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Artigos-->TUFÕES E SUAS CONSEQUÊNCIAS SOBRE O JAPÃO -- 17/02/2026 - 18:47 (LUIZ CARLOS LESSA VINHOLES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

TUFÕES E SUAS CONSEQUÊNCIAS SOBRE O JAPÃO

L. C. Vinholes

2026.02.17

Para mim, o dia 12 de setembro de 1959 se passou em um período que nem era mais o da bolsa de estudos que me havia sido oferecida pelo Ministério da Educação do Japão e não era ainda aquele no qual eu passaria a ser um funcionário da Comissão de Compras de Tokyo (CCT), instituição do governo brasileiro, responsável por acompanhar e zelar por tudo que dissesse respeito às compras da siderúrgica que o Brasil compraria do Japão, a futura Usiminas de Ipatinga (MG). Nesse período vazio, de muita expectativa, eu estava providenciando a mudança do meu visto, regulamentando minha estada no Japão, e aproveitando meu tempo livre para dar aulas de português para as senhoras[i] dos economistas e técnicos que, em breve, passariam a residir em Minas, como responsáveis, do lado japonês, pela montagem e funcionamento do citado projeto.

Uma das oportunidades que tive foi de ser convidado para ser locutor do programa que a Rádio Japão (NHK) transmitia para o Brasil. Fui informado que podia escolher qualquer assunto em que estivesse envolvido e que interessasse aos japoneses emigrados.

Sugeri e foi aceito o tema de minhas viagens como membro da CCT, especialmente aquela a Nagoya, enfrentando a destruição causada pelos tufões. Atendendo ao meu pedido, me foi adiantada uma que planilha em inglês com registro dos eventos climáticos em diversas regiões do país e os resultantes dos estragos e preocupações que haviam causado.

Depois de alguns dias alinhavando o histórico da viagem a trabalho à Nagoya e arredores, intermeado com dados do que se passara em outras regiões, vi aprovado o que ficou registrado e que, na data acima, foi por mim lido aos ouvintes do Brasil.

O Japão e seus tufões

Em virtude da posição geográfica em que se encontra, o Japão é batido anualmente, por uma série de tufões que, em muito, alteram o ritmo normal das atividades humanas neste país. Em geral a parte mais atingida é aquela do sul, as ilhas de Okinawa e as grandes ilhas de Kyushu e Shikoku. Entretanto, não são poucas as vezes em que até mesmo Honshu, parte central do Japão e Hokkaido, a grande ilha do norte, sofre danos incalculáveis.

 

No ano passado[ii] por ocasião de um passeio à península de Izu estivemos[iii] no forte Tufão Ida que roubou a vida de 938 pessoas, causando prejuízos estimados em 20 bilhões de iene[iv], e tivemos oportunidade de sentir, em pelo próprio, esta experiência terrível.

Destruição e danos humanos

Este ano, por circunstâncias profissionais, viajamos para Kansai pouco depois do Tufão nº 16, Tufão Vera, hoje comumente chamado Tufão “Ise Bay”, Bahia de Ise, em virtude dos incalculáveis, não imagináveis e irreparáveis danos por ele causados nas zonas que cercam esta baia, principalmente as prefeituras de Aichi, Mie e Gifu e, em especial modo, à cidade de Nagoya, onde passamos o primeiro domingo deste mês.

Na última vez que lá estivemos, isso há dois meses, comentávamos numa roda de amigos, o simpático ambiente da cidade, seu traçado, suas ruas largas, seus prédios modernos, enfim, sua recuperação marcante desde o término da II Segunda Grande Guerra. E não esquecíamos também a importância da mesma no comércio, na indústria e economia nacionais.Quando da nossa meninice, vaias vezes chuvas e ventos fortes assoitaram o sul da América Latina atingindo de manei violenta parte do Brasil, Argentina e Uruguai. Foi marcante a impressão que tivemos e no nosso subconsciente ficou gravada de tal modo que ainda hoje, lembramos perfeitamente os flagelados e a miséria dos mesmos.

O que vimos em Nagoya, entretanto, superou a todo que podíamos imaginar de terrível e de possível existir como sofrimento humano.

 

Vendo as casas destruídas, tivemos a impressão de que mãos poderosas, de palmas enormes, incrivelmente impiedosas arrasaram, sem pena, lares pobres e humildes, jogando por terra o esforço de anos de trabalho e suor. O que antes fora ruas largas, onde um povo alegre circulava, tornaram-se canais de uma Veneza de tristeza e dor.

