Usina de Letras
Usina de Letras
67 usuários online

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 63502 )
Cartas ( 21356)
Contos (13308)
Cordel (10364)
Crônicas (22588)
Discursos (3250)
Ensaios - (10775)
Erótico (13602)
Frases (51999)
Humor (20212)
Infantil (5650)
Infanto Juvenil (5008)
Letras de Música (5465)
Peça de Teatro (1387)
Poesias (141399)
Redação (3380)
Roteiro de Filme ou Novela (1065)
Teses / Monologos (2444)
Textos Jurídicos (1975)
Textos Religiosos/Sermões (6396)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Contos-->O TIRO QUE SAIU PELA CULATRA -- 16/01/2009 - 01:13 (Vera Celms) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Gilmar era uma pessoa estranha. Rancoroso, cismado, tinha mania de perseguição.

Todo mundo com quem falava tinha sempre uma palavra recheada de segundas intenções, segundo ele. Ao telefone não era diferente. Conversava com alguém ao telefone e olhava para você diante dele e tinha no olhar uma expressão de raiva. Falava como se dissesse a você o quanto o seu interlocutor estava sendo injusto com ele. Era um tipo estranho.

Tinha raiva no olhar, ressentimento mesmo. O tom de sua voz era áspero e desafiador. Falava depressa como se alguém fosse cortar seu discurso, demonstrava pressa. Falava atropelando e comumente até perdia o fôlego no final das frases, sua voz era um tantinho esganiçada.

As pessoas não tinham muita simpatia por esta figura e era normal fugirem dele. Na geladeira do escritório, bastava que Gilmar deixasse alguma coisa para depois e quando voltava não achava mais.

Era um horror, de um refrigerante a um almoço completo, tudo sumia. Era desagradável, claro, ninguém gosta de “sustentar” marmanjo.

Entretanto, Gilmar que não se conformava com tanta invasão, prometeu, jurou que se vingaria. Alguns sugeriam que colocasse laxativo nos alimentos para que o culpado se denunciasse, outros mais cordatos sugeriam que não deixasse mais nada na geladeira, e ele não aceitava. Afinal, todos tem direito de utilização das instalações da empresa e isto é incontestável.

Só que Gilmar não se conformava com a situação e prometeu algo mais contundente. Comentou com um amigo o que pretendia e a reação do amigo não foi do seu agrado.

-Vou colocar droga no que deixar na geladeira a partir de agora.
-Faz isso não!
-como não, então vou continuar comprando as coisas para os outros? Não é justo, todos ganham o mesmo por aqui. Compro pra mim e os outros é que comem?
-já pensou se alguém ingere a droga e passa mal ou morre aqui? Você vai conseguir conviver com essa culpa?
-e não? Ele não tem de conviver com o fato de ser ladrão?
-mas é diferente!
-diferente nada, se ele rouba vai sofrer um susto.
-imagina se fosse eu que ingerisse uma droga dessas, sou hipertenso, asmático, tenho antecedentes cardíacos na família e ainda esse problema de vesícula, poderia eu morrer.

Nesse momento, com um olhar bem acusativo Gilmar retrucou com o amigo:
- porque? Acaso é você quem está roubando???
-claro que não, Gilmar, sem comentários...

Manoel neste momento bastante ofendido, pois estava somente usando o seu histórico de saúde para elucidar o assunto, acabou de matar o assunto ali mesmo.
Gilmar nunca pensou que esse alguém, ingerindo o ‘material do roubo’ pudesse talvez oferecer a alguém que por acaso aceitasse e sofresse, sem nada saber do roubo, as conseqüências junto com o ladrão. Sua isenção com relação aos outros e a esse assunto era impressionante.

De fato, no lugar onde morava, Gilmar conhecia a todos, inclusive o pessoal do ‘movimento’. Numa tarde, chegou mais cedo do serviço em casa e procurou os tais amigos. Comprou uma certa quantidade de cocaína e no dia seguinte, ao chegar no escritório, colocou no lugar de sempre uma garrafa de suco com o tal produto dentro da geladeira.

Naquele dia teve de ir ao médico e saiu mais cedo sendo dispensado do serviço por 5 dias por uma conjuntivite. Na verdade, voltou após uma semana pois emendou o afastamento da dispensa com o final de semana.

Chegou no escritório, após o retorno da licença médica, acalorado e cheio de sede. Foi a geladeira para guardar a comida que levara para o almoço e encontrou no seu cantinho da geladeira uma garrafa de suco de goiaba que tanto gosta e ali mesmo matou a sua sede.

Não demorou muito e começou a sentir tontura e uma certa taquicardia e começou a suar frio. Perdeu os sentidos. Foi levado às pressas para o hospital e foi diagnosticado um principio de overdose.

Ficou internado por 15 dias. Passou muito mal durante esse tempo e após ter saído do hospital recebeu a visita do amigo Manoel em sua residência que o lembrou de sua promessa de vingança do ladrão de geladeira.

Gilmar ficou branco ao relembrar o que havia prometido. Voltou ao escritório temeroso dias depois e encontrou a sua demissão pronta. Fora demitido por justa causa. Ficou de fato constatado e provado que ele havia ingerido drogas em grande quantidade e durante o horário de trabalho.

Agora, ele que se inflamava tanto em que lhe roubassem coisinhas da geladeira não teria muito o que ser roubado agora, a não ser no seu drama de consciência. Afinal este foi um tiro que saiu pela culatra.

Valeu? Responsabilidade é um assunto de todos nós. Afinal aqueles pequenos roubos dos quais era vitima não eram nem de longe comparados ao que passou ou, que podia ter causado a outras pessoas, fossem inocentes ou não. Nada justifica a inconseqüência da irresponsabilidade.
Comentarios
O que você achou deste texto?     Nome:     Mail:    
Comente: 
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui