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MAR AZUL
As ondas quebravam calmamente na beira da Praia da Atalaia. O sol se arrastava timidamente para mais um crepúsculo da cidade mais mimosa do Nordeste – A princesa Aracaju, a Capital de Sergipe Del Rei. Caminhava nas areias quentes da Atalaia, um jovem mancebo que atendia pelo nome de Luís. Luís havia terminado o segundo grau sem, contudo, passar no vestibular para Direito, este era o sonho de seus pais. Dr. Olegário era um advogado renomado em Sergipe que nutria o sonho de ver seu único filho sentar em sua cadeira no famoso e pomposo escritório “Advogados Associados” na Avenida 13 de Julho. Sua mãe, dona Antonieta, parecia concordar com o marido, mas, via nos olhos de seu filho, que essa não era a profissão preferida do rapaz.
Luís apenas queria ficar um pouco só. A sensação de não adequação ao projeto de seu pai lhe causava profunda ansiedade. Luís queria esquecer um pouco de tudo e se entregar ao culto a mãe natureza. A areia quente da Atalaia começa a esfriar sob os pés do jovem secundarista. Mergulhado em seu mundo, o rapaz não percebe que logo a sua frente a alguns metros estava uma moça que mudaria a história de sua vida. A moça estava deitada sobre uma toalha azul exibindo despreocupadamente seu corpo que mais parecia uma escultura de arte. Sua pele branca, e suas feições finas europeias dava a Verônica o status de uma musa sergipana. Devemos admitir, as mulheres destas terras são tão lindas como suas praias.
Luís se sentou um instante próximo às espumas das águas marítimas. Ele podia sentir o frescor do oceano beijando seus pés. Seu olhar sem foco denunciava que o pobre rapaz, nascido em Tobias Barreto, e criado em Aracaju, estava em crise existencial: “Meu pai me quer no Direito, mas, eu quero o Seminário”. Luís sentia no peito um grande amor por Nossa Senhora, a ela elevava suas orações todos os dias. Um dia seu pai lhe perguntou se ele era gay – “Um homem bonito desse! Um beato?” “Isso é coisa de viado!” Essa colocação paterna deixou Luís em crise, e a crise o levou ao mar azul de Sergipe.
- Moço, por favor, você pode me ajudar?
- Como?
- Eu adormeci e alguém levou minha bolsa. Não tenho como ir para casa. O olhar de Verônica era de constrangimento, suas maçãs estavam bem avermelhadas, e os seus olhos azuis celeste indicavam que a história era verdade.
- Pois, não, não se preocupe! Luís fez um gesto de quem ia tirar a carteira. Apalpou os bolsos e nada dela. Luís descobriu que havia sido roubado sem o perceber, tamanha foi a distração do moço.
- Moça, eu também fui furtado. Nós dois estamos na mesma condição. Não se preocupe vou telefonar para meu pai mandar alguém nos pegar. Verônica se sentou ao lado de Luís. Os dois, então, sentiam juntos a maré encher enquanto conversavam sobre o ocorrido. O ambiente foi tomado por uma aura de ternura e entendimento. Parecia que duas almas haviam se reencontrado no mundo das formas. Verônica não perdia tempo ao investigar cada detalhe daquele rosto lindo que estava diante dela. Luís era um rapaz talhado pelos deuses. Seus olhos castanhos claros que, ora eram verdes, ora castanhos prendia a atenção da moça que, às vezes, se perdia na conversa. Verônica estava atraída por aquele rapaz. Seu coração passou a descansar, e por um momento, a menina se esqueceu da partida de seu pai. Verônica estava de luto, seu pai, seu Raimundo morreu em decorrência do consumo de álcool.
- Luís, você disse que deseja ser seminarista. Isto é definitivo?
- Olha, não, não sei. O que eu quero mesmo é seguir a vida religiosa.
- Mas, você tem certeza mesmo? Você sabe que isso é uma coisa muita séria. Verônica passou a desenhar a ideia de que Luís não tinha certeza disso, e durante a conversa ela tentou ajudar o rapaz a sair da confusão. A moça tinha tato, embora, da mesma idade do moço, ela o batia no quesito estratégia.
- Verônica, vamos nos encontrar, aqui, amanhã? Luís gostou de conhecer a menina e queria sinceramente vê-la novamente.
O casal passou a se encontrar as tardinhas na praia de Atalaia. A amizade dos dois foi se transformando em algo mais; esse algo mais se chamava amor, no entanto, o jovem Luís oferecia resistência a uma entrega definitiva ao seu novo sentimento.
