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Contos-->CINCO LIBERDADES E UM TERREMOTO DE GRANDES PROPORÇÕES -- 17/11/2009 - 16:38 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Era dia do “e viveram felizes para sempre”, o vestido branco ficou lindo, as pernas tremeram quando caminhava até o altar, não ouviu quase nada do que o padre disse e o arroz jogado à porta da igreja parecia um enxame de pombos minúsculos que lhe bicavam o rosto de leve. Comeu um pedaço de bolo, dançou a valsa dos noivos e agradeceu aos cumprimentos envolta em uma nuvem de irrealidade densa como uma casca na qual todos batiam mas onde ninguém conseguia entrar, nem mesmo ele, seu marido, aquele que a segurava pela mão e jurava amá-la e respeitá-la todos os dias de sua vida até que a morte os separe. Dormiram exaustos depois de um sexo mentiroso e saíram bem cedinho para a viagem de lua-de-mel. Só quando entrou no navio e este começou a afastar-se deixando todos aqueles que abanavam adeuses se tornarem pontinhos coloridos em um horizonte de maquete foi que começou a sentir-se dentro daquele momento, abraçou apertado o corpo de seu marido e retribuiu aquele que foi o primeiro beijo real de uma mulher casada. Sentia o vento nos cabelos e o despertar fazia bem, uma alegria óbvia sobrevoou seu sorriso e aceitou começar a exploração da luxuosa embarcação onde estaria durante duas semanas inteiras numa viagem de sonho presenteada pelos pais; um cruzeiro com belas paradas, belas paisagens e muita fotografia para guardar no primeiro álbum de família que organizaria com todo capricho assim que voltasse para sua cidade e começasse a habitar o recém-mobiliado apartamento. Tudo tão perfeito! Nos olhares que trocavam a cada minuto não faltava nem mesmo a paixão, responsável pela certeza de que essa felicidade duraria toda a vida.

Passaram três dias e ainda era recém-feliz, todos os dias passavam a dar-se conta da presença um do outro e do quanto essa presença fazia bem, conversavam sobre o futuro fazendo planos coloridos e sobre o passado lembrando nuances do romance que ainda viviam, sorriam para tudo e por todos os motivos e pensavam um no outro em todas as pequenas coisas inconscientes de ser e de estar. Juntavam os corpos em prazeres plenos muitas vezes durante o dia e durante a noite e sentiam fome como crianças que muito brincam e saltam e riem e depois comem o que lhes dão com pressa de voltar a brincar. Tantos foram os “eu te amo” que se disseram que se cada um se tornasse uma conta e deles se fizesse um colar, este daria muitas voltas brilhantes no pescoço da mulher apaixonada. O quarto dia amanheceu nublado e ficaram um pouco mais de tempo no quarto brincando de se embrenhar no corpo do outro, se perder e procurar novos caminhos e atalhos para chegar ao próprio corpo, exausto e leve como se flutuasse, foram tomar café e depois se debruçaram para olhar o mar que era de chumbo. Sentiram o vento crescer e o medo demorou tanto pra se formar que a tempestade chegou bem antes e quando as ondas enormes criavam gritos de terror a realidade fugiu de novo e o pesadelo começou como um desmaio.

O sabor-sal da água que violentava sua alegria e a escuridão que apagava as cores do seu futuro flutuaram com ela num violento dormir e não acordar. Gritos chegavam ao seu semi-consciente e tanto podiam ser de outras pessoas como dela mesma que perdeu totalmente o controle do seu tempo. Vagamente movimentos de braços e pernas perdidos no terror encontraram algo indefinivelmente sólido onde se apoiar. Um desmaio de não-ser fez com que nada mais fosse sentido até quando os olhos foram incomodados por um sol ardente e algumas mãos a tocaram e levantaram seu corpo. Flutuou até uma sombra de onde olhou e viu-ouviu o mar que voltava a ser azul. Tentou levantar o corpo e dizer algo, mas desmaiou novamente e quando abriu os olhos estava sozinha sobre panos úmidos e viu pessoas correndo de um lado para o outro na praia recolhendo objetos que as ondas traziam. Ficou olhando por muito tempo até que foi notada e homens se aproximaram carregados de caixas e pacotes molhados, tinham as roupas sujas e alguns tinham arranhões no rosto e nos braços, eram cinco e nenhum era o Dani. Sentaram-se a seu lado, falaram muito, pediram calma, não sabiam nada sobre o Dani, não sabiam quem era Dani, sabiam da tempestade, do navio que desapareceu, talvez a gente tenha caído no mar, o barco pode estar por perto, ou não. Disseram que o mar trouxe muitas coisas, mas pelo que sabemos, só nós seis estamos aqui. Apresentaram-se. João, jogador de vôlei, negro, não muito escuro, não muito alto, cabelos trançados à la Bob Marley. Reinaldo, apelido Nado, médico anestesista, muito alto, cabelos meio encaracolados, amorenado e bem magro. Cléber chef de cozinha, negro, muito preto e muito alegre, acredita que tudo está bem, vai dar certo, todos estão no navio e o navio nos encontrará. Juan, espanhol, grisalho, barba bem aparada e olhos curiosos. Yuri, alemão, branco como uma lagartixa, não fala nem meia dúzia de palavras em português. Olharam para ela, Sônia, arquiteta, estava em viagem de lua-de-mel. Dani é meu marido e eu não sei onde ele está. Sentiu a mão de Nado em seu ombro e um misto de alivio e pavor. Tentou se levantar e só então percebeu que estava com a perna direita machucada e tinha um curativo feito com trapos improvisados. Olhou para os colegas e sorriu sem jeito, dois braços lhe foram estendidos, colocou-se de pé e caminhou alguns passos, a perna doía um pouco, mas nada que preocupasse muito.

