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Contos-->TEMPO -- 17/11/2009 - 17:15 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Chegou ao portão da casa e bateu palmas sem nem sequer procurar por uma campainha que porventura pudesse estar meio escondida em algum lugar próximo. Apareceu um rapaz com ar sonolento, desceu a escada devagar e só então perguntou, sem mostrar nenhum interesse, o que ela desejava.

—Por favor, o Luiz está?
—Tá.
—Você poderia chamá-lo para mim?

O rapaz virou-se sem responder e subiu novamente a escada, mostrando a mesma tranqüilidade que usou para descê-la. Esperou. Logo ele surgiu no alto da escada, a calça jeans desbotada, sem camisa e com os pés metidos em um velho par de chinelos pretos, desceu a escada sem pressa mas não tão devagar quanto o rapaz que fora chamá-lo, na verdade seus movimentos, seu olhar e seu meio sorriso davam uma idéia bastante nítida da diferença de personalidade entre os dois.

—Pois não.
—Oi.

Ele olhou curioso, acentuando a ruga da testa, tombando levemente a cabeça para a esquerda.

—Conheço você?
—Não, na verdade não. Será que a gente poderia sair, andar um pouco por aqui para que possamos conversar?
—Você veio dar algum recado ? de quem ?
—Não, não vim dar recado nenhum, eu só preciso conversar com você, será que podemos andar um pouco?
—Tá, espera só eu vestir uma camisa.
—Espero.

Ele subiu a escada quase correndo, ela olhava.

Minha mãe foi criada num sítio, no interior. Viveu toda sua infância e parte da juventude na roça, vendo crescer canaviais, cafezais, roças e roças de café. Quando criança, passava boa parte dos seus dias em cima das árvores. Seus brinquedos eram as coisas da terra, correr entre a plantação, montar os cavalos mansos, assustar as galinhas. Foi uma infância feliz.


A barriga chega a doer. Aquela forte sensação de medo que não consegue controlar. Mas olhá-lo subindo a escada, o corpo atlético, a pele marrom tão sua conhecida... Não, tem que tentar. O que poderia perder afinal? Ele a ama, disso está certa. Por que então a barriga não ouve o cérebro e não para de doer? por que o medo a deixa tão tensa? Nada pode dar errado. Se ele a amava antes, por que não a amará agora? Ou é o contrário?

Ele vem descendo a escada, o sol lhe bate no rosto moreno, os olhos meio que se fecham contra a luz forte. Deve estar achando que lhe quero vender algo, talvez esteja surpreso e curioso para conhecer a “nova técnica de venda” que acredita que represento. De qualquer forma não deixa de ser uma novidade, e as novidades femininas têm tudo para serem bem aceitas pelos homens. Ainda mais nesse caso, já que ele me ama... Será que vai me amar de novo?

—Vamos... Aonde exatamente você quer ir?
—Tem uma praça aqui na rua de cima, não tem? Vamos andando até lá.

Caminham. Tenho que dizer algo, não posso deixar esse clima de silêncio constrangido pesar, caso contrário posso perder a coragem, sair correndo, pedir desculpas e esperar cinco anos para ir ao teatro.

—Você vai... ia sair hoje... Quero dizer... não estou atrapalhando algum compromisso seu, algum passeio?
—Não, agora é cedo, só pretendo sair à noite.
—Você estava ouvindo música?
—Estava. E fazendo trabalho.
—Que música?
—Um LP do Raul. Você conhece?

—Raul Seixas? Conheço, um tesão. “Ai, não devia ter dito isso. Tesão não é palavra que uma moça como eu diga assim, com essa naturalidade, preciso tomar cuidado”. Desculpe ter falado assim, escapou. É que tenho dois irmãos um pouco boca-sujas. Eles falam palavrão e eu acabo aprendendo. Depois, sai sem querer.
—Tudo bem, é melhor conversar com uma menina que não fica corada com qualquer palavrinha que a gente diga — Ele sorriu.

Boa essa desculpa dos irmãos, parece que colou. Não, não tenho que me preocupar muito com isso, daqui a pouco vou contar tudo para ele.
—Chegamos. É aqui que você queria vir?
—É. Vamos sentar ali, bem no meio da praça? É menos barulhento.

Um dia minha mãe viu passar um rapaz de camisa verde e levou um choque.
— Com esse moço eu me caso Tunica — Ela disse para a prima.
— Deixa de ser boba, Santinha, você nem sabe quem é ele.
— Não sei, mas com ele eu me caso.
Casou.

—Preciso te contar uma história. Você ouve e depois eu faço uma pergunta, tudo bem?
—Tudo bem. É pesquisa?

—Não. Só escuta, por favor...Um dia, ou melhor, uma noite, fui ao teatro e tinha fila. Era um show, muitos jovens, você entende. Encontrei uma colega e ficamos conversando. Uma hora vi chegando, sorrindo, um rapaz. Ele cumprimentou minha colega — tinham estudado juntos — ela nos apresentou e a gente começou a sair juntos. Resumo da ópera: Tivemos um filho. Casamos. O menino crescia e a gente ficava mais velho. Eu odiava envelhecer, acho que ninguém gosta. Um dia desejei, aliás, todo dia eu desejava, mas um dia aconteceu, nem sei resumir direito como. Sei que eu não estava mais em minha casa e naquele tempo, eu estava na casa de meus pais e tinha quinze anos. Fiquei feliz, comecei a explorar e fazer o reconhecimento do ambiente, é bom ter uma segunda chance. Só que para essa segunda chance valer a pena eu precisava encontrar aquele rapaz antes do dia do teatro, senti muita falta dele, por uma série de razões eu preferi adiantar esse encontro. Sei onde ele mora e fui até a casa dele. Pedi para falar com ele e contei minha história. Sei que é difícil acreditar mas contei. Agora pergunto para o rapaz que já foi meu marido no futuro: — Você quer namorar comigo, casar comigo e ter um filho comigo como você já fez antes—depois?

—Eu sou o cara? — Ele ria, ria muito. — Desculpe, não quero ofender mas você há de entender que não é comum receber assim, uma pergunta dessa. É para acreditar nessa história?
—É. — Ela estava séria, muito séria. — “Que mancada! Ele pensa que eu estou brincando, que é algum truque. Mas também, o que é que eu queria que ele pensasse?”
—Como é o moleque? — A pergunta surpreendeu. “Será que ele acredita ou resolveu entrar no jogo?”

—É ótimo, magrelinho, alto, naturalmente bronzeado. Tem os lábios lindos, bem rosados, parece que passou batom. É muito esperto, bem humorado, meio preguiçoso mas nós dois somos loucos por ele. Já tem até um bigodinho.
—O nome dele? — Ele estava sério, olhava para ela como se a quisesse reconhecer, como se quisesse ver nela o filho que ela descrevia.
—Daniel. Eu escolhi o nome, você não protestou, dizia que ele sempre foi mais meu do que seu. Você é um pai muito bom, o Daniel gosta muito de você. — Ela se empolgava, nem notava que estava misturando todos os tempos dos verbos, como estavam misturados os acontecimentos. — Ele inventou um esporte que adorava praticar, depois parou porque ficou muito grande. Ele subia em você até montar nos seu ombros, então ele diz que está fazendo “alpainismo”. Vocês dois brincavam muito...

Calam-se. Ele baixa a cabeça.

Meu pai via minha mãe engordar e envelhecer, brincava, colocava apelidos. Disse estar esperando que ela completasse quarenta anos para trocá-la por duas de vinte. Parecia mentira. Não era
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