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Contos-->Fernando e Lívia -- 06/04/2001 - 07:39 (Fernando Borges dos Santos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
“A lua inteira agora é um manto negro
Ouvindo as vozes no meu rádio
São quatro ciclos no escuro deserto do céu
Quero um machado pra quebrar o gelo
Quero acordar do sonho agora mesmo
Quero uma chance de tentar viver sem dor.”
(O astronauta de mármore- Nenhum de nós)



“Fernando e Lívia”

No alto de uma colina, o garoto chorava, soluçava, desesperado com a cabeça entre os joelhos e os braços envoltos nas pernas. O mar lá embaixo, parecia o chamar com o som das ondas. Ele ,como muitas outras vezes que esteve em lugares altos, sentia tonturas e ao mesmo tempo, sentia que poderia voar se saltasse do alto daquele lugar.
Tudo parecia estar errado. Seus sonhos tinham perdido a força. Existem momentos, em que nossos problemas se juntam, e parecem se transformar em um grande monstro. A única maneira de derrubar este monstro, é desmancha-lo novamente em pequenos problemas, e resolve-los um a um.
Agora, a vida sem sentido, trazia uma certa inspiração a ele. Uma certa poesia. Vinham frases lindas, palavras condensadas, em meio a muita dor, como os grandes poetas. Ele sentia-se às vezes, Goethe, que no auge do sofrimento, escrevia suas melhores poesias. Além das palavras, o céu, o azul, o mar todo que se revoltava diante dele, parecia com a sua alma, que formava ondas enormes e quebrava logo após, em toda sua ira. Isso, lhe fazia criar na mente, grandes pinturas.
De um estalo, se levantou. Desceu correndo a colina em poucos segundos, pulou as pedras, desesperado para não se esquecer das poesias que formavam-se sem parar na sua mente. Era o auge da inspiração. Passavam grandes cenas a serem descritas, grandes sóis e grandes luzes azuis como um filme maravilhoso.
Correu pelas ruas com sua bicicleta, enfrentando o vento e a chuva, como se fossem seus grandes problemas. O “walkman” ligado no volume máximo, tocava músicas lindas, e todas o lembravam de sua dor.
Entrou em casa derrubando a bicicleta, pulando o portão, e trancando a porta do quarto. Subiu no banquinho, pegou as tintas de cima da prateleira, rasgou um pedaço de tecido, e começou a desenhar. Foram duas horas de traços violentos na tela, com o som destruindo seus tímpanos, mas com toda a sua dor sendo expressada.
Depois deste tempo, tinha feito um anjo voando sobre o mar, decolando da colina perto da praia. O mar lá embaixo, as pedras onde quebravam as ondas, o céu enfurecido com nuvens negras e pitadas de vermelho do sol que se punha no final de tarde. Perfeita.


A música o fazia chorar ainda sem parar.
Escreveu algumas palavras numa folha de papel de pão com sua lapiseira e dormiu. Profundamente e sem sonhos.
A música continuou tocando até de manhã.
Quando acordou, sentia como se alguma força o tivesse dominado no dia anterior, naquele auge de inspiração, parecia que não era o corpo dele que pintava. Olhou em volta. Seu quarto muito bagunçado. As tintas ainda abertas, papéis espalhados pelo chão, esboços, pincéis, tudo formava uma grande foto. Sentiu de novo que era um verdadeiro artista. Tirou uma foto de tudo aquilo e descansou mais um quarto de hora.
Quando saiu ,a chuva do dia anterior nem ameaçava. Um grande sol brilhava no céu e ele se sentia desprotegido naquele calor. A chuva era o lugar dele.



