Bem, se for seguir o exemplo da sua história (diga-se de passagem e com todo respeito à sua cunhada, igual a uma dezena ou mais de histórias de "curas milagrosas" que já ouvi) eu teria que me lembrar também de outras histórias igualmente acontecidas e não tão felizes...
Vou colocar como exemplo a história do Seu Hélio, um senhor todo bondade, dedicação, carinho e humildade que trabalha na escola em que dei aulas durante quatro anos. Seu Hélio além de ser, no dia a dia e para todos os que convivem com ele, esse perfeito candidato merecedor ao cargo de santo, é muito religioso, está sempre, com palavras como “Deus te ajude e ilumine” desejando que deus ajude a todos a seu redor da mesma forma e com a mesma boa vontade com que ele nos ajuda no nosso trabalho.
Detalhe: Assim como é na escola, Seu Hélio é em casa, já tive oportunidade de vê-lo em família mais de uma vez e é difícil não se comover com o ambiente de amor que ele cria a seu redor. O resultado mais visível disso são seus filhos, que estudam na mesma escola, que já foram alunos de vários de nós e que são exemplos daqueles jovens, infelizmente raros, que a gente vê que tiveram e têm educação e amor em casa.
Pois bem, um dos filhos do Seu Hélio, um adolescente que estava na sétima série (portanto bem mais jovem do que sua cunhada) teve um câncer numa das pernas e começou a via-crúcis do pobre pai e dos demais membros da família, e começou também o sofrimento do garoto.
Foram mais de dois anos, todos que conheciam aquele pai e aquele filho e que tinham qualquer tipo de fé, passaram esse tempo em prece por eles. Até mesmo eu, uma atéia assumida, passei esse tempo desejando muito e com todas as minhas forças que de alguma forma aquela comoção e aquela corrente tão forte de apelo a deus tivesse algum efeito. Eu quis que, no mínimo, a força da mente tivesse como ajudar essas pessoas, desejei até, nos momentos mais críticos, estar errada, e que existisse mesmo algum poder capaz de impedir aquela injustiça.
Nenhum tipo de oração ou corrente de orações, nenhum tipo de desejo ou torcida teve qualquer efeito. Depois de muito sofrer o garoto morreu. E o Seu Hélio continua na escola, trabalhando, distribuindo bondade e carinho à sua volta. E, embora convivesse com ele diariamente, nunca o ouvi dizer uma palavra ou frase que desse a entender que ele perdera sua fé em deus.
Para mim, o coitado do homem não perdeu a fé porque não suportaria o resultado disso. Ter que encarar que não há um deus e que alguns se curam outros não, aleatoriamente e independente de qualquer tipo de mérito - sem que deixe de acontecer de pessoas com mérito serem privilegiadas, como foi certamente o caso da sua cunhada - acho que seria doloroso demais para ele. Então, ele e as muitas outras pessoas que não têm coragem de abrir os olhos para o óbvio, dizem suspirando e fazendo de conta que acreditam nisso: “Deus quis assim.”
Eu poderia dizer agora que se você teve motivos para recuperar a sua fé (desculpe se parecer que estou tentando diminuir a importância da cura de sua cunhada, não é isso que estou fazendo e não é essa minha intenção), maiores motivos ainda teria o Seu Hélio para perder a dele. Acontece que ele já está tão condicionado, já teve o cérebro tão lavado com essas historinhas de adormecer crianças que não é mais capaz de deixar de fazer parte da manada não pensante, das ovelhas que o pastor (diga-se qualquer líder religioso) conduz para onde quer porque elas não têm vontade própria.
Eu nunca vou dizer isso ao Seu Hélio, só o que fiz até o último dia que trabalhei com ele foi tentar dar a ele muito carinho e muita atenção, mostrar-me reconhecida e deixar claro que valorizo muito o privilégio de tê-lo conhecido. Sei que você vai achar uma heresia o que vou dizer, mas e daí? sou uma herege mesmo! Eu, uma atéia ralé e insignificante, dei ao Seu Hélio mais do que um deus todo poderoso e todo bondade, caso esse ser mitológico existisse, teria dado.
Não sei se me explico bem, mas o que acho é que colocar coisas boas que acontecem à gente e aos que nos são caros como exemplo e prova da existência de deus é ser muito egoísta e fazer questão de esquecer e ignorar os milhões de pessoas tão ou mais merecedores do que nós que não tiveram direito a esses acontecimentos bons. Ao invés de agradecer a deus e passar a crer nele e em sua bondade por eu ou alguém que amo ter escapado “milagrosamente” de um acidente ou de uma doença grave, sinto isso como prova de que deus não existe e eu simplesmente tive sorte ou, caso eu esteja errada, de que ele é mau e injusto por ter “salvado” com um “milagre” a mim ou à pessoa que amo e não a tantas outras pessoas que merecem tanto ou mais.
Se houvesse mesmo esse deus, eu é que não iria querer compactuar com ele! Não o admiraria, não o amaria e não o respeitaria. O fato de eu ter sido privilegiada com uma injustiça não torna essa injustiça menos injusta.
Você citou Josué para falar da força da fé e da oração, eu diria: Logo Josué! Aquele assassino que em nome do deus bíblico megalomaníaco e sedento de sangue do antigo testamento, matou tantas pessoas para tomar posse de seus lares? Acho esse personagem bíblico nojento e abominável, e a presença dele como protegido de deus é um dos motivos por que não tenho nenhum respeito por esse livro pleno de histórias de terror que tantos dizem “sagrado”.
Você convidou as pessoas a “malharem” exercitando a fé, eu prefiro convidá-las a malharem o cérebro, exercitando sua capacidade de pensar sem se deixar levar como ovelhas acéfalas que seguem um pastor muitas vezes desonesto e interesseiro e um deus imaginário, ilógico e incoerente, pra não dizer mau e injusto.
PS: O Texto a que estou respondendo, caso alguém queira ler, está nesse endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1582282