- Verônica, eu sonho com a santa quase todas as noites me chamando. Ela aparece num bosque que eu acho que não é aqui no Brasil, pois a vegetação parece de clima frio, muito frio. As flores que ficam ao fundo da visão formam com ela um quadro sem igual. O que eu acho muito bonito é que ela sempre surge com um cetro adornado de joias preciosas de diversos matizes, como se fosse uma rainha. É muito bonito, meu amor!
- Luís, você me chamou de que?
- Bem, eu quis dizer Verônica.
- Não você disse outra coisa mais bonita. Os dois se encostaram a um barco que estava à espera da madrugada quando seus donos partiriam mais uma vez para o mar azul. Luís, sem camisa, abraça a moça, que não lhe oferece nenhuma resistência. Luís podia sentir o coração da moça que apressado cobiçava cada toque, cada carinho deflagrado contra sua proprietária.
- Luís, eu não devia dizer, mas, agradeço a Deus por ter sido roubada.
- Por que Verônica?
- Você não entende mesmo, num é? Acho você um tamanho egoísta. Só pensa na sua santa. Caia na real rapaz! Você não tem vocação para padre rapaz, acorde! Luís não esperava esta reação de Verônica. Os dois voltaram brigados para casa. Seu Olegário o aguardava com aquele olhar sisudo. “Meu filho, deixe de devaneios volte a estudar para o vestibular, faça Direito como seu pai”. Ao ouvir o bom senso do pai, o rapaz se tranca no quarto e não sai para o jantar. Dona Antonieta percebe que seu filho sofria e foi ao seu encontro.
- Mãe, pai não me entende! Essa visão não sai de minha mente o que quero da vida é entregá5-la ao Cristo sob as bênçãos de Maria minha mãe.
- Meu filho você vai à igreja hoje?
- Sim, mãe, hoje é dia de encontro de jovens.
- Então, filho, vá e pergunte a Deus porque você sonha tanto com a santa. As palavras de dona Antonieta confortaram o coração do moço que logo se vestiu para ir à igreja Matriz de Aracaju. O grupo de jovens estava reunido em louvor e adoração a Deus. Aquela noite estava destinada a marcar para sempre a vida do jovem Luís. Entre os Carismáticos existe o fenômeno linguístico da xenolália. Uma jovem morena clara foi tomada por um transe em cânticos espirituais e depois veio à interpretação dos mesmos. As palavras foram para Luís, e elas o advertiam de sua missão como um servo de Cristo. Luís não tinha mais dúvidas, este era o seu destino.
O ano letivo no Seminário do Recife começava em março. O rapaz se preparou para a viagem. O desejo de servir a Deus foi tão grande que ele se esqueceu de seu amor. Luís, depois, do fenômeno espiritual não pensava em outra coisa, exceto, o serviço religioso. O telefone tocava em sua residência e sua mãe não dizia que o rapaz estava em casa. Verônica, então, não insistiu mais por um momento. A filha de pai alcoólatra sofreu muito a perda de seu novo amor. Ela foi a Praia de Atalaia diversas vezes na esperança de ver o jovem Luís, mas, as areias do mar azul não mais sentiam os pés do jovem mancebo.
- Mãe, alguém ligou para mim? Perguntou Luís.
- Não! Ninguém ligou; que eu saiba não! Você estava esperando alguma ligação?
- Ah, tá. “Ela deve ter me esquecido; deve ter sido um romance passageiro”. Pensou o seminarista Luís. Mas, naquele mesmo dia, no outro lado da cidade, uma mãe consolava sua única filha que chorava descontroladamente, era Verônica que sentia uma dor do tamanho do oceano, ou do mar azul.
- Minha filha se ele te ama ele aparece.
- Mas, mãe, eu nem se quer sei onde ele mora. Só sei que é filho de um tal Olegário advogado.
- Mas, por que você não pediu o endereço dele?
- Mãe, eu confiei tanto nele, me deixei envolver de tal forma que eu não pensava em nada. Eu só queria tê-lo por perto. Estava tudo bem, num sei por que falei aquilo mãe! Mas, eu já liguei para ele várias vezes. A mãe dele sempre dá uma desculpa. Não tenho contado desde então; e ele poderia me ligar, pois, ele tem meu número.
- Aprenda! Hoje em dia, os homens são como são! A dor da morte do pai, e a dor de perder Luís afundaram a pobre menina em profunda depressão.