No dia que se passou, tinha tido ele, a grande chance de expor um quadro seu na pinacoteca. Parecia um grande momento da sua vida. Algo que o marcaria para sempre .Então, fazia questão de que as grandes pessoas de sua vida estivessem ao seu lado. Principalmente a mulher que mais admirava no mundo.
Porém, não podia falar com ela, nem ao menos podia ligar para avisa-la, pois seus pais o odiavam pela sua natureza. Chamou então seu melhor amigo para acompanhá-lo neste grande acontecimento, porém , ele preferiu ir ao cinema assistir a um desses filmes de terror idiota, que parece mais Ter sido feito por um imbecil do que por um cineasta. Isso abalou eternamente a amizade entre eles. “Tudo bem” pensou ele, minha mãe, grande arquiteta, apreciadora da arte e da poesia, me fará grande companhia, e dará a importância que merece a minha estréia no mundo dos conhecedores da pintura. Enganava-se mais uma vez, porque um concurso de textos da sua faculdade, aconteceria nesta mesma noite, e seu amigo de classe poderia ser o primeiro colocado. Não que isso não tivesse importância, mas não era como a estréia na pinacoteca. E o mais doloroso, é que ele ouviu a grande vitória do colega de classe dela, contada durante uma mês para todos da casa. E sua estréia, ficou tão obsoleta, que até hoje, ninguém mais sabe que aconteceu. Nem ao menos perguntaram como foi, ou se teve algum prestígio. O que talvez fosse pior, pois esta estréia, foi um leilão de pinturas que haveria, e vários artistas da cidade doaram obras para a compra de um piano de calda lindíssimo.
Porém, as pessoas que participaram deste leilão, eram velhos insensatos, que não tinham o menor sentimento. A menor idéia do que se passa na alma de um grande artista. Estavam lá avaliando nomes e molduras e não pinturas. Isso o revoltou, pois chegar de chinelo e bermuda no meio dos “engravatados” artistas da cidade, foi um sinal de desprezo e não de sinceridade para os que lá estavam.
Sua pintura não obteve o preço mínimo oferecido no leilão porque era um recorte de tecido sem moldura e isso era repugnante para aqueles velhos com suas damas de vidro ricas. Ele tinha certeza de que se aparecesse um “Dalí” sem moldura, não haveria o menor interesse daquele público maldito.
Ele sentiu uma enorme dor, um desprezo total por aquilo que era sua vida. Sua grande contribuição para a humanidade. E foi embora sem saber como acabaria tudo aquilo. Foi uma grande decepção. E sentia-se totalmente abandonado pelo mundo. Totalmente descrente no mundo das artes que tanto admirava.
Aquela pinacoteca era visitada por ele quase todas as semanas, em todas as novas exposições e parecia o lugar perfeito para um grande começo. Era quase sua casa, e agora era um antro de múmias insensíveis.

Precisava agora, contar tudo para seu grande amor. Só ela seria capaz de entender a dor que sentia e de dar o verdadeiro valor ao que havia conquistado. “só um gênio é capaz de entender o outro”.

