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Contos-->TUDO DE QUE ME LEMBRO, É DO AMOR... -- 27/03/2009 - 23:48 (Jose Araujo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Há longo tempo atrás, eu conheci Jorge, um arquiteto que amava seu trabalho e deste amor pelo que fazia seu sucesso era constante em todos os projetos que desenvolvia e seus clientes não se cansavam de elogia-lo e em conseqüência as indicações para novos trabalhos se sucediam.

Ele era casado com uma professora de dança e a vida era financeiramente segura, alem do que a paz sempre reinou em seu lar, onde os dois cuidavam de seus filhos fazendo tudo que podiam para que eles fossem bem educados e bem tratados o tempo todo.

Certa noite, seu filho mais velho se queixou de uma dor no peito que dizia ser muito forte e eles acharam que era por causa do tempo que havia mudado abruptamente de quente para frio e como o garoto tinha bronquite, acreditavam que eram reflexos da doença e com os cuidados de sempre ele iria melhorar.

Naquela mesma noite o garoto morreu, tendo sido vitima de um ataque do coração e a vida de Jorge, começou a virar pelo avesso.

Quando Jorge soube através dos médicos que se o garoto tivesse sido levado a tempo ao hospital, talvez ele pudesse ter sido salvo, ele entrou em desespero, sendo que o remorso e o sentimento de culpa pareciam estar corroendo seu coração.

Aos poucos a apatia e a falta de vontade de reagir e continuar lutando o levou à bebida, na tentativa desesperada de um auxilio para esquecer a fatalidade que havia desabado sobre sua cabeça.

Não muito tempo depois Jorge já havia se tornado um alcoólatra e a bebida o levou ao fundo do abismo rapidamente.

Começou por perder todos os clientes, pois seus trabalhos não eram mais os mesmos, não cumpria os prazos e sempre cometia erros primários, que causavam prejuízos financeiros com os quais ele como responsável pelas obras tinha que arcar.

Chegou numa determinada época onde ele teve que começar a vender seus bens para sobreviver e alimentar sua família e como todos já antecipavam logo ele perdeu tudo que tinha, inclusive sua esposa que para arrematar todas as desgraças em sua vida, o abandonou, deixando-o com seu filho menor que na época tinha 6 anos de idade.

Falido, sem dinheiro, sem casa para morar, sem esposa, alcoólatra, Jorge teve que morar num quarto de pensão com seu filho e a luta pela sobrevivência foi árdua, pois sem apoio de ninguém, sem afeto, sem cuidados, ele só queria beber para fugir de sua triste realidade.

Nos momentos de sobriedade ele sempre fazia um bico para conseguir dinheiro para pagar a pensão e comprar alimentos para seu filho e para ele e assim o tempo foi passando, até que um dia, quando já crescido o rapaz saiu da companhia do pai e foi tentar a vida no Rio de Janeiro, deixando-o em Jacareí, interior de São Paulo, onde ele morreu sozinho, tendo sido encontrado dias após sua morte que havia sido causada por um coma alcoólico.

Quando eu ouvi que Jorge havia morrido nestas condições, minha reação imediata foi imaginar que grande fracasso ele havia sido como homem, que maneira mais inútil de viver a vida, sem deixar nada para o filho, se lhe garantir os estudos, um futuro melhor.

Na minha mente ele não deveria ter nascido, pois não faria falta a ninguém uma vez que não havia feito nada de bom na vida, deixando um rastro de vergonha e tristeza pelo seu caminho.

Pouco tempo depois do enterro de Jorge, seu filho Caio chegou a Jacareí, procurando-o para leva-lo para morar com ele em sua casa no Rio de Janeiro, mas chegou tarde demais.

Alguns meses depois, Caio voltou de mudança para Jacareí com esposa e filhos, havia se casado e vivia feliz com a família que nunca pode apresentar ao pai.

Observando o comportamento de Caio com a família, sempre tão bom, tão atencioso, tão carinhoso, dando e recebendo amor da esposa e filhos eu me questionava sempre sobre como poderia ser possível, o filho de um homem fracassado como Jorge, ter se tornado um ser humano de tamanha luz.

Desde os primeiros dias na cidade, Caio ganhou a amizade de todos os moradores do bairro para onde se mudou e não havia ninguém que não se encantasse com sua personalidade e seu coração de ouro.

Certo dia, nos encontramos casualmente e fomos tomar um café numa lanchonete perto da rodoviária da cidade e entre uma conversa e outra, não me contive e tomei coragem para perguntar-lhe como podia ele ter se tornado um homem tão bom, tão cativante, tão especial, tendo um pai que a cidade inteira conheceu como um fracassado na vida, um zero à esquerda.

Caio, sentado à minha frente, pareceu por alguns instantes viajar sem sair do lugar e olhando em meus olhos, disse com sua voz calma e compassada, transmitindo nela uma paz e confiança que me envolveu o coração:

Sabe de uma coisa meu amigo?

Desde que eu me entendi por gente, até meus 18 anos, quando sai do lado de meu pai e fui embora tentar um futuro melhor, todas as noites ele vinha até minha cama, verificava se eu estava coberto, passava sua mão em meus cabelos, me dava um beijo no rosto e dizia:

“Durma com os anjos e tenha uma boa noite meu amor!”

“Eu te amo filho!”

Muitas e muitas vezes, eu fingia estar dormindo e ficava ansiosamente esperando que ele viesse me beijar, eu queria ouvir ele me dizer que me amava, era como se meu coração esperasse sempre por aquele momento e ai então eu dormia tranqüilo, mesmo que meu dia não tivesse sido perfeito.

Acho que isto responde à sua pergunta meu amigo...

Sobre meu velho pai, tudo de que me lembro, é do amor!

Não pude me conter, lágrimas rolaram pela minha face, pois eu compreendi naquele instante o quanto eu havia sido um tolo ao julgar Jorge como um fracassado, como um inútil, que não deixou nenhuma contribuição a ninguém neste mundo.

Ele realmente não havia deixado nenhum bem material ou financeiro, mas ele havia sido um pai gentil e amoroso para com seu filho, deixando neste mundo, o ser humano mais gentil, centrado, educado, carinhoso que eu conheci em toda a minha vida.

Não temos base para julgar ninguém neste mundo, pois muitas vezes as pessoas que julgamos mal, podem ser muito melhores do que nós mesmos, sob muitos aspectos.

Defeitos, fraquezas, todos temos, ninguém é perfeito, o que realmente importa, são as virtudes para as quais não voltamos nossa atenção, só enxergamos o superficial, sem nos preocuparmos em conhecer o interior de nossos semelhantes.

Jorge foi vítima da ignorância, da maldade e da rejeição das pessoas, nunca teve ninguém que lhe estendesse as mãos, que tentasse ajuda-lo a sair do abismo em que havia caído, mas nunca deixou de ser pai que seu filho Caio sempre venerou, aquele que todas as noites, o beijava e dizia que o amava...

Sofrimentos são apagados de nossas memórias, quando tudo de que nos lembramos, é do amor!

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