Tudo isso tendo ao fundo o silêncio total. A voz decidida do locutor impõe aos espectadores pausas que parecem intermináveis, tamanho o suspense criado. Não parece um daqueles trailers de uma superprodução de Hollywood?
É, mas logo depois desta apresentação aparece um repórter mané, falando de um joguinho de um campeonato carioca qualquer, num estádio das laranjeiras qualquer (“a arena”), no qual “a bola” é maltratada por dois pernas-de-pau (“dois gigantes em campo”) idolatrados pelo tal repórter. O “depois da batalha, só um sairá vivo” se refere ao fato de que o time perdedor será eliminado da disputa pelo sétimo lugar do octogonal final. Na seqüência da “reportagem”, usa-se uma trilha sonora do tipo Indiana Jones, Guerra nas Estrelas ou coisa parecida, refletindo com perfeição o espírito do grandioso jogo de futebol que está sendo noticiado.
Quem é o repórter? Segundo ele mesmo, Régis (pausa) Resing. (Na escola de formação de energúmenos, ele foi expulso).
Antes, era só com ele. Agora, pode-se ouvir isso de qualquer repórter da Globo. Aliás, o Mal tem se espalhado pelas outras emissoras também. É o PADRÃO RÉGIS RESING DE QUALIDADE. Lembram do tal “Padrão Globo de Qualidade”? Já não era lá essas coisas, caiu há muito tempo e se afundou ainda mais depois que o repórter gaúcho se mudou para o Rio e passou a fazer matérias exibidas em rede nacional. A partir daí, todo cara com microfone na mãe ganhou permissão dar uma de engraçadão e testar os limites da paciência do espectador, aquele coitado infeliz que se senta diante da TV em busca de um pouquinho só de informação.
Antes, era só com o esporte. Mas eis que um dia alguém teve a grande idéia de enviar Régis (pausa) Resing para algum daqueles conflitos do Oriente Médio. Se por um lado, a idéia foi boa – Resing poderia pisar numa mina e morrer – por outro, foi péssima – ele não morreu e voltou cheio de moral. Aposto que, depois dessa, o sonho dele é aparecer naquele quadro do Faustão, Arquivo Confidencial, e chorar ao ver sua professora da segunda série dizer que ele era um aluno exemplar.
O Esporte Espetacular é um exemplo da decadência. Os maiores fãs de Régis (pausa) Resing estão lá, com destaque para Milena Ceribelli. Contaminado pelo Mal de Resing, o “programa” consegue fazer os que já não gostam de esporte odiá-lo e os estudantes de jornalismo que já não gostam de TV preferirem passar o resto da vida operando uma máquina de xerox.
Desafio você a assistir uma edição inteira dessa coisa. Tá achando fácil? Pois então não valem aqueles domingos em que tem Fórmula 1, quando o programa dura um pouco menos. Ah, também não vale trocar de canal enquanto estiver passando a Copinha Espetacular, o Gol do Povo ou pior, o Gol do Povo Internacional. Se você agüentar, não pense que acabou. Tente assistir o restante da programação de domingo, que, contaminada com alguns bacilos do Mal de Resing, conseguiu ficar ainda mais torturante. Se você não tiver cortado os pulsos já na Turma do Didi, não se iluda: irá cortá-los no Gente Inocente. Em último caso, do Camisa 12 você não passa!
Régis (pausa) Resing é tão ele mesmo que usaria o “padrão trailer” até numa daquelas matérias estúpidas que a Globo gosta de passar durante os jogos da Copa. É, aquelas que mostram as colônias de imigrantes que moram no Brasil, “com o coração dividido entre a terra natal e o país que os abrigou”. Se o jogo é da Alemanha, basta ir para Blumenau e filmar os alemães enchendo a cara e falando mais besteira que a gente quando vai ao Roxinho. No caso da Inglaterra ou da Irlanda, é só ir a um pub e filmar os ilustres britânicos fazendo o mesmo que os alemães. Dá até para mostrar os refugiados senegaleses que “apesar de tudo, ainda encontram motivos para sorrir, ao torcerem por seu país, a grande surpresa da Copa”. E por aí vai. Para Régis (pausa) Resing, não há limites.
Depois de tudo isso, não poderia deixar de terminar este artigo como ele terminaria uma reportagem. Com um final feliz e abobado: