“O silêncio tem uma força de comunhão, que não leva ao isolamento, mas põe em sintonia com todas as criaturas, particularmente com todas as pessoas que pensam, esperam e amam... Sem uma ascese e decisão interior, não conseguimos saborear o profundo fascínio pelo silêncio e, a partir disso, a uma comunicação autêntica conosco, com os outros, com a natureza e com o mistério.” (Cardeal Carlo Maria Martini)
Estamos enfrentando uma verdadeira poluição sonora; uma era do barulho. Excesso de carros, som e propaganda, lojas anunciando...; bandas barulhentas, shows em máximo volume, bailes onde a altura das músicas mexe mais com os ouvidos que com o corpo; tornou-se quase impossível conversar mesmo nas festas familiares. Parece que isso agrada aos jovens, e os mais velhos se acham forçados a se acostumarem ou a “caírem fora”.
Será que a moderação, o bom senso, estão saindo de moda e cedem lugar aos exageros? Será então que o silêncio incomoda mais que o barulho? Inacreditavelmente, a resposta é sim. O homem parece não gostar do silêncio, parece se sentir mal diante dele. O barulho, as manifestações de euforia, os espetáculos, disfarçam tudo, mas o silêncio favorece a interiorização e obriga a pensar.... Não são raros os jovens (e também adultos) que ficam inibidos em ambientes calmos e silenciosos; aliás, fogem deles; não agüentam muito tempo. A agitação e o barulho compensam tudo, escondem muita coisa, evitam outras, provocam outras tantas.
Oração, conversa com Deus. Impossível sem uma dose de calma e de silêncio, mas isso parece coisa do passado e a agitação, o barulho invadiu até as Celebrações Eucarísticas. As Missas calmas, silenciosas, que favorecem a oração e reflexão, vão deixando saudades. Não raras vezes nos sentimos mal nas celebrações, desconfortáveis. Fala-se tanto, canta-se tanto e tão alto que não sobra espaço nem para pensar, nem para digerir o que ali se tem de riqueza espiritual. É preciso observar ao menos os três momentos litúrgicos de silêncio para que possa “falar e ouvir” nosso coração, nossa alma: na coleta, após o Oremos... (momento da coleta das nossas intenções e disposições para a celebração); na Consagração e após a comunhão, quando acolhemos Cristo e partilhamos com ele as nossas dores e alegrias.
Precisamos da calma e do silêncio, não o silêncio do fechamento, da indiferença, mas o silêncio da atenção, da escuta; o silêncio da sintonia com o sagrado, com o transcendente, o sobrenatural. Estamos perdendo isso de vista.
A Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia e a Instrução Redemptionis Sacramentum publicadas pelo papa João Paulo II, para salvaguardar a essencialidade da Eucaristia, referem-se ao que se deve observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia.
Nessa mesma linha estão as palavras do Frei Luiz S. Turra, em seu artigo na revista Família Cristã de fevereiro de 2008: “Se é verdade que a liturgia de nossas comunidades cresceu muito em se tratando de participação, também é real a queixa de que nossas celebrações têm barulho demais, muita conversa e ruídos prejudiciais à sintonia com o Mistério. A constituição conciliar Sacrossantum Concilium acena para o silêncio sagrado, necessário para o acontecer de uma verdadeira liturgia.”
Especialmente no aspecto silêncio, a referida instrução recomenda: “Enquanto o Sacerdote celebrante pronuncia a Oração Eucarística, «não se realizarão outras orações ou cantos e estarão em silêncio o órgão e os outros instrumentos musicais», salvo as aclamações do povo, como rito aprovado...”(n.53)
A escritora Adélia Prado, convidada a falar em Aparecida (SP), em dezembro de 2007, no evento “Vozes da Igreja”, com um tom de humor e lamento, afirmou que há “algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar”. Enfatizou ainda que “o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa”. (Fonte: Zenit.org)
Não vemos aqui nenhuma tentativa ou intenção de transformar nossas Missas em celebrações de “surdos e mudos”. É a Palavra de Deus que inunda nossas Celebrações Eucarísticas, mas é necessário que haja ambiente e condições para que ela penetre em nós e produza os efeitos desejados.
A Missa está toda ela revestida de um silêncio celebrativo. “É o silêncio que comunica uma mística cristã, tão indispensável para nossas celebrações serem densas, alegres e transformadoras”. (Frei Luiz S. Turra)