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O SENTIDO DA LUZ APÓS UM APAGÃO
Renato Ferraz
Viver parece prescindir a qualquer entendimento.
Estar vivo é uma realidade inerente aos anseios da alma.
Conta-se uma história sobre uma pessoa que ficara viúva
sem ter nascido filhos do casal.
Ela era uma ótima pessoa.
Encontrava-se bastante idosa e doente sobre uma cama.
Embora estivesse lúcida, vivia imóvel e sem motivação.
Ela tinha diariamente seus horários de oração.
Pedia no final de cada momento que Deus a levasse para viver ao seu lado,
afinal já tinha quase 100 anos e considerava já ter vivido o suficiente.
Segundo sua avaliação, viver dessa forma;
dependente, dando trabalho e preocupação aos familiares,
a vontade que tinha era de conhecer a outra vida, ou seja, morrer.
Ela orava quando acordava, após o almoço e antes de dormir
E fazia sempre esse pedido, no final da sua penitência.
Certo dia a vista escureceu, sentiu um mal súbito e teve certeza
de que seu pedido para morrer estava sendo atendido.
Enfim, chegou a hora tão bem pensada.
Antes de perder os sentidos, lembrou que desistiu e pediu para que
o momento fosse adiado, iria pensar melhor.
Desmaiou e após o retorno ao seu estado normal,
refletiu um pouco mais, mudou de opinião.
Conversou com as pessoas sobre a experiência.
Perguntaram-lhe por que desistiu,
ela pensou um pouco e respondeu:
Viver, ainda que fosse assim como vive, era melhor que morrer.
Ver o sol, olhar a chuva, tocar as pessoas, receber um carinho, sentir um cheiro;
tudo isso é real e é maravilhoso.
Quando teve aquele apagão, de repente sumiu tudo e a escuridão deu-lhe a sensação de algo perdido no espaço.
Ela não morreu, apenas passou mal, mas sente-se agradecida porque crê que foi atendida quando pediu para morrer
e quando desistiu ...
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