Passou por um sebo, comprou um grande livro, e foi tentar encontra-la. Só de sentir aquela obra entre os dedos, sentia-se bem. Sentia-se culto, conhecedor. Era muito bom. As vezes deixava alguns livros ao lado da cama, só para sentir que um grande conhecimento poderia invadir sua mente assim que desejasse.
Havia comprado “Espumas Flutuantes”, de Castro Alves. Sem dúvida um grande livro.
Hoje, estaria no cinema um novo filme, “Grandes Esperanças”, e ele tinha certeza de que a encontraria lá. Por isso amavam-se tanto. Tinham algo inexplicável, que os ligava. Eles se conheciam muito bem. Ele tinha uma alma muito pura e ela sofria de um câncer, que a fazia sentir o que as pessoas a sua volta sentiam. Eram sentimentos muito fortes.
Lá estava ela. Linda. Com um vestido azul, indiano, com manchas brancas que pareciam nuvens. Ela, era como se flutuasse sobre a terra quando o vento soprava perto. Seus olhos amarelos, eram tão penetrantes que revelavam um mundo dentro deles. E seu olhar inteligente, davam razão a seus passos firmes no chão.
Hoje deviam se encontrar. Podiam até sentir que seria um lindo filme.
Se olharam de longe. Se encontraram. Era como pessoas que não se viam a anos. As lágrimas corriam. Eles sem perceber corriam. E se tocaram...
Os ventos sopraram pro norte. O sol já perdia a força. Tudo foi ofuscado pela luz própria das duas grandes estrelas. O dia anterior tinha sido muito doloroso. Ele contou tudo o que se lembrava. A pintura, as poesias, a colina, o estado em que estava o mar. E ela imóvel. Sem palavras para descrever como tinha sentido cada passo dele. Ela podia estar com ele o tempo todo. Mesmo quando não podiam se ver. Era só fecharem os olhos e estavam juntos.
Mas mesmo assim eles sentiam falta de se olhar nos olhos, dos longos abraços, até das lágrimas que se refugiavam nos ombros um do outro.
Enquanto conversavam, o céu um pouco escurecido , resolveram ver o filme. Duas horas de belas imagens, grandes acontecimentos, muitas pinturas e várias idéias novas.
Saíram do cinema em completo silêncio. As cenas e a história dispensavam comentários. Parecia a própria história deles, contada por um homem que vivia do outro lado do planeta. E se foram assim. Em silêncio até se despedirem.
Como amavam aquele silêncio onde só eles podiam se ouvir. Só eles sabiam o que se passava. As mentes deles pareciam chocar-se e soltar raios na direção de um ao outro. Era tão belo. Tão profundo. Apenas sentir. Aquele silêncio era melhor que mil palavras. Afinal, eles podiam sentir o chão, ouvir todos os sons cada um de uma vez nas ruas antes apenas barulhentas. Tudo agora era como música. Podiam sentir a harmonia do mundo, algo que pulsava no fundo da terra. Era o gosto da vida. Era como se fossem um só conversando com a mente, decidindo para onde ir, arrancando os sapatos, enxugando o suor da testa.
Foram sem rumo. Sem intenção na direção do cais. Andaram horas descalços por lá, vendo os homens fortes que trabalhavam carregando enormes sacos de açúcar.
Voltaram pra casa já falando pelas ruas ,comentando os detalhes do porto e de sua rica história. Foi um dia perfeito.



No dia seguinte, ainda sentia a leveza do anterior. Fazia tudo muito bem, estava calmo, estava v i v o. Não sabia ainda o que iria fazer, mas estava pensando em algo muito bom. Já sabia que hoje não encontraria ela, então, sentou na sua cama, que como diria John Lennon: “o que você não pode fazer na cama, não deve ser tão bom”, pegou um livro- Memória Viva do Regime Militar/ Ronaldo Costa Couto- e continuou a leitura que parara dias antes.
Quando já não tinha mais posição para ler, já estava cansado de ficar deitado, levantou-se de repente e foi procurar alguma coisa mas agitada para fazer. Lembrou da prancha jogada no fundo do quintal, um enorme pranchão. Desceu ,trocou de roupas, tirou o chinelo e foi correndo até a praia com a prancha embaixo do braço.
Ainda era cedo, dez ou onze horas e o mar estava vazio. Como não tinha muita experiência, tinha medo de ficar na água sozinho. Mesmo assim entrou no mar, afinal não perderia seu tempo voltando para casa agora e sabia que precisava vencer esse medo.
Surfou sozinho durante duas horas até aparecerem outros garotos na praia. Pegou mais uma ou duas ondas e foi embora.
Precisava fazer alguma coisa, precisava pensar em algo muito bom, em algo que o ocupasse durante todo aquele dia para não voltar a sofrer aquela solidão. Ele sabia que uma hora sem fazer nada, o destruiria de saudade. Esses dias eram difíceis, porque a cada momento em que queria esquecer, pensava mais nela e sentia mais e mais dor.
Entrou em casa, guardou a prancha no lugar e subiu para o seu quarto. Ligou o som, colocou um Cd do Marcelo Bonfá e ficou viajando durante algum tempo. Pensou em várias histórias...
Um menino que podia voar, uma menina que morava no meio de uma floresta, seres alados como cavalos ou homens e mulheres, uma nova idéia do mundo, um lugar onde todos podiam voar. Era como os sonhos de uma pessoa, mas ele não precisava dormir para pensar em tudo aquilo. Resolveu escrever um pouco, para extravasar todas aquelas imagens que vinham a sua cabeça.
Trechos do que escreveu:

