Em “Rota 66”, Caco Barcellos dá uma bela demonstração de como deve ser o trabalho do jornalista que pretende cumprir uma das principais funções do jornalismo, que é a de denúncia persistente como forma de sensibilização e mobilização da sociedade em busca de mudanças, por mais utópico que isso possa parecer.
O livro é resultado de 22 anos de uma rigorosa investigação, iniciada em plena ditadura militar, sobre a ação de grupos extremamente violentos de policiais militares, especializados em matar inocentes. Entre esses grupos encontra-se a Rota – as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar – , cujos procedimentos mais marcantes são descritos ao longo do livro, revoltando e indignando o leitor a cada página lida.
Com muita paciência, persistência e, principalmente, coragem, Caco Barcellos entrevistou sobreviventes e parentes de vítimas da Rota, revirou os arquivos do IML e do jornal Notícias Populares e acompanhou de perto as “investigações” dos assassinatos feitas pelos próprios militares, chegando a um balanço final com números que nada mais fazem que confirmar todos os casos descritos por ele.
A PM investigada pelo jornalista é uma polícia que mata inocentes na maioria de suas ações, muitas vezes com uma crueldade impressionante, altera o local do crime, forja provas, além de ter preferência por negros e pessoas de baixa renda, sem as menores condições de defesa no momento da abordagem e na “investigação” posterior. Uma polícia que mata por vingança e conta com uma justiça conivente, que acaba por incentivar a continuidade das matanças e da impunidade de policiais que competem entre si pelo título de “campeão dos matadores”.
O exemplo do capitão Roberval Conte Lopes – deputado estadual reeleito diversas vezes em São Paulo – , é bem claro: até hoje ele enche o peito para afirmar com orgulho o número de “criminosos” que matou, se autopromovendo às custas de seus próprios crimes. Assassinatos que, assim como a maioria dos praticados pela PM e contados no livro, poderiam ter sido evitados sem qualquer prejuízo à sociedade ou risco a pessoas inocentes.
Com muita habilidade, Caco Barcellos soube transmitir ao leitor o drama das pessoas que, criminosas ou não, foram perseguidas pela PM de São Paulo, cuja principal tarefa deveria ser a de proteger a população. Rota 66 é um dos melhores exemplos de como deve ser o jornalismo investigativo e, por isso mesmo, é indispensável a todo estudante de jornalismo – e também a alguns datilógrafos com diplomas de jornalista que queiram aprender como transmitir a verdade à população.
O autor não se contentou em simplesmente reproduzir as versões dos dois lados da história, como acontece em boa parte dos jornais, num vergonhoso exercício de cinismo e comodismo frente à injustiça. Preocupou-se, sim, em aprofundar, e às vezes, radicalizar as situações, sem medo de revelar nomes e contar o que aconteceu – na maior parte do tempo, fazendo isso em plena ditadura – , revoltando o leitor e cumprindo o principal objetivo do jornalismo investigativo e de denúncia: quanto maior a indignação da população, maior a sua mobilização. Quanto mais indignada, mais a população denuncia
e contribui para que a verdade finalmente apareça, aumentando assim as esperanças de que ocorram, de fato, mudanças em nosso país.