MEUS CANTARES A OBRA DO PIANISTA ALCIBÍADES LINO DE SOUZA
L C. Vinholes
29.12.2025
Na visita que fizemos a Pelotas na segunda metade de novembro, com o objetivo de estar ao lado de minha irmã Zaira Vinholes Siqueira, tivemos oportunidade de passar algumas horas na sempre acolhedora casa de Yara Bastos André Cava, a quem, carinhosamente, chamo de minha madrinha, por ter sido a responsável pelo primeiro encontro com o compositor e maestro Hans Joachim Koellreutter, evento que justificou meu definitivo afastamento de minha cidade natal e a definição de minha carreira como compositor, embora, por alguns anos, paralelamente às obrigações de funcionário público ligado ao Ministério das Relações Exteriores.
De Yara recebi exemplar da edição de MEUS CANTARES, uma coleção de canções para canto e piano com músicas de autoria de Alcibíades Lino de Souza, edição comemorativa do 83 aniversário do Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 18 de setembro de 2001, produzido pela Editora e Gráfica Universitária-UFPel, com a seguinte dedicatória: Ao amigo Luiz Carlos Lessa Vinholes, lembrado por seu talento artístico na escrita das palavras, nas composições que criou, que me fazem lembrar com saudades do outro amigo o (Béade) Alcibíades. Carinhosamente a colega e amiga Yara.
Nos parágrafos do Prefácio dessa publicação, Yara dá rápidas e escassas informações sobre o pianista e sua obra:
Está coleção de músicas do professor Alcibíades é a primeira edição graças ao dinamismo e sensibilidade da professora Regina Balzano de Mattos, Diretora do Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas que, juntamente com o professor Guilherme Goldberg, não mediram esforços para a realização desta tarefa.
Alcibíades Lino de Souza é natural de Jaguarão e pertence a uma família de músicos amadores que tinham por hábito fazer música de câmera. Inicia seus estudos musicais aos oito anos com instrumento de sopro, flautim, sob orientação do mestre de banda Delvaux.
Aos doze anos começam suas aulas de piano com o professor e compositor André Raffo. Posteriormente matricula-se no Conservatório de Música de Pelotas, onde conclui seus estudos em 1938. Sua vida profissional, dedica a essa Casa, quer como professor, quer como acompanhador, compositor ou arranjador.
Não possuindo estudos aprofundados de composição, o processo criativo em Alcibíades flui como inspiração espontânea[i]. Uma poesia ou linha melódica, uma dor, uma saudade ou acontecimento que o impressione, ativam sua imaginação criativa.
De estilo claro, sua obra de escrita despretensiosa, é apaixonadamente inspirada. Compõe para canto solo e coral, violino, violoncelo, piano e orquestra.” Yara registra ainda que “O coral do Conservatório, sob a orientação da professora Lourdes Nascimento, de saudosa memória, incentiva momentos mágicos dessa criatividade”.
Meus Cantares
Sob esse título estão as páginas que trazem as partituras de canções, modinhas, barcarola etc. de autoria de Alcibíades. A primeira tem como letra a prece Padre Nosso, seguida pelas dos títulos Definição, A Canção da Menina Triste, Sinto Saudade, Exaltação ao Rio Grande do Sul, Perdão, Crepúsculo, Imagina, O Mar, Há 50 Anos da Querência, Ao Cair da Tarde, Esperança, Saudade, Vamos Cantar Vida Minha, Lá ... (bem distante na serra), Rancho de Sapé, Casinha Velha[ii] e Teimosa, respectivamente, com letras de Ruy Topim, Marta Valéria Garcia, José Francisco M. Brito, Cândida M. da Rocha, Cândida M. da Rocha, Walter Oliveira, Apody Almeida Oliveira, N.N, Barbosa Lessa[iii], Vera Bassols, Yara B. André Cava, Walter R. Oliveira, Ovídio Chaves, João Simões Lopes Netto, N.N., Walter Oliveira e N.N..
Não pode deixar de ser lembrado que o Grêmio dos Alunos do Conservatório, em 22 de agosto de 1959, promoveu um Concerto de Gala com composições do professor Alcibíades transmitido pela Rádio Tupancí[iv], interpretadas pela soprano Hygia S. Wiener e pelo Coral do Conservatório sob a regência da mestra Lourdes Nascimento. O evento foi encerrado com as obras para dois pianos Reflexos de Luz e Capricho em lá maior, interpretadas pelo autor e pelo professor Fernando Lopes.
O poema de Yara Bastos André Cava
Em homenagem à pianista Yara, professora aposentada do Conservatório, transcrevo, a seguir, o poema[v] que figura na partitura das páginas 38 a 40, musicado por seu colega e amigo Alcibíades:
Nos anos da passagem das décadas de 1930 e 1940 quando eu começara a frequentar o Colégio Gonzaga, na parte da tarde, voltando para casa, sempre percorria a Rua Argolo, passando pela Padaria Vitória na esquina com a Rua Barão de Santa Tecla, para ali comprar o pãozinho quente e com ele tomar o café com leite que me esperava. Mas, geralmente nas quartas-feiras, minha mãe Joaquina costumava, depois do almoço, visitar a meu avô Nico[vi] e esperar por mim para voltar para casa, eu mudava meu trajeto: saia do colégio percorria a Rua Senador Mendonça até a Barão de Santa Tecla, dobrava à direita e logo na terceira porta entrava no corredor da casa onde morava Alcibíades e, sentado nos degraus daquele corredor, ficava a ouvi-lo a tocar o seu piano. As melodias, os acordes e a rítmica do que ouvia, faziam-me esquecer o tempo e chegar com atraso à casa do meu avô, onde Joaquina, minha mãe, preocupada, perguntava-me porque demorara tanto. Menos mal que minha justificativa era aceita. Uma vez, sem que eu soubesse, fui gentil e generosamente convidado a entrar na sala onde estava o piano de Alcibíades e, sentado em confortável sofá, assistir aos exercícios de estudo que fazia de passagens mais difíceis, exigindo mais preparo e desenvoltura.
Alcibíades Lino de Souza.
Foto de 12.10.1954
dedicada ao Grêmio dos Alunos do Conservatório de Música de Pelotas
[i] No final dessa afirmação, a autora registra que se valeu de “consulta ao trabalho de pesquisa da professora Maria Luiza Coelho, em 1986.”
[ii] Casinha Velha, canção sertaneja, premiada pela Rádio Nacional no programa Em Primeira Audição”, de 1959.
[iii] Luiz Carlos Barbosa Lessa (1929-2002), primo xará, a quem devo meu prenome, foi folclorista, escritor, músico, advogado e historiador.
[iv] Rádio Tupancí AM 1250 e FM 96,7, emissora de rádio sediada em Pelotas, RS.
[v] Na partitura não consta pontuação e as maiúsculas definem os versos.
[vi] Em família, meu avô materno Antônio Fernandes Lessa era conhecido por Nico.