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Contos-->INCOMPATIBILIDADE -- 17/11/2009 - 16:54 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
E ela se perguntava todo dia, e mais ainda logo depois que se separava dele na volta de um dos encontros que tinham e no qual ele a levava a um motel onde ela o via pelado, com sua barriga grande, suas rugas denunciadoras, suas costas peludas e seu pinto pequeno: O que é que eu estou fazendo com esse cara? E qual era a resposta? Nenhuma, não havia resposta e não havia como compreender isso. Ela era alta, medianamente bonita, jovem, esguia e muito simpática, era inteligente, curiosa, capaz de atrair rapazes jovens, bonitos e sexualmente atraentes e, no entanto e apesar de todos os inconvenientes, estava saindo com esse senhor totalmente desinteressante e em quem não conseguia ver nada de exatamente atraente.

Tudo bem que ele era divertido, mas ela conhecia pelo menos três caras tão divertidos quanto; ele era inteligente, mas ela conhecia pelo menos dois tão ou mais inteligentes ainda; ele tinha uma situação financeira razoável, mas ela não se importava nem um pouco com isso porque ela própria tinha situação e independência financeira bem acima da média das moças da sua idade; ele tinha bom gosto, mas homens de bom gosto não são coisas tão raras de se encontrar se é isso que você está procurando. Quem nessa história toda estava se saindo uma pessoa de péssimo gosto era ela e ela só. Chegava a sentir raiva de si mesma quando tentava descobrir porque continuava a sair com ele e não conseguia nenhuma resposta, nenhuma razão que justificasse essa escolha. Aliás, ela não percebia nisso nenhuma escolha, nunca “escolheu” sair com ele, simplesmente saiu. E além e acima de todos os inconvenientes, o desgraçado do homem era casado! Dá pra encontrar coisa pior?

E ela se respondia: Não! E se respondia novamente e se respondia sempre: Não! No entanto era só ele ligar e ela se vestia, se perfumava e saía para encontrar-se com ele e voltar algumas horas depois xingando a pessoa que era e brigando sem tréguas consigo mesma. E isso já levava meses! Algumas poucas pessoas já estavam sabendo e era visível que, mesmo não dizendo nada, pensavam exatamente como ela, a diferença é que as pessoas pensavam também que estivesse cega e apaixonada, que estivesse iludida e esperando que ele deixasse a esposa para ficar com ela. Nossa! A hipótese de essa idéia passar pela cabeça dele a apavorava! E se ele de repente se dissesse apaixonado, ameaçasse divorciar-se e pedisse a ela que fosse viver com ele? Que pavor! Se acontecer isso eu me mato!

Mas não fazia nada a não ser pensar, perguntar, ofender a si própria e continuar a sair com ele para uma sessão de sexo morno em motéis tão mornos quanto; ah! Como se odiava! E ele não percebia nada, e quem os via juntos não percebia nada porque quando estava do lado dele ela parecia feliz, quando o beijava, beijava com fome, quando o olhava, olhava com olhos de amor, quando falava com ele falava como quem fala a alguém especial. Todo o seu comportamento, do momento em que o encontrava ao momento em que se despedia dele com um beijo intenso, era o comportamento inconfundível de uma mulher apaixonada, a raiva só vinha quando estava sozinha. Nada fazia sentido.

Era domingo e aos domingos eles não se viam porque domingo era o dia que ele passava com a esposa e os dois filhos, era o dia do almoço em família, do churrasco na casa do cunhado, de levar as crianças ao zoológico. Nesse dia nunca se viam e ela gostava mais dos domingos porque era o dia em que agia e se sentia quase como uma pessoa normal. Visitava amigos, almoçava com os pais, via televisão na sala, ia ao cinema, só o que não conseguia fazer era sair com outros homens, mas procurava não pensar nisso e esforçava-se mais do que qualquer outro dia da semana para não pensar nele. Estava na sala com o pai, a mãe, a irmã mais velha e o cunhado que ainda deveria estar cheirando a peixe porque passou a manhã toda na cozinha preparando o delicioso pintado na manteiga com batatas coradas que almoçaram e, de repente, sem pensar e sem dizer nada, nem para si mesma, levantou-se do sofá e foi ao quarto se vestir, se perfumar e saiu dando tchau e dizendo que estava indo na casa da Camila.

Não ia à casa da Camila, a Camila nem sequer estava em casa e ela não tinha feito nenhum plano de sair naquele dia, o que fez foi pegar o carro e dirigir com toda cautela e segurança durante quase uma hora para chegar a uma praça da cidade vizinha onde nunca tinha parado antes. Estacionou, saiu do carro e dirigiu-se com toda a segurança para o centro da praça onde ele a esperava. Nunca tinham marcado encontro nessa praça, nunca tinham sequer falado a respeito dessa praça que ela conhecia só de passar por ela sempre que ia de uma cidade a outra. Se perguntassem o que pensara e o que sentira que a fizera estar ali naquele momento, não saberia dizer, apenas tinha vindo e não foi surpresa que ele a estivesse esperando, pelo contrário, foi por isso que veio e ele sabia. Não tinham falado nada, não tinham marcado nada, mas sem que ela soubesse como ou por que, ele viera encontrá-la na praça e ela estava lá.

Beijaram-se, foram até o carro dele, ele contou que a esposa resolvera ir apenas com as crianças até a casa da irmã dela que estava adoentada, então ele tinha a tarde livre e resolveu que eles deveriam se encontrar, pensou na praça e foi até lá chamando-a mentalmente. Foi só esperar um pouco e ela chegou. Falaram do assunto entre risos, com bom humor e sem estranheza, como se o que aconteceu não fosse algo incomum, como se não fosse mais digno de nota do que se o encontro tivesse sido combinado com antecedência de dois ou três dias. Foram a um motel e algumas horas depois ela entrava em seu quarto batendo a porta com expressão aborrecida e se perguntando: O que é que eu estou fazendo com esse cara?
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