que você diria se visse o labirinto que tenho aqui dentro, tá ligado?