Luís viajaria no outro dia para o Recife. Era uma segunda feira. O rapaz sentiu uma tristeza muito forte no coração o que o fez refletir sobre o que havia feito com Verônica. Na tentativa de vê-la, ele vai a Atalaia no mesmo horário de sempre. A praia estava deserta, naquela época não havia a orla urbanizada, o que tinha na Atalaia eram bares, restaurantes e alguns pequenos hotéis. Luís andou pela areia morna de final de tarde. Olhou o mar o azul por um instante, o que o fez lembrar- se dos momentos vividos com a doce menina Verônica: “Meu bem se um dia eu me casar, quero que Deus me dê alguém como você”. “Somos somente amigos e a menina linda já fala em casamento? Ah, vocês mulheres são todas iguais”. O vento do mar azul acorda o rapaz, era hora de deixar tudo, voltar para casa, dormir, acordar, e tomar o ônibus para o Recife.
Os primeiros dias no seminário foram um terror para Luís. Um rapaz acostumado com os mimos da mamãe, agora tinha de fazer tarefas jamais pensadas por ele antes – lavar as próprias roupas; arrumar seu guarda-roupa, faxinar seu dormitório, e outras coisas. Mas, logo Luís fez amizades e se adaptou ao novo viver. Pelas manhãs, aula, pelas tardes, oração e biblioteca, pela noite mais aula, nos finais de semana missa na capela do seminário, ou em alguma paróquia que solicitasse os serviços de um vocacionado. O lazer era muito pouco, ademais, Luís jejuava muito; todos viam o esforço do rapaz em consagra-se para uma vida de celibato.
- Meu amigo Plínio, eu não sei o que seria de mim sem você. Os colegas de curso parecem não ter respeito por esse lugar santo! Asseverou Luís ao seu amigo e confidente Plínio Sales de Umbaúba Sergipe.
- Eh, meu caro, as coisas santas não são mais santas. Afinal, os novos tempos trouxeram este conflito de identidades.
- Nunca mais sonhei com a santa. Parece que ela me abandonou dentro destas paredes.
- Não se preocupe. Os primeiros anos são assim, depois você vai ver a poeira assentar. Os primeiros meses passaram rápido, Luís nunca mais sonhou com a virgem no jardim; agora sua atividade onírica o remetia aos primeiros anos de sua vida na Velha Vila de Campos, em Tobias Barreto, Sergipe. Nessa época, eles eram muito pobres, seu pai trabalhava como professor e estudava Direito à noite em uma universidade pública em Aracaju. A vida do casal era sofrida, e por tabela a de Luís também. Essa foi uma época de muitos conflitos para o casal Antonieta e Olegário. Antonieta trabalhava no comercio, ganhava apenas um salário, seu marido, na época professor de português, dava aulas no Educandário da cidade. Seu salário era muito pouco o que afetava seriamente a vida dos três. Mas nada para causar tantos danos a Luís de que ter contraído uma virose que durou duas semanas. O rapaz ardia em febre quase todas as noites. Por causa de disso, Antonieta pôs o menino em seu quarto: “Olegário, não reclame, Luís anda muito estranho, quero meu filho perto de mim”. “Tá bom mulher, me deixa em paz!” Quando o menino se aquietava, o casal fazia amor livremente como se estivesse num motel de luxo. Os gemidos de Antonieta costumavam acordar o pequeno Luís que por muitas vezes assistiu o ato sexual de seus pais. Desde então, Luís passou a ter sudorese nas mãos e nos pés. Na adolescência, Luís passara a sonhar com Nossa Senhora e seu cetro de joias. No entanto, na casa santa onde ele estava; Nossa Senhora sumiu; novos fantasmas passaram a atormentar a vida do jovem tobiense. Durante as noites ele sentia contrações naquele lugar e uma pulsão erótica como se seu o órgão excretor fosse outra coisa. Isso o perturbava muito. O rapaz se via tendo coito com homem. Nunca havia sentido isso antes – “Então, será o chifrudo que está me tentando?” Pensava cabreiro o rapaz. Outras vezes ele sonhava com Verônica nua, mas, além da vagina, a moça possuía um falo.
- Plínio, eu tenho algo para confessar ao capelão, mas, tenho muito medo.
- Conte amigo! Conte para mim, quem sabe alivie a tua dor? Luís contou seus sonhos e seus desejos novos e inesperados. Plínio o explicou que naquele ambiente cercado de homens é muito comum as pessoas pensarem que são homossexuais. Se a homossexualidade fosse fato ela se manifestaria de alguma forma. Disse Plínio com muito cuidado.
- Obrigado meu amigo! Luís foi para seu quarto escrever uma carta para sua mãe:
Recife, 22 de janeiro de 1983.
Querida Mãe.
