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Artigos-->A estética expressionista de Caligari e Nosferatu -- 14/02/2003 - 01:22 (Fernando Jasper) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Contrastes violentos, uma perene névoa sinistra, trevas. Personagens pálidos, obscuros, angustiados. Essa atmosfera sombria, de horror e pesadelo, é a característica marcante do expressionismo alemão, movimento que teve no cinema uma de suas principais formas de manifestação. Manifestação que se faz perceber nos roteiros e, principalmente, na questão estética, sendo esta talvez a parte mais interessante. Isso é facilmente perceptível em todos os filmes expressionistas, mas principalmente em O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu.



O expressionismo é um movimento cultural fundamentalmente nascido da crise que surgiu na Alemanha após a derrota daquele país na Primeira Guerra Mundial. Por isso, acaba sendo o reflexo de todo o desânimo, humilhação e desespero dos alemães na época. Da certeza da vitória passaram às incertezas em relação ao futuro. Um povo desesperado, assim como o vulto pintado em O Grito, de Eduard Munch.



O movimento acabou prenunciando a ascensão do nazismo, o que é perceptível nos vários filmes dessa vertente. O próprio nazismo fez questão de recusá-lo, tentando destruí-lo. A estética nazista – que privilegiava, entre outras coisas, a reprodução perfeita do corpo humano em pinturas, esculturas etc – não poderia admitir a visão subjetiva do expressionismo, desfigurada e despreocupada com o real. Não era intenção do expressionista “ver” a realidade e a natureza, mas sim percebê-las através de visões, mesmo sendo elas vagas e indefinidas.



O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Robert Wiene, é talvez a melhor demonstração do que é a atmosfera “expressionista”. Passa-se em um hospício, onde um homem jovem conta a um velho (ambos extremamente pálidos, assim como o restante dos personagens) a história do Dr. Caligari, dono de uma feira de espetáculos na vila medieval de Honsteinwall. Caligari era um médico que controlava a mente de Cesare, sonâmbulo que previa a morte das pessoas e, durante a noite, tratava de tornar verdadeira sua previsão. É inevitável a comparação entre o Dr. Caligari e Adolph Hitler (que anos após a realização do filme assumiu o poder). Enquanto Caligari controlava a mente de Cesare, Hitler soube controlar a mente de milhões de alemães (que pareciam tão submissos quanto o sonâmbulo). Um dos propósitos do filme foi justamente criticar o absurdo de qualquer autoridade social.



Como artifício para amenizar as possíveis críticas a esse roteiro cheio de conotações políticas perigosas, foram acrescentados ao filme um posfácio e um epílogo esclarecendo que tudo não passava de delírios de um louco. A princípio, esse acréscimo parece tirar do filme seu forte senso crítico, mas acaba reforçando-o através da própria atmosfera de loucura – uma história como aquela, aparentemente tão irreal, só poderia ser obra de loucos. Como foi o nazismo, que então aflorava na Alemanha.



Mais importante do que a montagem não-linear desse filme, no qual uma história se encaixa dentro de outra, parece ser sua cenografia, extremamente interessante. Os cenários, por questão de economia e de linguagem, eram pintados, como se fossem quadros expressionistas. Os planos e linhas inclinados e tortuosos e as formas distorcidas, assim como o violento contraste claro-escuro tornam o vilarejo ainda mais sombrio. E ainda mais irreal, como se fosse uma construção mental sem qualquer objetividade. Somada ao roteiro, essa cenografia causa no espectador sensações de inquietação e desconforto.



Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, diferentemente das outras adaptações do “Drácula” de Bram Stoker, traz ao espectador um vampiro diferente. A começar pelo seu nome, que em Nosferatu é Conde Orlock, graças a problemas com direitos autorais – Murnau não fez questão de pagá-los e a família de Stoker tentou processá-lo. Por isso, o diretor teve de reeditar o filme para evitar novos problemas.



Mas as principais diferenças entre Conde Orlock e Conde Drácula não estão restritas a isso. Ao contrário dos outros vampiros do cinema, que são sempre extremamente elegantes (como no dirigido por Francis Ford Coppola), o Nosferatu é um ser decadente, miserável e relacionado com a peste – nosfur-ato, em eslavo antigo, significa “o portador de pragas”. E graças, novamente, à “atmosfera expressionista” e sua estética ousada, o filme consegue causar no espectador sensações muito mais aterrorizantes do que na maioria das outras adaptações de Drácula, que ficaram restritas à estética norte-americana, quase sempre convencional, realista e conservadora.



Além disso, Murnau faz algumas alterações significativas no roteiro original. Transporta a ambientação da Inglaterra para a Alemanha e o ano, ao invés de 1880, é 1836, coincidindo com o surto de peste negra na cidade alemã de Bremen. Surto de peste pelo qual Orlock acaba sendo culpado e perseguido pelos moradores de Bremen. Um vilão que pode ser comparado a um pobre animal fugindo de seu predador e escondendo-se nos cantos escuros da cidade. Momento em que torna-se questionável a relação entre o bem e o mal, dúvidas que parecem ter tomado conta também do povo alemão derrotado na guerra.



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