Em meados dos anos 70, numa cidadezinha do interior do nosso estado, vivia uma sólida família de agricultores. Por sinal, eram muito pobres, sem muito conforto em seu lar. Seu Osvaldo e dona Mártira tinham três filhos: Ana Rosa, Renato Terra, e Osvado Terra Filho.
Osvaldo Terra Filho. Primeiro varão da família, esperado com muita alegria pelos pais; muitos planos foram feitos para aquela vida quando ainda estava no ventre de sua mãe. "Meu filho irá estudar na cidade grande, e se formar doutor, mas até ficar mocinho irá me ajudar na lida da roça", pensava seu pai orgulhoso, admirando a barriga da mulher, quando tinham poucos meses de casados.
Nasceu Osvaldo Terra Filho, de parto muito difícil, e que quase levou a vida de sua mãe. Foram muitas horas de trabalho de parto, muitas promessas foram feitas pelo seu Osvaldo para ver o sofrimento de sua mulher terminar logo. Depois de um dia todo de sofrimento nascia o seu primeiro filho, sem chorar. A casa estava cheia de parteiras, que foram chamadas de toda região para ajudar. De tudo fizeram para que o menino chorasse, mas só após doze longas horas se ouviu o choro daquela criança.
Osvaldo Terra Filho não tinha nada de anormal, tirando os espasmos que tinha com freqüência, mas com o tempo foi passando. Se alimentava bem, se não fosse a má degustação da criança, que a levava a se afogar muitas vezes durante as refeições.
Deu seis meses de vida, um ano, um ano e meio, e seu frágil corpinho continuava todo molinho, e não se ouvia um som saído de sua boca. Apenas a rouquidão de sua má respiração. No final de uma boa colheita de feijão, sobrou uma migalha de dinheiro para levar o filho e a mulher grávida do segundo, ao médico. Chegando lá, tiveram a grande decepção de saber que seu filho era deficiente físico, e talvez mental.
Jamais irá caminhar, falar, escutar, talvez entender. Perguntou o pobre homem ao médico: "Mas não tem cura, doutor?". O médico respondeu que não. Poderia ter alguma melhora, mas coisa pouca. Seu Osvaldo voltou com a alma ferida para casa. Aquela notícia levara seus sonhos de ter um filho doutor para o espaço. Mas logo nasceu Ana Rosa, e em seguida o Renato, para dar continuidade a família dos Terra.
A notícia da eterna deficiência do menino se espalhou por todo o vilarejo:
- Coitada daquela mãe, ter um filho doente pro resto da vida.
- Pois é comadre, já pensou? Coitada... o filho não vai andar, nem falar.
- Será que ele enxerga?
- E ainda por cima deve ser tolinho.
Mas sua mãe o tratava com muito amor e como se trata uma criança normal. Com o tempo, dona Mártira começou a perceber que Osvaldinho escutava e entendia tudo que os outros falavam.
Seus irmãos e seu pai, quando chegavam da roça, recebiam um lindo sorriso dele. Até os visitantes daquela casa, saíam irradiados com aquele sorriso.
Tinha aquelas pessoas que falavam um monte de besteiras na frente do menino, pensando que ele não escutava nem os compreendia, como: "Se Deus se lembrasse dessa criança!", outras ficavam olhando admiradas. Osvaldo retribuía essa falta de discernimento daquelas pobres almas com um lindo sorriso, que brotava do néctar doce de sua alma.
Enquanto seus pais e irmãos trabalhavam na roça, ele ficava sentado em sua cadeira na varanda da casa, esperando com um sorriso nos lábios.
Mas, um dia, depois de uma forte gripe, uma bronquite o levou a morte. Aos dezoito anos de idade, sua missão de sorrir chegou ao seu final. Com um enterro simples, sem muitas flores e amigos, a família Terra enterrou seu primogênito. O comentário no vilarejo era que o menino tinha descansado e dado descanso a pobre mãe.
Com o passar dos dias, a casa de seu Osvaldo e dona Mártira foi ficando triste e sem vida: faltava aquele sorriso que alegrava o lar. A vinda da roça já não era a mesma, pois faltava aquela luz que iluminava a casa. Na varanda da casa da família Terra, sobrava uma confortável cadeira a espera de seu dono. Seu Terra e seus filhos a olhavam quando chegavam da roça, com uma tristeza muito grande no coração, pois não haveria mais aquele sorriso. Tinha sobrado apenas a saudade.
Dona Mártira, que passava o dia com ele, é que podia dizer o quanto este lhe fazia falta. Sonhava com o menino todas as noites. Em seus sonhos, Osvaldo corria pelos campos verdejantes, colhia flores que lhe ofertava acompanhado de um forte e carinhoso abraço.
Apesar da falta de seu filho, dona Mártira sentia-se com o dever cumprido em relação ao amor e carinho que dera a seu filho.