A expressão no rosto daquela velha senhora era de alguém que estava absorta em suas memórias. Parecia que seus pensamentos estavam a milhares de quilômetros de distancia. Na verdade, eles estavam bem ali, na sala de sua casa. Maria Alice estava com seus cabelos brancos, enrolados num coque no alto de sua cabeça, que cintilavam com reflexo causado pela luz do sol que penetrava pela vidraça. Ela estava sentada em sua poltrona em frente à janela. Como sempre o fazia, ela ficava lá, naquele mesmo lugar, observando o movimento da rua e relembrando seu marido que havia falecido ha pouco mais de um ano atrás. Muitas pessoas e carros já haviam passado em frente à sua casa, mas ela não havia percebido. Ela assistia mentalmente, como se fosse um filme, os fatos que aconteceram ao longo de suas vidas. Foram momentos maravilhosos que permanecerão para sempre em sua memória, em seu coração. Enquanto pensava nele, ela olhava vagamente pela janela em direção à rua.
Já se passavam das 14 horas e 15 minutos e em determinado instante, sua atenção foi desviada para o carteiro que colocava correspondências nas caixas de correio da vizinhança. Ela achou que para o horário, ele estava muito atrasado, porque normalmente, ele entregava as cartas pela manhã bem cedinho. Maria Alice se lembrou que era o dia dos namorados e era perfeitamente compreensível o atraso, pois o numero de correspondências mais do que duplicava e o trabalho do carteiro ficava mais difícil, afinal, nem todos os dias as pessoas recebem cartas, mas aquele era um dia muito especial. Ela viu quando ele desapareceu virando a esquina e relembrou os cartões, cartas e bilhetes apaixonados que recebia de seu marido, mesmo após anos de casados e uma lágrima rolou lentamente em sua face. João Carlos sempre foi um homem carinhoso e sabia como demonstrar o amor que sentia por ela. Ele sempre lhe proporcionava surpresas. Por vezes ela era surpreendida por flores que chegavam de repente. Outra hora uma caixa de bombons, ou um cartão onde ele dizia sempre ao final do que escrevia a frase “Eu te amo!". Quantas saudades dos tempos em que eles estavam juntos. Quantas dificuldades eles enfrentaram na vida, mas superaram a todas de alguma forma, graças ao amor que os unia.
De repente, ela viu uma Van estacionar em frente à casa de sua vizinha de frente. Era um destes veículos de entregas usados pelas floriculturas, e nele, havia um nome escrito nas laterais e ela pode saber a que empresa pertencia o veículo. O nome da floricultura era La Belle Fleur de Jour e embaixo do nome pintado em letras garrafais, havia a frase " Flores para todas as ocasiões.". Ela ficou imaginando, quem teria mandado flores para sua vizinha, afinal, ela era viúva como ela e morava sozinha. Até onde ela sabia, Rose sua amiga de anos e não tinha um namorado, não tinha nenhum pretendente e nem mesmo se preocupava com isto. Ela sempre dizia que era melhor estar sozinha do que mal acompanhada. Então, quem as teria enviado? Maria Alice se lembrou que sua amiga tinha uma filha casada, que morava longe. Talvez ela tivesse se lembrado da mãe e lhe enviado flores. Que filha gentil e atenciosa, ela pensou. Contudo, justamente naquele horário, Rose estava trabalhando e não haveria ninguém para receber a encomenda.
O rapaz da floricultura tocou a campainha varias vezes, mas como não obteve resposta, olhou para os lados, não viu nenhum movimento nas casas vizinhas e quando olhou em direção à casa de Maria Alice, pode perceber que as janelas estavam abertas e certamente, lá haveria alguém para que ele pudesse pedir para entregar a encomenda quando a dona da casa chegasse. Foi o que ele fez. Atravessou a rua com a caixa nas mãos e ela viu quando ele se dirigiu à sua porta e tocou a campainha. Ela se levantou com dificuldade da poltrona onde estava sentada e caminhou lentamente em direção à porta. Quando ele tocou pela terceira vez, ela já estava abrindo a porta para atende-lo. O rapaz educadamente perguntou a ela se poderia fazer a gentileza de receber a encomenda e entregar à sua vizinha e ela disse que sim. Que não haveria problema algum. Ele deixou a embalagem em suas mãos, agradeceu pela gentileza e se foi. Quando ela fechou a porta, da embalagem que estava em suas mãos emanava um perfume de rosas que tomou conta de seu ser. Abraçada à embalagem muito bonita e bem feita que escondia seu conteúdo, ela fechou os olhos e em sua imaginação, ela visualizou rosas amarelas, lindas e perfumadas. Eram assim as flores que João Carlos gostava de enviar a ela.
