Ela estava casada há oito anos, Vera morava numa casa nova, com uma piscina nos fundos, rodeada por um jardim maravilhoso, onde as mais belas flores enfeitavam seus finais de semana, nos quais ela descansava, esperando a chagada de seu primeiro filho.
Às vezes ela refletia sobre sua vida e achava que era uma mulher abençoada, pois em tão pouco tempo de casamento eles haviam conseguido trabalhando juntos, realizar vários sonhos e se sentia muito feliz, ou pelo menos, ela pensava que era feliz.
Algumas semanas antes do nascimento de seu filho, Vera e seu marido tiveram uma discussão sobre o relacionamento deles que partiu o mundo em que ela vivia em dois pedaços, o mesmo mundo onde ela acreditava ser feliz.
Ele disse em palavras claras e diretas que ficaria com ela por causa do bebe, mas que já não mais a amava, que não mais sentia por ela o mesmo que antes.
Vera não quis acreditar no que ouviu do homem que ela amava, ou pelo menos achava que sim, ela não queria perder seu casamento, resolveu se calar e a vida seguiu seu caminho.
O tempo passou e ele se afastou dela mais e mais e um dia, Vera resolveu questiona-lo sobre a situação que a deixava a cada vez mais inquieta e o que ela ouviu, foi algo que ela não esperava ouvir de forma alguma, principalmente, vindo daquele que ela acreditava ter por ela um amor verdadeiro.
Seu marido lhe disse que a cinco anos atrás, ele teve um caso com alguém que para ele foi muito especial e que já não sentia mais atração por ela da mesma forma que tinha quando se casaram.
Vera desesperada, pensando em seu bebe e em salvar seu casamento, disse a ele que perdoaria tudo e que faria qualquer coisa para que tudo voltasse a ser como era antes, como no começo de suas vidas a dois.
Na ultima semana antes do nascimento do bebe a vida dela se tornou uma verdadeira montanha russa, pois ela estava tão excitada com a chegada da criança, morta de medo de perder seu marido e pior, com um enorme sentimento de culpa, por achar que o causador de tudo que estava acontecendo em sua vida era seu próprio filho.
Marcelinho nasceu numa segunda feira do mês de março e ele era tão lindo, tão inocente, não tinha a menor idéia do pesadelo que estava acontecendo no mundo de sua mãe.
O bebe tinha apenas 6 semanas quando Vera descobriu a verdadeira razão pela qual seu marido havia se afastado dela, ela descobriu que ele não só tinha tido aquele caso que havia confessado, mas estava em um outro relacionamento e que este, estava durando desde o inicio de sua gravidez.
Naquele dia, Vera e Marcelinho foram embora de seu lar, deixaram para trás a casa nova com piscina nos fundos, o jardim tão lindo e florido e com eles apenas os cacos dos lindos sonhos de amor que ela havia tido quando conheceu seu marido, eles se mudaram para um pequeno apartamento do outro lado da cidade.
Vera chegou às profundezas de uma depressão que ela nem mesmo sabia que existia e experimentou o desespero de horas e horas de solidão na companhia de um recém nascido e a responsabilidade lhe trouxe um medo assustador.
Parentes e amigos vieram em seu socorro material, mas não puderam juntar e colar todos os cacos de seus despedaçados sonhos que ficaram espalhados pelo caminho.
Vera decidiu que seu bebe nunca iria vê-la chorar, coisa que ela fazia agora com freqüência, ela sempre encontrava para seu bebe um sorriso, mesmo que ele não existisse e assim, chorava escondido, longe de Marcelinho, que era apenas um anjo recém chegado a este mundo.
Já se havia passado três meses do nascimento de Marcelinho, Vera voltou a trabalhar e se via freqüentemente procurando um lugar para se esconder, pois as pessoas sempre perguntavam como iam as coisas e de alguma forma ela se sentia envergonhada por ter fracassado em seu casamento.
Certo dia, após a visita de seu marido e de uma discussão violenta, onde ele foi embora batendo a porta quando saiu, Vera chegou ao ponto mais fundo de sua depressão.
Marcelinho estava dormindo em seu berço e de repente ela se viu sentada no chão do banheiro, Vera estava curvada, abraçando seus joelhos e com a cabeça apoiada neles, enquanto as lágrimas fluíam livremente de seus olhos que já não mais tinham brilho, que eram embaçados e tristes, sem esperanças de ser feliz.
Naquele momento, Vera ouviu sua própria voz dizendo alto em bom tom que ela não queria mais viver e depois das palavras pronunciadas, o longo silencio que se seguiu, foi assustador.
Como sempre, Deus em toda a sua sabedoria e bondade, estava lá ao lado de Vera que após ficar sentada naquele chão frio por muito tempo, deixando as lagrimas correrem livremente, sentiu de repente, que algo de muito profundo se manifestou vindo de dentro dela mesma, trazendo consigo uma força, que ela mesma não sabia que possuía.
Vera se levantou do chão do banheiro, olhou se no espelho e pela primeira vez em toda sua vida, ela viu refletida nele, a imagem de uma Vera que ela não conhecia, ou talvez até mesmo e uma Vera que ela esqueceu que um dia existiu e decidiu que daquele momento em diante, ela não mais deixaria que seu ex-marido exercesse tanto poder sobre sua vida, não deixaria que ele afetasse sua vida de forma negativa e por conseqüência a de Marcelinho.
Naquela mesma tarde, Vera juntou as malas e foi com seu filho para casa de um de seus irmãos para passar o fim de semana e foi muito bom, pois entre sorrisos e piadas dos amigos, o tempo se passou e a vida aos poucos voltou a ter sentido em seu coração.
Na segunda feira, quando alguém lhe perguntava no trabalho como iam as “coisas”, sabendo o que realmente eles queriam dizer com isto, Vera nunca se sentiu tão forte e confiante na vida, respondia a todos que tudo estava muito bem e que a vida não poderia estar melhor para ela e seu filho.
Desde o dia em que se viu sentada naquele chão frio do banheiro a ponto de desistir da vida e tendo tido a interferência das mãos de Deus em sua cabeça confusa e sem senso de direção, Vera escolheu focar todas as suas forças e atenções em sua auto confiança e isto fez com que ela se concentrasse somente em pensamentos positivos e hoje ela nem pode acreditar no bem que isto fez para sua vida e a de seu filho.
Ela aprendeu que cometeu um erro ao basear sua identidade nos bens materiais que possuía e naquele homem, que ela achava ser seu amor, Vera aprendeu que ela mesma é responsável pela sua vida e pelo seu bem estar.
Vera é hoje uma mulher feliz, de bem com a vida e sempre diz aos amigos, que quando focamos nossas vidas nas vidas de outras pessoas e tentamos construir nosso mundo e felicidade em torno delas, não estamos realmente vivendo, estamos apenas sendo parasitas, existindo às custas das vidas dos outros.
Para viver verdadeiramente é preciso deixar livre o espírito que vive dentro de nós, para que ele possa conhecer sua própria magnitude, pois amar outra pessoa, não significa que devemos criar dependência dela para viver, muito menos cultivar em nossos corações o eterno medo de perder.
Para amar alguém, devemos nos libertar dos grilhões da dependência física e psicológica, do estado hipnótico induzido e amar a nós mesmos em primeiro lugar, deixando nossos espíritos livres para voar, bem alto, muito além das nuvens, além do céu, além das estrelas...