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Artigos-->O TAMBOR UCHIWA DAIKO E A COMISSÃO DE COMPRAS DE TOKYO -- 06/02/2026 - 19:25 (LUIZ CARLOS LESSA VINHOLES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

O TAMBOR UCHIWA DAIKO E A COMISSÃO DE COMPRAS DE TOKYO

L. C. Vinholes

06.02.2026

Uma das escolhas que fiz quando estava por terminar o período da bolsa de estudos que me permitiu conhecer o Gagaku, música tradicional da Casa Imperial do Japão também praticada nos templos xintoístas, foi ter trabalhado na Comissão de Compras de Tokyo (CCT), do final de 1959 a julho de 1961, comissão que acompanharia todo o processo de compra, inspeção e embarque das peças maiores e mais moderna da siderúrgica que seria instalada em Ipatinga: a Usiminas. Nas negociações entre o Brasil e o Japão, ficou acertado que as peças maiores siderúrgica, por interesse econômico mútuo, seriam produzidas em duplicata e usadas na sua “irmã gêmea” a ser construída no Japão.

Levando em consideração minha vivência no Japão e meus conhecimentos da língua japonesa, o senhor Yukichi Sugihara, gerente de movimentada agência bancária em Ginza, no centro de Tokyo, futuro diretor financeiro da planejada Usiminas, convidou-me para fazer parte da CCT.

Basicamente, meu compromisso seria dar assistência aos engenheiros brasileiros e acompanhá-los nas visitas às firmas japonesas envolvias no projeto, mas ficou acertado que, mesmo em viagem, eu estaria liberado nos sábados e domingos. Graças a estes acertos, tive oportunidade de viajar de Norte a Sul do Japão e, nas cidades onde pernoitávamos, fazer meus contados com poetas, músicos e artistas plásticos para os quais levava comigo “cartão de apresentação” de seus parceiros em Tokyo.

Este uchiwa daiko[i] figurou da exposição realizada no
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, em novembro de 2018

 

 

 

 

 

 

O coronel Cyro Borges diretor da CCT e Vinholes,
de dotera, na entrada da hospedaria Oyu no povoado Ikaho

 

Uma das viagens inesquecíveis foi a Ikaho na qual acompanhei ao coronel Cyro Borges e sua esposa. Eram seis horas da manhã quando escutei o rufar de algo que parecia um raro som de tambor. Levantei-me e fui até o pequeno saguão de entrada do ryokan[ii] onde me deparei com a figura de uma anciã monja que tocava um uchiwa daiko[iii] enquanto entoava uma das frases sagradas mais conhecidas Budismo Nichiren, o mantra

 

å—無妙法蓮è¯çµŒ

.

que, muitas vezes, em fonética romanizada, se escreve

 

Nam-MyÅhÅ-Renge-KyÅ

 

e que, em português, pode ser traduzido como:

 

“Devoção ao Dharma Místico do Sutra da Flor de Lótus”

 

No mesmo lado do tambor está reproduzido o mantra citado, ladeado pelas datas de:

 

昭 å’Œ 三å八年一月二日

Showa 2, de janeiro de1963

e

昭 å’Œ 三å四年一月一八日

Showa,18 de janeiro de 1959

 

do lado esquerdo 三浦 (Miura) o nome da monja

e

do direito é™å²¡ (Shizuoka[iv]), o nome da Província.

 

Se perguntei não lembro, a verdade é que esqueci ao que se referem estas duas datas.

 

O encontro com a monja Miura

 

 

Indo ao encontro, cumprimentei a nobre andarilha com um polido e respeitoso Seja bem vinda, ã„らã£ã—ゃã„ã¾ã› (irashai mase) o que a surpreendeu, mas, ao mesmo tempo, criou o clima favorável à minha tentativa de tocar o delicado instrumento. Fazendo sons com a boca, imitei o ritmo das batidas que ela produzia quando cantava seu mantra. Não sabendo que eu era músico, mais uma vez Miura ficou encantada com meu tino rítmico e, sorridente, passou-me o tambor. Toquei como se tivesse ensaiado antes de sua chegada. Não tardou para a conversa mudou de rumo e ela começar a indagar o que eu fazia no Japão, sobre os japoneses no Brasil, suas atividades como lavradores, se comiam arroz, se tomavam chá, etc., mas sempre demonstrando ter uma ideia equivocada a respeito da realidade brasileira. Depois de um bom tempo, com o sol a pino, inclusive com a presença esporádica do pessoal do hotel, a monja despediu-se e eu a acompanhei por alguns passos até o acesso à estrada de terra batida por onde seguiria seu caminho.

Para o resto do dia, a visita da monja foi o tema das conversas e da curiosidade do turista engenheiro coronel Cyro. Mas a surpresa maior estava reservada para a manhã do dia seguinte quando a monja Miura voltou e do seu furoshiki[v] retirou o exemplar do uchiwa daiko que me deu de presente, que guardei por muitos anos, que me deu muita alegria e que, com orgulho, sei que faz parte do acervo da Discoteca do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas.

Hoje, pela primeira vez, confesso que as emoções que tive no encontro com a anciã monja Miura não me permitiram saber e ter certeza de que o tambor que toquei em sua presença é o mesmo que me foi dado e foi exibido no MALG e que, silencioso, está em minha terra natal.

 

[i] Neste tambor está faltando o pegador de madeira para empunha-lo

[ii] Ryokan é a hospedaria tradicional japonesa.

[iii] Uchiwa daiko, tambor de moldura em forma de raquete, percutido com uma baqueta de madeira, de ponta alcochoada.

[iv][iv] Shizuoka uma das prefeituras/estados de Honshu, Região Central do Japão, onde estão o Monte Fuji e grandes plantações de chá.

[v] Furoshki, espécie de trouxa, パッド入り (padoiri) usada pelos japoneses.

 

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