Prezado João
Antes de mais, estou-lhe grato por prontamente ter correspondido ao meu apelo, informando-me e esclarecendo-me sobre a dúvida que se me punha quanto ao tratamento por "tu-e-você" que a maioria dos brasileiros utiliza ao mesmo tempo numa só frase. Confesso-lhe que até considero bastante engraçada a mistura e por isso presumia que, para bem me exprimir em português do Brasil, teria, por exemplo, de conceber assim uma quadra:
Partiste e me deixaste à mercê
Da dúvida de sequer compreender
Porque terei eu de te esquecer
Mas nunca mais esquecerei você.
De resto, creia João, respeito com idêntica deferência intelectual quem sabe e quem não sabe. Abomino até que dum e doutro lado exista a intencionalidade de humilhar e rebaixar a personalidade. Diacho, tanto o que sabe como o que não sabe têm a sua beleza própria. Também, em ambas as partes, não posso com aqueles que se embuçam em exagerada falsa modéstia.
Aleixo não sabia escrever
E no entanto a sua expressão
Arranhava os céus à imensidão
Ou os negros infernos do saber.
Um abraço sincero e amigo.
António Torre da Guia
O Lusineiro |