Uma vontade incrível de abrir a embalagem tomou conta de Maria Alice. A tentação era grande, mas ela sabia que não poderia fazer isto, afinal as flores eram para sua amiga. Ela não tinha o direito de abrir a embalagem. Com a caixa nas mãos, ela caminhou lentamente em direção à cozinha. Pelo caminho passou pela estante que ficava num canto da sala. Nela havia muitas fotografias e uma delas, colocada em um ponto estratégico, bem destacada entre todas as outras, estava a foto de seu marido. Nela ele sorria e era daquele sorriso, que ela mais sentia falta. Seu marido era a luz de sua vida. Um homem daqueles que não se encontram facilmente. Doce, suave, gentil, carinhoso e com uma sensibilidade, que a fazia se emocionar sempre que relembrava seu modo de ser. Ele era um escritor, um poeta, um sonhador. Uma daquelas pessoas que não se apegam aos bens materiais. Para ele, os sentimentos sempre vinham em primeiro lugar.
O perfume que saia da embalagem estava cada vez mais marcante no ambiente. Era como se de alguma forma, as rosas que estavam dentro dela, quisessem que ela a abrisse. Que visse a maravilha da natureza que estava oculta pela bela embalagem. Maria Alice em certo momento não se conteve. Ela foi até a mesa da cozinha e cuidadosamente abriu a embalagem. Dentro dela, como ela havia imaginado, havia um lindo buquê de rosas amarelas. Exatamente como seu marido gostava. Emocionada com a visão daquelas flores lindas e como que enfeitiçada pelo perfume, ela retirou o buquê e o segurou com toda a delicadeza em seus braços. Com os olhos fechados, sentindo aquele perfume encantador, ela pereceu ouvir uma música, era a mesma valsa que ela dançou com João Carlos no dia de seu casamento. A magia do momento era tanta, que ela começou a dançar a valsa com o buquê em suas mãos. Naquele momento de encatamento, ela se via nos braços de João Carlos. Os dois giravam em torno da pista de dança do salão. Sem que ela se desse por conta, ela dançava de lá para cá pela sala, pelo corredor que dava acesso à cozinha. Um sorriso doce e suave estava estampado em seu rosto e seu coração batia mais rápido. Era a lembrança de seu grande amor que a fazia flutuar nas brumas de suas recordações. Ela se sentia feliz como há muito tempo não se sentia desde que ele se foi. Uma alegria profunda se apossou de seu coração que até então estava triste e em plena solidão.
Já haviam se passado mais de duas horas e ela já cansada, com as pernas doloridas pelo tempo em que dançou abraçada ao buquê, havia se sentado na mesma poltrona em que estava quando a encomenda para sua vizinha chegou. Com os olhos fechados, ela imaginava o quanto seria bom se ele estivesse vivo e ainda ao seu lado. Foi então que a campainha tocou. Era Rose sua amiga. Maria Alice quando ouviu sua voz chamando do lado de fora, corou de vergonha. Como ela explicaria à sua vizinha que ela tinha aberto a encomenda que havia chegado para ela. Com o rosto pegando fogo, ela se levantou e caminhou devagar para atender a porta. Quando ela a abriu, sua amiga a abraçou e disse que estava exausta. Tinha trabalhado muito naquela manhã e só veio vê-la, porque foi avisada pela floricultura que sua encomenda tinha sido entregue na casa da vizinha de frente. Sem saber o que dizer a Rose, Maria Alice tentou falar alguma coisa, mas a amiga a interrompeu dizendo a ela que na verdade ela precisava mesmo era lhe dizer uma coisa muito importante, antes de mais nada. Sua amiga lhe disse que na verdade as flores eram para ela mesma. Que seu marido antes de falecer, já sabendo de sua morte inevitável por causa do câncer que o levou, pediu a ela que no primeiro dia dos namorados após a sua morte, recebesse algumas flores que ele previamente tinha comprado na floricultura, com instruções precisas para que fossem entregues, exatamente naquela data. Ele não queria que ela ficasse assustada e pediu a Rose que o ajudasse.
