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Artigos-->A VELHICE CONTRARIANDO A FILOSOFIA -- 17/11/2009 - 11:03 (Divina de Jesus Scarpim) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Lendo uma matéria em uma revista de filosofia (Ciência e vida – Filosofia – Ano – n° 10 – editora escala) deparei-me com um discurso tão meu conhecido e tantas vezes ouvido ou lido por mim que resolvi comentar mais uma vez já que estamos falando de filosofia e discordar radicalmente de filósofos reconhecidos é sempre uma temeridade excitante. A autora do artigo (Talita Cícero) é jornalista, mas cita vários filósofos em sua matéria que tem como objetivo, como praticamente tudo que leio sobre o assunto, convencer as pessoas velhas de que a velhice é maravilhosa e a gente deve sempre estar feliz com ela e por ela. Discordo enfaticamente!



Citando a filósofa Edi Mail Bohrer, Talita concorda que: “Não existe outra forma de encarar a velhice se não aceitando-a e vivendo-a.” Mais adiante uma citação de Sêneca: “Assim como tudo o que é natural, a velhice também é boa, e não revela decadência.” (filósofos também mentem, e muito!). Depois outra citação da mesma Edi Mail Bohrer: “Todos nós vamos envelhecer e morrer. Precisamos aceitar a nossa finitude terrena.” Com essas citações fiquei enjoada (novamente!) da palavra “aceitar”. Aceitar é pura passividade, aceitar é não pensar, não questionar, não lutar, não agir, não fazer NADA! Aceitar é estar morto! Eu não aceito! E começo não aceitando essa idéia de que só se pode ser feliz aceitando.



Primeiro temos que aceitar a dependência, as imposições, os castigos, as ordens nem sempre realmente sensatas dos pais; depois temos que aceitar a palavra dos professores mesmo quando eles próprios não sabem o que e do que estão falando, e a palavra de seres humanos como nós que se acham melhores porque se colocaram na posição de representantes e intérpretes da palavra de um deus que, coincidentemente, sempre concorda com eles; daí temos que aceitar ordens dos chefes, imposições do mercado, sobrecarga de trabalho e preocupação, obrigações sociais, impostos absurdos que desaparecem nos bolsos dos ladrões que governam nosso país; e, por fim, temos que aceitar a velhice e a morte. Bela maneira de não viver!



Temos que viver na dependência dos nossos pais enquanto não podemos suprir nós mesmos as nossas necessidades básicas, mas nosso objetivo, e o que nossos próprios pais esperam de nós, é que não aceitemos essa dependência a não ser como temporária. Saímos dela assim que conseguimos ganhar nosso próprio sustento. Temos ainda que aceitar, de nossos pais e dos adultos que nos rodeiam e são responsáveis por nós, imposições que são colocadas com o intuito de nos proteger e nos fazer crescer a ponto de nos tornarmos independentes dessas imposições, quando teremos condições de agir por nós mesmos e escolher com consciência nossos caminhos. Temos também que aceitar castigos impostos pelos nossos pais, desde que condizentes no tempo e no espaço, com os fatos que os geraram, quando cometemos um erro e podemos ver claramente que o fizemos. Para isso é obrigação dos pais ensinarem, ampararem e orientarem seus filhos, mas, infelizmente, todos sabemos que tem uma quantidade assustadoramente grande de pais que não fazem nada disso e só castigam e dão ordens (às vezes até espancam) para mostrar poder ou para obter paz e tranqüilidade livrando-se da responsabilidade que assumiram (ou deveriam ter assumido) quando tiveram filhos.



Temos sim que aceitar a palavra dos professores que nos mostram caminhos para que possamos ir além deles e que estão na frente da sala de aula para ensinar a conhecer e não impor conhecimentos que eles próprios não possuem e se arvoram de ter. Devemos ouvir as palavras de seres humanos como nós e pensar sobre elas decidindo se vamos ou não segui-las, para isso temos que usar nossa inteligência e nossa liberdade de questionar e descobrir por nós mesmos, e nunca, nunca mesmo, ficar repetindo essas palavras sem compreendê-las, sem pensar sobre elas, sem usar nosso cérebro e nossa razão.



Novamente, temos que aceitar uma série de imposições sociais porque é em sociedade que vivemos e muitas dessas imposições visam o bem comum; Algumas delas temos que aceitar porque estamos fazendo uma troca e dando, por exemplo, nossa força de trabalho e nossa observância das regras em troca do que necessitamos para sobreviver. Mas essa aceitação não deve ser passiva e ignorante, ao contrário, deve ser ativa e esclarecida a ponto de nos permitir lutar - mudar de emprego, entrar para um sindicato, votar em outro candidato, comprar outros produtos - e gerar mudanças quando não concordamos com a situação em que vivemos. Se não fosse a não-aceitação social, ainda estaríamos nas cavernas ou nas árvores, comendo carne crua!



Finalmente, sobre a velhice, temos sim que saber que ela é o nosso destino natural, que a morte é o nosso fim irrevogável e que não temos poder para mudar nenhuma das duas situações; não reconhecer isso é inocência patológica. Mas daí a aceitar passivamente só porque é natural e (pior ainda) achar bom! Ah, daí vai uma grande distância! Se todo mundo aceitasse a velhice como querem essas matérias de auto-ajuda disfarçadas em filosofia, não teríamos saído de uma expectativa de vida de menos de 30 para uma de mais de 60 anos! Não teríamos os inumeráveis avanços da medicina e da cosmética que fazem com que uma pessoa de quarenta e uma de sessenta em muitos casos não sejam tão diferentes assim no que diz respeito à aparência e à qualidade de vida; e não porque a pessoa de quarenta aparenta mais idade mas porque a de 60 aparenta menos.



Não aceitar a velhice não é, obrigatoriamente, sinônimo de infelicidade. Os estudiosos do assunto ligados à medicina e à filosofia estão precisando rever urgentemente seus conceitos! Não aceitar a velhice pode significar simplesmente não aceitar botar no coração o mesmo inverno que a natureza nos coloca nos cabelos. Pode significar saber que a decrepitude está próxima mas estar sempre disposto a adiá-la para amanhã. Não aceitar a velhice pode significar falar sobre o que se sente, desabafando a alma e aliviando o espírito (falar a verdade e não invenções mentirosas de cursinhos de auto-ajuda!). Não aceitar a velhice pode ser cobrar com veemência (e participar inclusive) mais descobertas, mais avanços, mais qualidade, mais conhecimento, mais respeito, mais compreensão.



Aceitar é ser cordeiro indo pro abate sem um balido. Não aceitar é sair da vida molecamente, olhando pra morte e mostrando o dedo médio!

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