Os dias aqui são longos e profícuos também. Tenho aprendido muito sobre nossa religião, como pregar o Evangelho e, sobretudo sobre nossa Mãe Santíssima. Estou há muito tempo sem sonhar com ela. Perguntei ao capelão Pe. Bezerra e ele me disse que isso é normal – “Os santos sabem o que fazem”. A vida no Recife não está fácil, muitas mortes, muita dor, muita pobreza em meio a uma ilha de fartura e prosperidade. É um terreno fértil para a Palavra de Deus. Não vejo logo o dia de sair por essas terras anunciando o amor que Maria tem por seus filhos. Como estão todos? Papai ainda está com aquela estória que eu sou gay? Diga-lhe, por favor, que tire isso da cabeça! Seu filho é um servo de Deus. Que o nosso bom Jesus abençoe a todos. Beijos!
Ps. Mãe quando eu era criança fui molestado ou alguma coisa assim?”
A carta foi respondida por sua mãe uma semana depois.
Aracaju, 2 de fevereiro de 1983
“Meu filho Luís”.
Estamos orgulhosos de você. Embora seu pai tivesse seus planos, ele agora cedeu como um cordeiro ao teu chamado. Ora ou outra, ele resmunga dizendo que queria te ver formado em Direito, mas, logo passa. Quando assistimos a missa que ele ver um seminarista mareja os olhos e diz: ‘Olha mulher, teu filho quando chegar!’ Eu estou muito bem de saúde; teu pai é que sente umas pontadas no peito direito, mas, não se preocupe que o doutor Sandro, o melhor clínico de Aracaju, diz que são gases e passou uma dieta a base de fibras para teu velho. O gato de dona Rizodalva foi atropelado, menino! Você nem imagina o barraco que ela armou com o taxista! O moço não teve culpa, mas, entenda que nessas horas de dor todo mundo deseja uma explicação. Amamos-te muito, e continue a ser esse homem de Deus que você é. Ah! Você nunca foi molestado, pelo menos que eu saiba, foi? Teve uma moça aqui uma semana depois de sua partida, eu não queria te dizer, mas, a pobrezinha chorava muito, dizia que nunca ia te perdoar. Menino, o que você fez a ela? Bem, entrego tudo nas mãos de nosso bom Deus. Com amor, tua mãe. Beijos eternos!”
Os sonhos eróticos de Luís continuaram perturbando-o. Luís começou a ter ansiedades e insônias. Plínio se apiedou do rapaz e veio para seu quarto. Os colegas de seminário comentaram por um tempo, mas, viram a caridade dele para com seu companheiro. Plínio e Luís passaram a morar juntos, com a intimidade, as experiências sexuais entre eles vieram naturalmente. Luís gostava muito de seu amigo Plínio, no entanto, muitas noites, o ouviu dizer um nome de mulher que não era o da santa. – “Verônica”.
- Luís, você pensa ser como eu, mas, não o é. Disse Plínio com um ar triste no rosto.
- Como assim amigo?
- Eu sou homossexual. Você não. Continuou Plínio.
- Mas, eu sou também. Nós não fazemos aquilo? Insistiu Luís.
- Luís, ser homossexual não é apenas ter relação com um homem. Ser homossexual transcende a excitação das mucosas. O verdadeiro homossexual sente afeto por pessoas do mesmo sexo, ele/ela ama seu companheiro/a verdadeiramente. Muitos jovens e moças tiveram problemas na infância, pensam que desenvolveram a psicogênese homossexual. Isso pode acontecer, mas, nem sempre os problemas infantis levam a esse caminho da mente. No seu caso, uma boa análise pode resolver, ou se você for de verdade, um dia, você o saberá com certeza, pois, o homossexual sente por pessoas do mesmo sexo, a mesma ternura que pessoas de sexos diferentes têm pelo outro, e isso, até agora, não vi em você. Luís ficou um tempo pensando nas palavras de seu amigo, até que ele abriu o coração:
- Conheci alguém em Sergipe. Eu acho que eu a desejei muito. Mas, nada tivemos, exceto as carícias de namorados.
- É Verônica?
- Sim. Como você sabe?
- Depois que vim morar contigo passei a conhecer teus sonhos.
- Eu fui muito desonesto com ela. Eu, simplesmente, a esqueci. O oráculo que recebi me envolveu num estado de euforia tão intensa que me esqueci do mundo e nele estava a moça – Verônica. Não tenho como encontra-la. Foi uma loucura, num foi? Entenda-me, Plínio! Nessa época, eu sonhava com a santa quase todas as noites. Isso me perturbava muito! Eu, eu, a via e...
- Como era sua visão da santa, aliás, você nunca me contou os detalhes. Luís contou o sonho da santa ao seu colega estudioso da psicanálise de Jung.