Eu quero correr
E só correr
Correr livre com asas brancas de Anjo
Ao seu lado
Livre, solto, leve, lindo
Eu quero viver
Eu quero correr e correr
E que ninguém nos alcance
Eu não quero que me alcancem
Que me ajudem nunca
Nunca cheguem perto da Lívia
Eu não queria te deixar assim
Eu não queria que você visse o mundo feio
As crianças pobres, mortas e sorridentes

Levantou-se. Pensou em ligar para uns amigos, mas não. Não era isso o que queria. Abriu sua pasta de músicas, lembrou-se de algumas outras mais antigas e passou o restou da sua tarde tocando violão e cantando. Quantas coisas haviam nas entrelinhas de suas músicas. Quanto sentimento havia em sua voz. Podiam ouvi-lo da calçada, sem saber quem cantava. Tão lindas, tão completas, tão interpretadas a seu gosto. Gostava muito de tocar músicas feitas para as mulheres como Cássia Eller, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan e outras também de bandas como Legião Urbana, Cazuza, Capital Inicial, fora as internacionais. Pearl Jam, Pink Floyd, Live, Days of the New...
...E nisso se resumiu seu dia.


Já tinham se passado quatro dias da última vez que tinham se encontrado. Ele não aguentava mais aquela dor intensa, e pior, saber que ela também sofria. Isso era o que mais destruía ele. Então, começou a mandar mensagens para ela. Desesperado. Não podia mais esperar. Não podia mais viver assim. Já se sentia sujo, barbado, doente. Esperava ansioso por algum sinal dela. Escreveu:
eu só quero ficar em silêncio
de frente pra você ou abraçado
em completo silêncio
só sentindo...
cara, eu não consigo viver tanto tempo longe de você
estou sendo muito sincero...eu preciso...
você é uma parte muito grande de mim
porra, eu te amo!!!
eu quero viver com você!!!
não importa mais como, quando, (...)
não importa mais nada além de você.
desculpa pela agressividade, mas estamos passando por coisas que eu jamais quis que acontecesse.
esses desencontros, meu Deus, porque? porque?
eu não queria que você ficasse com raiva, com ódio, ou sentindo dores tão profundas...
nossa, a gente tá muito distante...
nós não podemos nos perder
já existe tão pouco as pessoas mais elevadas
nós não podemos nos perder
estamos correndo em direções contrárias ,sabendo o caminho certo...
eu quero viver de verdade, eu quero viver de verdade.
nós precisamos um do outro porque sabemos que juntos somos muito mais nós mesmos
somos tão parecidos
vivemos em harmonia tão boa...tão perfeita, nós não podemos nos entregar agora
porque não somos comuns, não somos como os outros
nós somos um só e diferentes demais pra ficar longe...
por favor, me escuta...
...ouça o que eu digo, não ouça ninguém...
eu quero ouvir tudo o que você tem pra dizer.
eu prefiro que você lave a alma na minha frente
do que fique presa aí, sem eu te ouvir...
eu quero ouvir tudo...
putz, foi tão lindo a gente escolher os incensos
nós podendo sair um pouco
sentir uma pequena pitada do gosto da liberdade...
eu queria viajar sem rumo contigo
você sabe que se fossemos só nós dois...
meu amor...meu amor...seria tão perfeito...
eu começo a chorar só de pensar em tudo o que podemos perder se estivermos, longe
lembra da nossa viajem pra Santiago de Compostela...
de nós dois...viajando...tocando...fotografando tudo
precisamos de mais tempo juntos e só estamos nos afastando...porque? porque ? porque? eu quero você
só você...eu renuncio o resto do mundo e todas as outras pessoas pra viver contigo no meio do mato.
é sério, nós podíamos achar um lugar em que pudéssemos
viver sem vidros, sem latas, sem embalagens de pessoas ou de produtos...
nós podemos.
eu acredito na sua força
porque você tem mais do que imagina
você pode mandar o mundo tudo pro espaço
revolucionar toda essa porcaria
eu não quero perder você...
por favor, por favor...
acredita em você...