Depois de combinar o que fazer, Nado e Yuri saíram para explorar o lugar e os outros começaram a organizar um acampamento trazendo para a sombra e dando uma certa ordem nas coisas que encontraram na praia. João conseguiu um pedaço de madeira quase reto, uma muleta improvisada para que ela se apoiasse. Quando, depois de umas três horas, os dois voltaram, o acampamento estava bastante razoável e os quatro se sentiam até orgulhosos do trabalho realizado e improvisavam fogo para conseguir uma refeição. Disseram que eram os novos Crusoés, pelo que puderam ver estavam em uma ilha, uma ilha não muito grande, nem sinal de gente, nem sinal de “terra a vista”, apenas um minúsculo rio, garantia de água doce. Nos próximos dias comeram, dormiram e caminharam, exploraram toda a ilha e tiveram certeza de que estavam sozinhos. Tinham muita comida, água e uma infinidade de objetos que poderiam ser úteis, mas tinham cada vez menos esperança, o mar trouxe muito mais coisas, coisas que pareciam restos do navio. A cada caixa de alimento, de remédio, de bebidas, a cada mala de roupas, amontoado de cobertores, brinquedos soltos e pedaços indefinidos de madeira, plástico ou vidro o navio parecia se afastar mais, era mais esperança de vida, era menos esperança de vida. A perna estava tão bem que dispensou a muleta, conversava com todos e até brincava um pouco de ser otimista com Cleber que nunca deixava que o desespero tomasse conta de todos, contavam os dias com a ajuda de um calendário plástico que veio com as ondas e viam as semanas passarem.

Quando finalmente foram resgatados por um barco desses que exploram o mar em busca de tesouro, já havia passado seis meses, onze dias e quatro horas do que se lembrava vagamente como o começo de tudo. A imagem de Dani estava meio desbotada em sua mente, a lembrança dela mesma como fora até o início de tudo estava muito mais embaçada, como um retrato danificado pela maresia. Ela era então a esposa não sacramentada de cinco homens que não se mataram por uma fêmea porque ela teve o bom senso de se tornar desprezível sendo acessível a todos e não permitindo que nenhum deles a quisesse só para si.

De volta a casa mudou o nome, mudou-se do país e mudou o cabelo. Escondeu-se. Nado foi o primeiro que percebeu o quão longe aquela garota que nunca chorou esteve de ser desprezível, em sua lembrança acalmada pela distância reviu toda a tensão que começara a criar-se entre eles pouco antes de ela oferecer-se, tensão que deixou de existir a ponto de ser esquecida quando aquele corpo feminino e único passou a ser propriedade de todos; reviu seus olhares, aqueles que se negara a ver nos momentos em que ela, pensando que ninguém a notava, deixava passar uma nuvem escura ou lançava um mudo pedido de socorro ao mar. Tardiamente pensando em atender aquele grito de socorro que se negara a ouvir na ilha mas que queimava sua lembrança agora e cada dia mais, ele foi o primeiro a procurá-la.

Os outros demoraram um pouco mais de tempo, mas todos eles, em seu momento e com diferentes profundidades, compreenderam que ela, naquele gesto de livrar-se das roupas e oferecer o corpo aos cinco homens tornando-se desprezível aos olhos deles, foi na verdade a pessoa mais corajosa e mais lúcida dentre todos. Eles eram apenas cinco predadores prestes a se tornarem irracionais. Cada um em um momento da vida sentiu a necessidade de dizer ou demonstrar de alguma forma que agora a compreendia e sabia que ela não fora desprezível, eles foram. Todos a procuraram, mas nenhum a pôde encontrar.
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