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Contos-->MEA CULPA -- 17/11/2009 - 16:58 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Será que foi “estalo”, atração, ou foi apenas porque ele parecia ter dinheiro? Talvez não tenha sido nada disso, talvez fosse apenas coisas que a imaginação inventa depois de um caso passado a que na hora não se prestou muita atenção por não parecer importante, e depois, descobre-se que foi, então cria-se, na lembrança, sensações que na verdade não existiram.

A verdade é que convidou, convidou com ênfase talvez um pouco exagerada. Queria, seria por parecer ter dinheiro?

Ele deu uma parada, olhou-a inteira, de baixo para cima, analisando, e parece ter aprovado, pensou mais um pouco, talvez não tivesse essa intenção, não estava passando por ali à cata desse tipo de programa mas acabou aceitando.

Conduziu-o como fazia com todos, os mesmos sorrisos, os mesmos toques debochados, o mesmo rebolado ao andar.

Mas tudo foi tão diferente, o toque, a pele, as sensações que nunca existiram antes.

Tinha mais calor, as suas mãos deslizavam pelo corpo dele e não era como uma demonstração falsa de interesse na intenção de uma gorjeta maior, era puro prazer.

O corpo era igual a todos os outros que tantas vezes lhe dera asco, era um corpo masculino como tantos que já havia tocado, talvez um pouco mais bem feito que a maioria, mas tinha algo diferente, o quê?

O cheiro quente, a maciez, a respiração, a semi-violência, aquela vontade de fechar os olhos e se deixar levar como se estivesse boiando ou voando, ou apenas sonhando.

Sempre falava muito, dizia todas as palavras pesadas e indecentes que conhecia para excitar mais o freguês e assim terminar o trabalho mais rápido. Mas agora estava muda, os olhos fechados e um calor no corpo que jamais sentira.

Então, de repente, aconteceu aquele instante mágico que ela tentou segurar, queria que durasse horas mas era um instante, uma sensação forte como uma explosão, um instante que passou e deixou a sensação da lembrança dele, e com aquele corpo caído, solto sobre seu corpo ela se sentiu abrigada e agradecida. É claro que sabia que o que sentira se chamava orgasmo, mas entre saber e sentir a diferença é quilométrica, chegou a, no auge da surpresa, se perguntar o que é isso que está acontecendo comigo?

Agora sentia o corpo gelatinoso, parecia não ter ossos, uma dormência gostosa na carne repousada. Percorreu as mãos de leve pelas costas dele e achou a pele ainda mais macia e quente, não queria se mover, não queria falar, queria ficar ali, sem ossos, para sempre.

Mas o para sempre no dia seguinte era apenas uma lembrança que a fazia se sentir andando envolta em uma neblina invisível.

Estava novamente no mesmo ponto, expondo o corpo, chamando freguês, mas se sentia como a gente se sente se dorme demais de dia e acorda às cinco horas da tarde quando devia ser oito da manhã, tudo parece que é de mentira.

Veio um freguês, levou e no quarto sentiu náuseas quando o viu nu, e quando ele tentou abraçá-la não pôde se controlar, empurrou-o com força e foi correndo ao banheiro vomitar.

O freguês saiu como uma fera, depois, já na rua, Marquinho, o dono do puteiro lhe deu um tapa na cara que tirou sangue: “Que isso não se repita.” Sorriu com o lábio cortado, enxugou o sangue na gola e respondeu que não, não mais aconteceria.

Mas o segundo foi pior. Parou de convidar, mesmo assim ele quis, era baixinho e careca, com os lábios grossos e molhados, falava cuspindo. Logo que fechou a porta soube que não ia conseguir, pediu, implorou. Ele a agarrou pelo cabelo, vomitou na cara dele.

Marquinho bateu forte, chutou, gritou muito e às lágrimas e tentativas de explicação reagiu catando o dinheiro, pouco, que tinha na bolsa e com um último chute mandando-a embora com a ordem não quero te ver de novo.

Saiu andando, chorava e se cansava, ninguém prestava atenção, o dia inteiro andando, deu fome, pediu por favor, não conseguiu nada, uma mulher dessas pode trabalhar, vamos até ali comigo que eu dou. À noite estava frio, dormiu no chão, numa parede de um banco, não conseguiu perder toda a consciência no sono, a sensação de frio não deixava. Acordou decidida a fazer alguma coisa, bateu em uma casa, pediu trabalho por um prato de comida.

Na sexta casa a mulher gorda a levou a um tanque de roupa cheio. Comeu lá mesmo, sentada em uma cadeira quebrada ao lado do tanque, foi embora.

Uma semana e nada. Só andando, pedindo, o desespero de não encontrar nada, com aquelas roupas todo mundo via o que era e ninguém tinha pena, tentava explicar, ninguém ouvia, tentou pegar freguês novamente mas não conseguia evitar a náusea.

Estava andando, cansada, chovia, o corpo molhado mal obedecia à má vontade de se mover. Não olhou, o carro vinha, não conseguiu desviar, não deu pra brecar a tempo.

Viu o rosto do motorista sobre o seu, não estava indeciso se aceitava ou não um convite, estava aflito, só teve tempo de dizer: “foi minha culpa.” mas não soube se foi ouvida, ou se tranqüilizou.
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