Esperou. Como não tinha nenhuma resposta, resolveu desaparecer por algumas horas. Já era noite. Umas dez ou onze horas. Foi para o pier de pedras que havia na praia do Itararé e ficou lá até uma ou duas da manhã olhando o mar. O que fazer? Como poderia resolver tudo isso? Como poderia tirá-la de casa e viver com ela para sempre? Eles bem podiam viver de suas pinturas, dos trabalhos e das esculturas dela, da música dele. Sem saber o que fazer, voltou para sua casa andando bem devagar. Pensando no que poderia fazer.
As três horas da manhã entrou em casa. Foi até a cozinha, tomou um copo d’água, subiu as escadas sonolento, e partiu para o quarto.









Ela soluçava sem parar. Como chorava. Tinha se decidido pela vida. Estava lá agora. Malas, roupas, tintas, livros. Tudo. Ela estava lá. Dentro do seu quarto, com tudo que lhe pertencia, pronta para começar a vida mais uma vez. A porta daquele quarto, iria parir duas novas pessoas. Ele não podia acreditar. Simplesmente se abraçaram e dormiram juntos pela primeira vez.

No dia seguinte, logo no café, eles começaram a conversar. Sem entrar em grandes detalhes, ela lhe explicou o que havia acontecido. Uma briga com os pais. Ela já não aguentava mais ficar “acorrentada” pelas pressões da própria casa. Sentou-se para conversar seriamente com sua mãe. Foi indo aos poucos, contando o que se passava, o que estava sentindo, o que realmente queria fazer de sua própria vida. Não esperava uma grande compreensão, mas que ao menos entendessem um pouco do que era a vida para ela. Não apenas arrumar um emprego, um maldito marido incompreensivo e “macho”. Ela queria fazer algo que gostasse, mesmo que não ficasse rica, ela só queria poder comer, viver num lugar claro, com o mínimo que precisasse. Mas isso era um absurdo para sua mãe. E mais ainda para seu pai que acabara de chegar. Não dava mais. Ela já não podia mais falar. Agora eram eles quem falavam, aliás, gritavam, gritavam! Isso a deixava fora de controle. Ela se sentiu ameaçada. Eles gritavam mais. Ela tentou se defender com uma palavra, mas nem foi ouvida. Mandaram-na calar a boca novamente. Então de repente ela se levantou da cadeira e com toda calma que não sabia nem de onde tirara, andou até seu quarto. Quando foi fechar a porta, seu pai resolveu continuar e segurou a porta machucando um pouco o braço dela. Ela se soltou olhando fixamente nos olhos dele e ele de repente parou. Ficaram todos em silêncio. Parece que alguma coisa os impedia de falar. Aquela calma dela. Aqueles passos vagarosos e todo aquele controle da mente dela, de repente passou a assustá-los. Ela não podia mais viver ali.

Depois de mais algumas lágrimas, ele levantou a cabeça dela, olhou durante algum tempo bem nos seus olhos, e sorriu. Eles estavam juntos. Estavam REALMENTE livres. Ela era muito amada pela mãe dele. Elas tinham gostos e outras semelhanças incríveis. Amavam os mesmos escritores, os mesmos músicos, os mesmos pintores... Agora, mais do que nunca, eram um só.
Haviam passado o dia todo no quarto e a mãe dele foi bater a porta quando escureceu para desejar-lhes boa noite. Porém, eles não estavam lá. No lugar de todas as coisas que eles amavam e eles mesmos, ela encontrou um bilhete.


“Mãe,
Vou chorar sem medo
Vou lembrar do tempo
de onde eu via
um mundo azul.
Estamos bem.
Bem no meio da floresta, até um dia.
Nós amamos você.
Adeus
Fernando e Lívia”




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Fernando Borges dos Santos
Santos 10/01/2001













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