Sem parar de falar como era costume de Rose, ela disse a Maria Alice, que quem dera a ela ter tido a sorte de ter tido um marido como o dela. Um homem que a deixou amparada na vida, sem precisar trabalhar para sobreviver, e complementou dizendo, que não sabia até quando ela conseguiria trabalhar para pagar as contas, pois afinal, também já tinha uma idade avançada e logo precisaria parar. Somente Maria Alice e João Carlos sabiam da verdade. Durante toda a vida, o trabalho dele como escritor nunca trouxe grandes quantias de dinheiro a eles, muito pelo contrário. Por vezes, se não fosse por ela também trabalhar, poderiam ter passado grandes dificuldades, mas para eles, tudo que importava é que formavam uma equipe e quando as coisas apertavam, com muito amor, carinho e compreensão, tudo se ajeitava com o tempo. Sua amiga continuava falando sem parar, mas ela parecia não estar ouvindo mais nada. A emoção da surpresa tomou conta de seu ser de sua alma. Seu marido, seu querido e amado João Carlos havia se preocupado com ela mesmo antes de partir. Mesmo sabendo que não estaria presente naquele dia dos namorados ele quis que ela recebesse dele, seu ultimo buquê de rosas. Rose pediu para ver as flores e com um gesto quase mecanico, ela apontou para a mesa da cozinha.
Ela havia feito um lindo arranjo com as flores, no mesmo vaso em que ela colocava todas as flores que recebia de seu amor. Maravilhada com a beleza e delicadeza das flores, Rose a cumprimentou mais uma vez pela sorte que teve na vida, e apressada, disse que tinha que ir embora, afinal, tinha que preparar seu próprio jantar e mais tarde lavar toda a roupa suja do dia. As duas se abraçaram, Maria Alice agradeceu a Rose por ter se comprometido a lhe entregar as flores que seu amor havia encomendado. Rose saiu e Maria Alice fechou a porta atrás dela. Voltando-se em direção à cozinha, de longe ela podia avistar o vaso com as flores em cima da mesa. Uma luz incrível quase que celestial parecia estar iluminando as rosas. O perfume agora já havia tomado conta de toda a casa. Lentamente, ela caminhou até onde estava o vaso. Do lado dele, em cima da mesa, estava a embalagem em que as flores chegaram e só naquele momento, ela pode perceber que colado no papel havia um cartão. Tremula, ela abriu o envelope e nele, havia uma dedicatória de seu amor. João Carlos escreveu com a mesma caligrafia inconfundível uma pequena frase, mas que para ela representava tudo que ele foi em sua vida. “Para você sorrir e ficar feliz ao lembrar de mim meu amor, quando eu não estiver mais aqui". Um turbilhão de sensações e emoções a envolveu.
Um sentimento profundo de ser uma mulher realizada na vida e no amor se fez sentir em seu peito. Seu coração batendo mais forte, parecia entoar uma canção de amor com suas batidas. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo, não de tristeza, mas da mais pura alegria, Maria Alice compreendeu que mesmo que ele não estivesse mais ao seu lado fisicamente, estava presente em espírito e ele estaria para sempre com ela. O amor que os uniu na vida, não acabou nem mesmo após a morte dele. Era um amor infinito. Um daqueles de que se toma conhecimento somente nos contos de fadas. Mas ele existia e estava presente dentro dela. Dentro de seu coração, de sua alma. Um sentimento sólido e real. Presente e pronto para durar, até o fim dos tempos e ainda continuar a existir, muito além da eternidade...