- Você nunca viu no seu sonho o sentido fálico, não? A virgem com o cetro na mão! O cetro é o elemento fálico. Parece que o seu sonho religioso esconde uma história de vida. A conversa dos dois varou dias. No final, Luís entendeu que seus sonhos eram representantes de um trauma de menino. “Olegário, calma!” “Se comporta homem!” “O menino tá dormindo, mas, pode acordar!” “Calma Antonieta!” “A virose o derrubou, não vai acordar!” “Psiu!” O menino por dias ouviu e viu essas coisas, e depois as escondeu em algum lugar.
Luís estava de volta; em sua bagagem a acusação de ser gay. Sua mãe, com a ternura de sempre, abraçou o filho. Olegário, ao contrário, o humilhou: “Só um filho no mundo, meu Deus!” “E este dá pra viado, raios!” A família tomou conhecimento dos boatos que corriam no estabelecimento religioso. Olegário adoeceu depois do fracasso de Luís - sem Direito, sem seminário, sem vocação. Luís estava em crise de identidade. Seu mundo havia desabado. Luís passou a frequentar a Praia de Atalaia como antes, há quatro anos. Sua intenção era descansar no final de tarde. Plínio continuou sua estrada, Formou-se em teologia, logo em seguida foi para Roma estudar psiquiatria na Universidade Pontifícia. Os dois nunca mais se encontraram.
Dona Antonieta se aproxima de seu amado filho num noitinha de sexta feira.
- Filho, eu, hoje via na tevê que as inscrições para o vestibular para Direito estão abertas. Por que você não tenta? Quem sabe seu pai não melhore? Se anime mais?
- Será minha mãe? Não suporto vê-lo assim! Sempre calado e preso no escritório.
- Sabia que tem um cursinho especializado em vestibular para Direito? Luís foi estudar para o vestibular para Direito. Com a nova atitude do filho, o velho Olegário se animou. Com o animo do pai, Luís voltou a sorrir, mas, contudo, dentro dele havia uma lembrança triste muito nítida – O rosto de uma moça! A saudade desse rosto era um segredo que o jovem pré-vestibulando guardava no peito - o rosto branco de Verônica; todas as peças entalhadas na sua face pelo Pai das Luzes. A menina era muito bonita de rosto. O resto não precisa comentar – a mistura do sangue europeu vindo dos Alpes franceses com indígenas da etnia Jé-Cariri lhe deu a forma mais desejável que um homem pode sonhar por as suas mãos.
Numa noite de terça feira entra na sala do cursinho de Luís uma jovem professora. Em sua mão direita uma aliança grossa com cerca de cinco gramas de ouro. Luís olhou para ela quando a coordenadora do curso que a acompanhava a apresentava a sala desejando-lhe sucesso: “Sucesso, professora Verônica, todos nós sabemos de sua competência!” A diretora saiu, e Verônica ficou só com seus alunos. Durante um bom tempo Luís se manteve de cabeça baixa. Temia ser conhecido, embora, estivesse com os cabelos castanhos grandes, quase caindo sobre os ombros, e uma barba rala, que ele manteve bem cuidada desde os tempos do seminário. A aula passou muito rápido; a moça sumiu na multidão de esperançosos que tentavam, desesperadamente, uma vaga no ensino superior. O mesmo ocorreu por muitos dias. Luís percebeu a aliança na mão de sua amada; o rapaz não queria atrapalhar seu destino: “Eu, terminantemente, não usurparei o coração de Verônica; já chega de problemas; ela está com alguém, assim seja meu Deus!” O “assim seja” era a parte mais difícil de dizer, mas, Luís cumpriu o quanto pode.
Havia uma garoa fina em Aracaju. O vento que vem do mar soprava sobre as ruas e avenidas do centro da cidade. A cidade ainda estava arrumada para as festas juninas, embora, a data fosse passada, o clima de São João insistia em ficar na alma aracajuana. Em frente ao curso, na Rua Lagarto, havia uma área de estacionamento público. Luís estacionava seu carro lá. Verônica também. Os dois nunca havia se encontrado fora da sala de aula. Ela já o havia visto, sem, contudo, registrar o fato; tratou a coisa com frieza, uma atitude normal de quem decidiu ter uma vida nova com outra pessoa. Luís, ao contrário, tinha certeza que não estava curado, mas, era fiel a sua prece.
- Verônica, tudo bem?
- Sim, e você?
- Estou bem. Estou de volta a Sergipe. Decidi fazer Direito. O rapaz não sabia o que conversar. A menina Verônica era, agora, sua professora.
- Que bom Luís! Tomou juízo. Vá em frente que você é uma pessoa muito inteligente! Você vai conseguir! O “você vai conseguir”, a professora Verônica disse com seus olhos voltados para baixo.