 

A região de Nagoya e Gifu, entre os paralelos 35 e 36 está a meio caminho entre Tokyo Osaka na bacia dos rios Hori, Kizu, Hida, Nagara, Ibi e Shonai, os quais, tendo o volume idH

de suas águas aumentado de maneira assustadora, saíram dos seus leitos, romperam barragens marginais de proteção e alagaram áreas enormes responsabilizando-se assim, por inundar 420.023 casas e mais 3.915 levadas por suas correntezas.

 

Andamos até onde nos foi possível do hotel em que nos hospedamos, próximo à Estação Central de Nagoia em direção aos bairros Minato e Minami ou sejam: bairros do Porto e do Sul, respectivamente. Aí encontramos centenas de pessoas em blocos aflitos, uma tentativa primeira de salvar a sí próprias e, depois, o tanto que fora possível do quase nada que restava dos seus bens.

Estatísticas

 

São 333.787 famílias num total de 1.480.765 desabrigados. São 32.759 casas destruídas e outras 95.701 semidestruídas. São 17.693 feridos. São 900 ainda os que não foram encontrados e são 4.253 os corpos retirados ou das superfícies das águas ou das ruínas e escombros.Os japoneses ainda tinham bem vivo na lembrança o Tufão Muroto que, em setembro de 1934, vitimara 3.066 pessoas.

 

Um homem de 62 anos com quem conversamos, com voz cansada, disse-nos: “Naquela vez perdi meu pai e meu irmão, agora perco uma filha” e completava sua triste declaração com uma frase ingênua, mas por demais significativa: “O próximo tufão achará por certo que ainda sofremos pouco”.

 

O porto de Nagoya, quase totalmente destruído, iniciou suas atividades dia 6 recebendo um navio por dia e no próximo dia 15, quando se acredita que estejam adiantadas as obras de reconstrução, passará a receber, diariamente, 3 navios.

As brechas em barragens na parte sul já foram em grande parte recuperadas; o Centro de Providências para Desastres do Japão Central, resolveu construir, com urgência, 10.000 casas nas prefeituras mais atingidas: Aichi, Mie e Gif; a Dieta[v], espera aprovar na seção extraordinária a realizar-se na última semana do mês corrente, um orçamento extra de 20 bilhões de ienes, para o Fundo de Reabilitação; os jornais, organizações particulares, a indústria, associações várias, representações diplomáticas, altas personalidades estrangeiras, a Cruz Vermelha e suas secções nacionais e internacional, o povo em geral, a Rádio que neste momento os amigos estão sintonizando, manifestaram sua tristeza e lastimaram o doloroso desastre da noite de 26 de setembro e não tem reivindicado esforços no sentido de levar a todos que necessitam o apoio moral e financeiro.

Últimas Informações

Apenas para informação dos nossos ouvintes, acrescentamos que, até agora, somente foi completado um terço das reconstruções dos danos causados pelo Tufão Ida do ano passado.

A agência competente informa calcular em 69 bilhões de ienes ou sejam 190 milhões de dólares, o prejuízo total das indústrias.O número de órfãos alcança cifras elevadas e em virtude da destruição de prédios e aproveitamento dos que não foram atingidos para abrigo dos flagelados, grande é o número de crianças que por mais de 10 dias tem suas atividades escolares paralisadas. Providências foram tomadas a fim de se realizar o mais de presa possível o suprimento de material escolar.Um menino que recebia vacina - providência tomada pelo serviço de saúde pública contra epidemias -, disse-nos com ar muito responsável: “tenho bastante o que ajudar papai e mamãe e não terei tempo para pensar em estudo durante vários dias”.

Palavras finais

Ouvintes do Brasil e demais países da América Latina, temos a certeza de que com a proverbial tranquilidade, paciência, persistência e força do ser, esta gente, duramente atingida, terá em breve, com ânimo erguido, o mesmo sorriso, a mesma disposição para enfrentar os segredos irrevogáveis que o futuro reserva.

 

 

 

[i] Grupo liderado pela esposa do Yukichi Sugihara, futuro primeiro diretor japonês da Usiminas.

[ii] 1958.

[iii] Eu e engenheiros brasileiros da CCT: Mario Franco, Alberto Barbosa e Célio Regnier.

[iv] Iene/ienes unidade monetária do Japão, com símbolo ¥, abreviado JP¥, hoje R$1 vale cerca de JP¥ 29 reais.

[v] Dieta Nacional é o órgão legislativo do Japão, formado pela Câmara dos Representantes e pela Câmara dos Conselheiros, chamadas de Câmara Baixa e ou Câmara Alta, com representantes por eleições diretas.

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