Luís mudou de estacionamento. Em vez de estacionar o carro na Rua Lagarto, ele estacionava na Praça da Matriz; eram apenas dois quarteirões: “Melhor evitar que remediar; meu Deus, não me deixa encontra-la novamente”. Essa era a curta e fervorosa prece do ex-seminarista. O ano passou rápido, Luís prestou vestibular para Direito e passou nas vagas. Olegário tratou de dar um carro novo para seu filho e uma gorda mesada mensal. Olegário estava animado com seu filho – Luís o substituiria na empresa que ele construiu com muito trabalho. “Antonieta vamos mandar Luís para umas férias!” Luís preferiu a Praia de Canoa Quebrada – “Mas, meu filho Canoa Quebrada é muito longe; fica no Ceará!” Luís foi para Canoa Quebrada.
Canoa Quebrada passou a ser povoada a partir de 1960. Diz o povo que foi um cineasta francês do movimento “Nouvelle Vague” que deu início a esse processo, e que ele é responsável pelo sentimento de liberdade que os moradores da praia têm. Luís percebeu muito bem isso, Canoa Quebrada, além de sua beleza natural, possui o poder de enfeitiçar as pessoas. Assim, o novo universitário, foi tomado por um desejo de viver que somente quando esteve com Verônica ele experimentara. No entanto, mesmo que a nova imagem dela povoasse sua mente, ele estava decidido a encontrar um novo amor – “algo único; Algo que me complete”. Dizia o estudante de Direito.
As falésias alaranjadas de Canoa Quebrada e o mar azul dão ao visitante uma poesia natural que lhe faz o coração vulnerável a novas descobertas. Luís estava sentado nas areias brancas de Canoa Quebrada observando o ir e vir das pessoas e a beleza do mar. Ao mesmo tempo o rapaz reprisava sua história de vida. Nesse clima reflexivo, Luís vê a certa distância uma moça de chapéu de palha que estava a falar com um moço de sua idade. A mesma parecia muito com o seu antigo amor:
- Meu bem se você for para Fortaleza agora, eu não vou te perdoar.
- Mas, querida, é minha paciente, é minha obrigação cuidar dela. Mulher de médico é assim.
- Meu amor, ainda bem que nós não nos casamos, pois, preciso pensar muito bem se vou suportar essa rotina de médico. Um rapaz ruivo, de estatura alta, porte atlético, se pôs em pé e caminhou na direção de seu carro bugre estacionado logo atrás. Era o Doutor Silva, o noivo de Verônica. Luís pensou: “Isto é uma perseguição”. Luís virou o rosto para o mar; naquele instante, a face da menina da Praia de Atalaia surgia em sua mente como uma deusa do mar azul. Seu coração acelera, seus olhos se fixam no imenso horizonte oceânico; ele ouve a voz como de Verônica como nos dias antecedentes ao a sua ida a Recife: “Meu bem, você está crescidinho precisa de alguém”. Os olhos lindos da moça, encrustados em sua bela face, desvanecia da mente de Luís quando uma mão lhe toca o ombro: “Esta carteira é sua?” “Não, mas eu conheço a pessoa”. “Então, por favor, você pode leva-la a dona?” “Sim, não é problema”. Luís estava com a carteira de sua amada Verônica, porém, o rapaz não fazia a menor ideia onde ela estava hospedada. Ele a abriu na esperança de saber qual era o endereço ou algum telefone que lhe permitisse um contato. A carteira de Verônica foi toda revirada e nada, exceto, em um bolsinho pequeno, um pedaço de papel amarelado com um coração desenhado dentro dele, um nome quase apagado pelo tempo “Luís”. Ele olhou para o pedaço de papel; sua mente foi para uma terça feira quando os dois conversavam à tarde na Praia de Atalaia: “Vou desenhar esse coração e somente Deus vai dizer quem será o dono dele”. Luís procurou pela professora o resto da tarde. Ele não a encontrou: “Certamente deve ter ido com seu noivo”- Pensou o rapaz.
Verônica estava hospedada no povoado, na casa de parentes. Dona Nancy era uma senhora de setenta anos muito jovial. Depois que seu marido bateu as botas, vítima de um ataque isquêmico, Nancy viu que cada segundo dessa vida era precioso, então se mudou para Canoa Quebrada, e abriu a pousada – “Mar azul”. Sua nova vida passou a ser fazer amizades, comer bem, sorrir, curtir a natureza, e aproveitar a saúde que Deus lhe dera – “Eu adoro a liberdade que sentimos em Canoa Quebrada”, Nancy dizia isso com muita frequência. De fato, esse pedaço de mar azul tem um poder mágico de mudar o destino das pessoas.
A noite estava linda em Canoa Quebrada. Logo cedo a lua chorava para os poetas com sua luz forte de lua cheia. Até, então, nada de Verônica. O jovem Luís decide caminhar na nova orla. As pessoas iam e vinham, eram rostos desconhecidos de muitos lugares da terra. Luís podia ouvir diferentes idiomas o que o fez ainda mais estranho naquele lugar tão deslumbrante. “Ah, se eu, pelo menos, a visse; eu entregaria seus documentos e pronto”. Pensou o rapaz tentando justificar sua caçada desesperada. No final da pequena orla, Luís levanta sua cabeça para mirar a paisagem quando se depara com um letreiro luminoso: “Pousada Mar Azul”. Luís decide tomar uma cerveja no estabelecimento.
- Uma cerveja, por favor! Disse Luís a senhora de estatura média, loira, olhos azuis, com traços franceses beirando os setenta anos.
- Verônica, atenda o rapaz, por favor! A moça que estava a atender uns fregueses vira-se e mira na direção do universitário. Os dois se olham por um instante. Os dois se olham como nos dias de antigamente. A moça se recompõe e caminha em direção ao cavalheiro.
- Uma cerveja? Importada ou nacional?
- Nacional, por favor! Verônica saiu, e retorna com a cerveja gelada no ponto.
- Luís, que surpresa! Esse era o lugar que jamais pensaria em te encontrar!
- Eu já havia te visto, mas, um chapéu que usavas me impediu de ter certeza se era você mesmo. A propósito, você perdeu sua carteira de documentos?
- Sim.
- Luís puxa de sua mochila estilo soldado a carteira de Verônica.
- Mas, mas, que coincidência! Logo você encontra-la!
- Não fui eu. Foi um senhor de idade que achou ser de alguém que estivesse comigo. Sua foto ainda é aquela daquele tempo; foi fácil reconhecer quem era. A professora sorriu um tanto corada.
- Mas, por quê? Mudei tanto? Estou mais velha?
- Não. Você está mais bonita ainda. Verônica tentou mudar o rumo da conversa.
- E sua namorada onde está?
- Que namorada? Estou só.
- Ah, esqueci, você é celibatário. Tem visto a santa muito?
- Verônica essa é uma história que não gosto mais de lembrar. Vou fazer Direito agora, minha vida segue outro norte, e eu vim para Canoa me divertir.
- Desculpe, não quis ofender.
- E você, como vai de noivado? Perguntou Luís com um tom sério. Verônica não pode responder a pergunta. Sua tia Nancy se aproxima.
- Verônica, você não vai me apresentar o moço?
- Ah, tia, desculpe! Luís, essa é Nancy, minha tia!
- É um prazer senhora! Nancy percebeu a atmosfera entre os dois, mas, guardou tudo no coração. “Os jovens, não sabem o que querem”. Pensou a idosa. Luís mal conseguiu dormir aquela noite. Seu coração desejava sua pequena; sua moral dizia que não era ético, nem cristão de sua parte cortejar uma pequena de outro.
Os dias na Canoa Quebrada, agora, tinham outra coloração; Luís, finalmente, amanheceu sorrindo, com uma disposição que fazia tempo que não sentia. “Quando fui para o Recife, eu não sabia que ela era tão importante para mim”. Pensou o moço, estudante de Direito. O rapaz foi para praia na esperança de rever seu antigo amor repetindo, eu seu coração: “Eu vou te encontrar hoje”. Verônica não apareceu; o jovem Luís ficou muito triste, mas, contudo a entendeu, pois, a moça estava noiva. Luís decide, finalmente, ir ao Bar de Nancy, pois, pensava encontrar seu amor lá. Infelizmente, Verônica não estava mais em Canoa Quebrada.
- Nancy, você tem o endereço dela?
- Não Luís! Acho melhor você ficar longe dela. O noivo dela é um bom rapaz e parece que tudo está dando certo.
- Mas, Nancy, eu sinto que ela ainda me quer. Ontem ela me olhou no fundo da alma. Nancy sabia que sua sobrinha gostava do rapaz, mas, não queria envolver-se no problema. Nancy pegou umas cervejas e convidou Luís para uma conversa sobre a vida. A velha senhora era, sobretudo, uma pessoa vivida, além de ser ainda uma mulher muito bonita. A conversa se deu no interior de sua pousada numa saleta secreta usada em tempos de eleição para reuniões de lideranças políticas.
- Meu filho, foi nessa saleta que meu marido se tornou um homem querido e odiado nessas terras.
- Como assim Nancy?
- Ele era odiado por aqueles que não gostavam de seu senso de justiça. E amado por todos que o conheciam de forma mais próxima. Nancy discorreu sobre seu homem durante um bom tempo.
- Sabe, Luís, quando nós queremos alguém no mundo, é pegar ou largar como dizem os americanos “take it or leave it”. Você deixou seu amor na beira da praia e com ela sua alma. Os dois conversaram sem perceberem que a noite se aproximava. A cerveja tomou conta do rapaz que definitivamente abriu o coração para a senhora Nancy revelando-lhe a história da santa.
- Moço, teu problema pode ser resolvido de uma forma muito simples.
- Como? A senhora Nancy se aproxima do ex-seminarista e tira-lhe a camisa iniciando um ritual de cópula. O ritual demora alguns minutos nos quais o jovem Luís percebe que sua libido era direcionada para pessoas de sexo diferente. Nancy se deleitava no corpo do mancebo e este no seu. Luís sentiu, pela primeira vez, o calor das entranhas de uma mulher e isso dissipou muitas dúvidas de sua triste alma.
A experiência com Nancy acompanhou o estudante de Direito de volta a Sergipe. A faculdade de Direito começara as aulas, a rotina de Luís incluía, além dos estudos ordinários, idas a Atalaia nos finais de semana. O mar de Sergipe não tão azul estava presente na vida de Luís, pois, este o lembrava de alguém que ele deixou para trás.
Era por volta das quatro horas da tarde quando o jovem Luís decide pegar seu carro de volta para casa. Sua mãe havia dito que seu pai não estava muito bem. O rapaz toma sua mochila, nela põe suas coisas. Um chapéu de palha tipo mexicano trazido pela força do vento freia sua corrida nas pernas atléticas do rapaz. Ele se abaixa, toma-o em sua mão direita e olha para frente para ver se seu dono ou dona reclamaria por ele. A uns dez metros a sua frente estava uma moça adormecida a banhar-se no sol – Era Verônica.
- Esse chapéu é seu?
- Luís você de novo! Estou me acostumando a encontrar-me contigo nas praias desse Brasil.
- Não é coincidência?
- É o que então? Será que foi a santa? Verônica deu uma risada irônica.
- Verônica, às vezes, o destino escreve nossas vidas.
- Ah, sei. Como foi com você!
- Por favor, se desarme e pare para me escutar.
- Quando estive no seminário tive que lidar com coisas que estavam em mim que estando eu com você seriam muito difícil de serem trabalhadas. Minha ida ao Recife não foi para o serviço religioso, mas, para uma libertação interior.
- Ah, deixe disso Luís! Você me deixou sem contato, sem notícias suas por quatro anos. Eu não perdoarei você nunca. Luís marejou os olhos de lágrimas e foi-se levado pelo vento. Mas, Verônica foi atrás do rapaz, dizendo-lhe que ele devia ter tido, no mínimo, a consideração de enviar o endereço do seminário, pois, segundo ela “amigos são amigos”. Na calçada da Atalaia, próximo a um quiosque de coco os dois param de frente um para o outro. Era o momento de um adeus para sempre. O noivo de Verônica estava vindo pegá-la.
- Verônica, eu errei. O que eu estou tentando dizer-te é que, embora, eu tenha sido leviano com você, não fiz isso por mal e eu tenho certeza que te amo. Nunca parei de pensar em você, e fiz de tudo para não te atrapalhar, mas, você cruza meu caminho o tempo inteiro, olha, eu não mais virei a Atalaia. Acho que assim, eu não mais te verei. A frase “eu não mais te verei” cortou o coração da moça que lutava contra si mesma para não abraçar o moço. Seu noivo chega e percebe que ela estava a prosear com um estranho. No carro o casal discute. A situação entre os dois se agravou por essa causa: “Verônica, quem era aquele rapaz?” “Um ex-namorado!” Disse a moça propositalmente.
As ondas da Atalaia ficam furiosas no mês de janeiro. O mar sente a força da lua e grita apaixonado pela deusa da noite. As águas escondem seus segredos assim como as mulheres. O noivo de Verônica nunca soube a verdade, e nem entendeu tudo sobre a falência de sua relação. Afinal, quem dispensaria um partido como ele? Rico, médico, bonito, tudo que uma mulher deseja. Verônica foi caminhar nas areias do mar azul com seu velho amor Luís. Foi lá que eles se encontraram a primeira vez e lá ficaram com seu amor. Verônica teve dois filhos com Luís, uma moça chamada Amélia, e um rapaz chamado Olegário Neto.
- Meu amor você está muito suado! O que foi?
- Tive um sonho. Sonhei com a santa e ela estava muito irritada comigo.
- Meu amor deixe a santa pra lá e viva sua vida!
- Você tem razão. O casal continuou a noite em paz. Amanheceu em paz e viveu como pode, em paz.
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